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Aracaju,SE
Setembro/2010

Antônio da Cruz
Artista plástico nascido em Maruim (SE), ilustrador, chargista e pintor em várias técnicas.

Blog - Antônio da Cruz - 01/07/2009 07:53
Paradoxal mudança de paradigmas 

A questão do diploma para se exercer atividades profissionalmente é de fato um assunto polêmico. Quem aprendeu a duras penas a desenvolver sozinho uma atividade, e se vê repentinamente barrado de exercê-la profissionalmente, fica fulo da vida. Certamente foi assim que se sentiram os jornalistas no dia em que a ditadura militar decretou o fim do exercício profissional para quem não tinha o diploma de jornalismo. Foi um golpe, como outros, dentro do golpe militar de 1964. O chamado grande jornalismo era exercido com excelência por intelectuais bem articulados. Certamente foi um desespero para quem dependia da atividade para sobreviver.

Naquela época caberiam outras perguntas. Por exemplo: quando se fará exigência do diploma para outras atividades que obtêm o reconhecimento apenas pelo talento notório, como as artísticas. É verdade que as habilidades inerentes ao sujeito podem lhe render fama e dinheiro, sem que tenham lhe conferido um diploma pela academia. Mas para reprimir, a ditadura poderia exigir, de uma hora pra outra, o diploma de dramaturgo, poeta, cantor, ator e palhaço. Mas naquele momento preferiu bani-los. Por necessidade de se acelerar a qualificação e atendendo a interesses gerais, os cursos de artes em nível superior foram se estabelecendo sem traumas ao longo do tempo.

Os professores do antigo curso normal devem também ter ficado irados quando foi determinado que a partir de 2007, para ensinar eles precisariam ser habilitados em nível superior. Isto não foi na ditadura militar. A ditadura tinha o propósito de imobilizar as penas mais contestadoras que, através dos jornais incitava a insurgência. No caso do governo FHC, ainda que acusado de elitista, o propósito era melhorar a qualificação dos professores, e, por consequência, do ensino. A verdade é que, regulamentação e qualificação profissional nem sempre foram coisas de ditador ou presidente pedante. Categorias profissionais perceberam que, com a regulamentação, poderiam ser beneficiadas pela proteção social, além de promover um equilíbrio quantitativo. Limitando o acesso à profissão, se mantém um bom valor de remuneração diminuindo o exército de reservas que faz baixar os salários.

Com o tempo, a situação de profissões e profissionais muda. Os bancários eram em número bem maior, até que os caixas eletrônicos tomassem seus lugares e a categoria viesse a ser bastante reduzida. Os bóias-frias canavieiros que trabalham hoje em jornada e ritmo estafantes, com seus patrões milionários negando uma simples refeição quente, em breve serão substituídos por máquinas. São mudanças de paradigmas que impactam os trabalhadores. Em todos os casos nota-se que, sem se conformar, a sociedade procura e encontra dispositivos para se adaptar à nova realidade. Luta-se por compensações.

A pedagogia, como técnica, continua tendo importância nas escolas e a própria Lei de Diretrizes e Bases possibilitou a formação de professores por treinamento em serviço; nos jornais os colaboradores, articulistas e colunista difundem suas idéias dando palpite de toda natureza e convivem com jornalistas; os artistas que saem das faculdades com diploma de músico, ator... convivem com os talentos autodidatas. Isto somente é possível graças à tolerância ou flexibilidade democrática.

É compreensível que os jornalistas estejam na defensiva desde que o STF sentenciou, segundo sua própria interpretação da constituição, que, para exercer a profissão de jornalista não é necessário o diploma de curso superior. Para quem tem outra profissão e exercita o jornalismo como atividade secundária esta decisão pouco ameaça ou tem importância. Mas, para quem idealizou jornalismo como a profissão da sua vida, que a via como fim, certamente é um desastre. Agora chorar não faz revolução. Quando indivíduos se agrupam para se defender é porque há ameaça real e contundente. O direito de autodefesa é primordial.

A decisão do STF não se constitui lei proibitiva, mas a invalidação de uma prática. Se os jornalistas acreditam que a luta faz a lei, deverão se unir em defesa dos seus interesses visando uma saída para a crise, que até agora é mais psicológica do que social. Na ditadura, aqueles sem diploma que se sentiram afetados pela decisão contrária, sequer puderam se organizar para a defesa. Hoje se tem a democracia a favor dos diplomados. A solução é a unidade da categoria dos jornalistas, mais do que nunca. O corporativismo somente é nocivo quando encobre o desvio de conduta de membro de um grupo, mas é saudável ao defender os interesses legitimados pela prática de décadas.

Num momento como este, o pior são as atitudes pouco construtivas: de um lado os esnobes que estão levando vantagem, ao cismarem em tripudiar sobre os jornalistas, e alguns destes, por outro lado, ao transformarem colaboradores de jornais em bruxos a serem queimados imaginando ser esta a solução do problema.

Os tempos são outros. Sábio é o povo que diz: “não há uma mal que não traga um bem”. Do decreto inibidor da liberdade de expressão na ditadura à decisão do STF, o diploma se constituiu em direito adquirido para valorizar a profissão e tem o reconhecimento da sociedade. Certamente a simples existência de uma categoria profissional nunca foi ou será limite de liberdade de expressão, isto se as leis não forem draconianas e os governos garantirem a liberdade como valor universal.

Qualquer atividade humana que se queira dar tratamento sério deve ser disseminada com aprimoramento técnico. Se antes era necessário talento literário para a prática do jornalismo, hoje não se pode acusar qualquer profissional da área de não ter talento, pois se aprimoraram as técnicas tornando hábeis os seguidores das normas e procedimentos que regem essas técnicas. Inquestionavelmente o curso superior dá régua e compasso para a prática profissional correta. O autodidata tem seus méritos. Ele gera o próprio conhecimento a partir da intuição e do empirismo. O custo disto, no entanto, é ter de esperar que nasça um punhado de indivíduos, em cada século, com a genialidade perscrutadora capaz de feitos dignos de serem multiplicados. O ensino racionaliza e difunde o conhecimento facilitando a sua absorção pela maioria dos cidadãos, e o curso superior, bem mais municiado, inquestionavelmente, qualifica quem se dispõe a aprender. O aprimoramento profissional, todos sabem, vem com a prática.

Realmente, neste instante, muita gente não queria estar na categoria dos jornalistas. Num momento tinha ela a liberdade ceifada por um diploma; decorridas quatro décadas o diploma se converteu numa conquista; agora, de repente, a conquista lhe escapa. Paradoxal e perversa é essa tal mudança de paradigmas.
 


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