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Escrever sobre o amor e sua volúvel completude implica o risco de lançar mão de evasivas que resvalam em um blablablá. Difícil aceitar que o encontro amoroso finde ou mude, pois deveria ser ininterrupto. No entanto, os casais sempre apresentam suas querelas, suas rusgas.
A busca pela completude amorosa não é um esforço moderno; talvez tão antiga quanto a própria humanidade. Platão, em O banquete, trata do amor e suas qualidades; em um dos discursos versa sobre a sensação de completude no encontro amoroso, seu caráter esférico. Segundo esse discurso, os amantes que se buscam, antes foram um único ser, esférico, que foi cindido e por isso estariam anelando a novamente tornar-se um - assim o encontro amoroso seria, na verdade, um reencontro.
Não por reles ímpeto de citar; mas lembro ainda que, para os gregos em sua mitologia, o amor (Eros) é filho de Poros (riqueza) e de Pênia (pobreza) tendo então uma origem ambígua. Eros, na mitologia grega, possui também um antagonista denominado Anteros, e tão poderoso quanto ele, pois se o primeiro representa o que une, aproxima, o segundo é o que desune, desagrega, evitando também que os seres se confundam em fusão amorosa. Curioso notar que o amor comporta a fagulha do que separa como forma de marcar a dissimilitude - a falta entre os seres que se amam -, já que a fusão amorosa almejaria a anulação do par, fazendo-se um.
Possivelmente, um dos filmes que melhor trata da questão do encontro amoroso inefável é As pontes de Madison (1995), portagonizado por Clint Eastwood e Meryl Streep. Não é um acesso de pieguice citá-lo, devo advertir aos universitários e cinéfilos que a película figura entre os melhores filmes da década de 90 na lista da legendária revista francesa de cinema Cahiers du cinéma. O que importa em As pontes de Madison é como duas pessoas que se conhecem por acaso vivem em quatro ou cinco dias um amor arrebatador. O enredo nos revela Francesca, uma dona de casa em uma pequena cidade do interior, que conhece Robert Kincaid, um fotógrafo que está na cidade para um breve trabalho; rapidamente se envolvem - apaixonam-se.
O casal nos retrata todo o fulgor de um encontro amoroso genuíno - ardem em um átimo de completude embalados por canções nas vozes de Dinah Washington e Johnny Hartman. Então os dois personagens sequiosos por manter esse momento fusional pensam em fugir; para Francesca isso significaria abandonar seu marido e dois filhos adolescentes que amava. Entre impulsos de paixão e hesitações, ela decide permanecer com a família, deixando que Robert se vá. Francesca chega a dizer que, se fugissem, o amor acabaria. Robert deixa a cidade e Francesca permanece com sua família, entretanto os dois passam a alimentar uma espécie de amor saudoso através de missivas e lembranças. Supreendentemente o amor se consolidou por aquilo que foi vivido e pelo que poderia ser, mas resistiu como intenção apenas - permaneceu um amor ideal que, sem as frustrações e as detumescências próprias do convívio e da rotina, construiu um acesso mais duradouro para o que viveram.
O personagem Robert Kincaid, quando perguntado por Francesca sobre os sonhos, projetos, que tivera, responde: “Os velhos sonhos eram bons sonhos. Não se realizaram, mas foi bom tê-los”. Assim, há algo que nos impulsiona nos sonhos, mas concretizá-los nem sempre é fundamental. Quem sabe seja esta a medida do que se pode obter do encontro amoroso em seu embate entre Eros e Anteros; entre o ter e o não ter, sendo naturalmente contraditório.
Independente de desencontros, o amor é procurado como sentido da vida. Sérgio Sampaio, cantor e compositor brasileiro, fala em uma canção sua denominada “ Na captura” sobre a busca de “ todo mundo” pela outra metade amorosa e “ que no fundo só existe pra procurar você” . Sampaio descreve no encontro amoroso a realização ideal, a completude, - “enchendo todas as pontes que vão dar no coração”. Tal “captura”, sensação fulgurante, é mais bem descrita pelos poetas que pelos doutos.
A idealização do amor dificilmente resiste ao descompasso natural ao convívio de um casal, pois o brilho narcísico do amor é pouco afeito a frustrações e a fazer concessões. Mesmo que se devote “amor incondicional”, algo é pedido, em troca, ao outro sob forma de manutenção do laço amoroso. Suportar que o amor se modifique naturalmente. Talvez seja essa a medida para a paz transitória a que aspiram os casais.
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