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Aracaju,SE
Setembro/2010

Antônio da Cruz
Artista plástico nascido em Maruim (SE), ilustrador, chargista e pintor em várias técnicas.

Blog - Antônio da Cruz - 18/03/2010 07:25
Réquiem 

Um contedendor medíocre, dada a própria condição, não consegue feitos valorosos; não tem argumentos e não se contenta com o próprio fracasso. Somente na desqualificação da pessoa do seu adversário enxerga a possibilidade da vitória. Esta premissa tem sido o mote para se tratar da disputa entre Antonie Saliere, o compositor e Maestro da Orquestra Imperial da corte do Imperador José II, em Viena, Áustria, século XVIII e Wolfgang Amadeus Mozart, o seu contemporâneo, compositor clássico genial que conquistou o mundo e teve morte cheia de controvérsas. O assunto foi tema de peças teatrais e filmes.

Adaptado da peça do dramaturgo e roteirista britânico Peter Shaffer, o Filme “Amadeus”, do theco Milos Formam, estrelado por Tom Hulce como Mozart e por F. Murray Abraham, como Saliere, foi grande sucesso de público e crítica. Ali, enquanto Mozart é apresentado como um abobalhado desconcertante, o Saliere é a personificação da inveja dissimulada e maquiavelicamente sutil. Há quem discorde da construção de ambos os personagens. Dizem que Saliere nada tinha de invejoso e Mozart jamais seria um tonto, pois este era também um intelctual com domínio de várias linguas. Talvez Mozart se encaixasse no estereótipo que, de tanta dedicação à arte, não tenha gerenciado bem a própria vida, pois, se a arte é apaixonante a música excita e embriaga.

Com lançamento em 22 de março, no Teatro Tobias Barreto, a peça “Réquiem”do dramaturgo pernambucano Elmar Castelo Branco, oferece uma versão da conturbada história. Elmar é um múltiplo ativista cultural, que nesta área ele é autor, diretor, ator, cenógrafo....e tem tempo para artes plástica, atuar como carnavalesco, e, no contraponto, como advogado.

A peça reapresentada dia 28 de março, trata da inveja advinda de um sentimento de mediocridade engendrado por quem se compara e se autodeprecia. Todo o texto se referencia no grande personagem fisicamente ausente do palco, que é Amadeus Mozart. Ele está subliminarmente presente nas citações dos personagens. Ao longo da peça se dá o diálogo confissional entre Saliere e um padre. O padre é interpretado pelo ator convidado Flávio Porto. Assumindo-se mediócre, vê-se um Saliere indignado ao comparar a sua labuta com a forma aparentemente displicente, natural, mas, magistral com que Mozart compunha. O diálogo é intenso, revelador e pedagógico, na medida em que produz grandes reflexões filosóficas, além de desenhar o perfil de um ser com alma atormentada.

Na montagem da peça para a estréia em Sergipe, produzida e dirigida pelo ator e diretor Luiz Carlos Reis, o papel de Saliere cabe ao próprio Luiz Carlos. O fato impactante é que, de forma trágica, cai como uma luva a condição do proprio ator, que sofreu infarto e AVC, tornando-se cadeirante, e o personagem, Saliere, que se encontra numa cadeira de rodas após um suicídio fracassado. Aqui vale ressaltar o amor à arte da representação expresso por Luiz Carlos Reis.

Luiz Carlos Reis atuou em várias peças em são Paulo e em Sergipe. Teve participação como ator em espetáculos memoráveis como em “Os olhos verdes da neurose” de José Expedito Marques; Esperando Godot”, Samuel Beckett; “Ratos de esgoto” Viera Neto;“O auto da Compadecida, Ariano Suassuna; citando alguns. Dirigiu “A moratória”, de Jorge de Andrade; “Ay Carmela”, José Sanchís Sinisterra; e “Doroteia vai à guerra”, Carlos Alberto Ratton, entre outros.

Artista premiado em várias edições do Prêmio Arlequim de Mármore, Luiz Carlos Reis recebeu o Troféu Imprensa, em Sergipe e também foi premiado no XVII Festival Nacional de Teatro de São José do Rio Preto, São Paulo, atuando na peça “Esperando Godot”, como melhor ator.

Réquiem é um grande desafio para o nosso grande ator Luiz Carlos Reis. Um artista antagônico à mediocridade, pois sabe fazer com competência o quê se propõe. Atualmente, ainda que as condições lhe sejam adeversas, o seu talendo e tenacidade são a afirmação de que a inveja não encontra guarida na sua biografia.

Ficha técnica
Autor: Elmar Castelo Branco
Direção: Luiz Carlos Reis
Elenco: Luiz Carlos Reis e Flávio Porto
Performance: Milton Leite
Iluminação: Sérgio Robson.
Sonoplastia, sonorização e fotos: Regami
Cenário, Figurino e Maquigem: L. Carlos Reis.
Cenotecnia: Antônio da Cruz

NOTA:
A expressão Réquiem, requiem, do latim, refere-se às missas católicas fúnebres que iniciam com esta palavra. Rogam a Deus que dê sossegoo eterno aos mortos. Muitos compositores as produziram. Mozart, compôs em 1791.
Ver a letra em: http://pt.wikipedia.org/wiki/R%C3%A9quiem_(missa_cat%C3%B3lica);
a melodia e partitura em: http://www.youtube.com/watch?v=swkT07TP-mo
 


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