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Escrito quando emergiu a guerra de ocupação do Iraque, (20 de março de 2003) à revelia da ONU, depois dos Estados Unidos também agredirem o Afeganistão como retaliação ao ataque de 11 de setembro de 2001, o texto que segue foi publicado no Jornal PIPIRI, da Fundação Cultural de Aracaju. Agora, nesta coluna, são acrescentados trechos (em itálico) apenas para trazê-lo aos nossos dias, mas mantendo a sua de essência.
Do primeiro amigo invisível que criamos, quando criança, ao último círculo amizade formado na fase final das nossas vidas, nós buscamos elaborar o diálogo como necessidade de sociabilidade. Ainda que, com o nosso amiguinho imaginário dos primeiros anos de vida resulte apenas, deveras, num monólogo.
A evolução da nossa própria percepção, a necessidade de compreendermos e nos portar adequadamente no universo em que vivemos atiça a nossa imaginação. Do simples diálogo imaginário evoluímos para atividades mentais mais complexas. Elaboramos formas de abordagens verbais e a cada descoberta nos certificamos das infinitas possibilidades oferecidas pela imaginação. Ainda neste campo, diante de certas dificuldades, nos emaranhamos com o clima de competição, daí armamos jogos mentais, com métodos e recursos de ataque e defesa, alimentados pela ignorância, o medo, a perspicácia e por isto desejamos o poder como forma de dominar todo o sentimento desqualificador da personalidade. Mas, pode-se eleger a significação mais profunda para a imaginação: a própria liberdade de imaginar, criar e expor tranqüilamente os nossos feitos. Pensar a liberdade, uma necessidade visceral, torna-se nobre quando o coletivo se beneficia dos seus resultados.
A liberdade, como a água num oceano, não teria motivo existir se não houvesse sentido para a vida. Para o ciclo biológico a água deve existir em abundância. A liberdade assim deve ser abundantemente criadora. Nalgumas sociedades pode-se ter a liberdade tal e qual o mar, noutras, como um lago. As margens reprimem a expansão das águas, e, conforme a topografia elas delineiam o contorno. Nessa analogia pode-se dizer que, numa sociedade a liberdade está contida por margens e delineada conforme os seus diversos valores. Entre sociedades, tal e qual entre pessoas, o exercício da liberdade deve estar em pé de igualdade. Há limites compreensíveis. Sem enveredar aqui pelo caminho do legalismo, podemos nos imaginar como seres sensíveis cujos valores comuns alteramos na medida em que o senso coletivo aceita incluir novas significações às coisas ou substituir valores tradicionais ou simbólicos por outros.
Neste caso, a hospitalidade brasileira tende a afastar comportamentos xenófobos. A universalidade do encontro de povos pode ser identificada em lugares como São Paulo, onde pessoas de etnias conflitantes no Oriente Médio convivem no Brasil. As raras hostilidades ficam isoladas.
Na evolução da espécie humana se incluem: os avanços tecnológicos, do modo de produção, biológicos, sociais, inseridos aí os costumes, e os políticos. Para evoluirmos de dentro para fora o imaginário, a sensibilidade, os sensos de observação e crítica tendem a incidir sobre valores margeadores, como os morais e religiosos, estabelecendo novos parâmetros de tolerância às inovações. Tal evolução para a humanidade tem sido lenta, mas, por vezes com picos abruptos, revolucionariamente inquietantes. A importância dada aos sistemas de comunicação os tornou democráticos e qualificados, melhorando acima de tudo o colóquio como forma de resolver os conflitos.
Contrapondo-se a um conceito universal de evolução amplamente aceito, interesses individuais impregnados de gana provocam lacunas ou alteram o ritmo de forma a retardar avanços gerais, tendendo a conduzirem num sentido único onde apenas um ou dois aspectos da evolução acontecem. Neste caso, vendo a questão de forma macro, grande parte da população humana tenderá a ficar de fora dos benefícios do progresso. No personalismo, da simples necessidade de mostrar que existe à de se afirmar como aquele que detém o poder, o tirano emerge e o diálogo se rompe. Em sendo um indivíduo com problemas existenciais onde pequenos conflitos e traumas da infância não tenham sido por ele superados as relações interpessoais se deterioram. Vem-lhe a solidão que o excesso de poder faculta aos ditadores sem lambe-esporas.
Na permanência de mais uma guerra de proporções desconhecidas, onde a ganância e o poder absoluto das armas tentam sufocar o diálogo, nós brasileiros que constituímos uma nação com alto grau de tolerância, ainda que perdurem os bolsões de hipocrisia e intolerância, muito temos que usufruir: do bom humor, da alegria e do espírito festivos nativos, nascidos no seio popular. É culturalmente sedimentado o uso perspicaz da imaginação que figura entre folclórico e filosoficamente imoral: “o jeitinho brasileiro”. Na hora de torná-lo benfazejo o jeitinho é o avesso do levar vantagem, vindo a se constituir numa ferramenta de solução maneira.
Cabem explicações: as intenções capciosas converteram essa expressão em sinônimo de desonestidade; tolerância aqui está longe de significar licenciosidade à roubalheira; assim como não implica afirmar que o país é um paraíso. A violência urbana decorre da ineficiência das políticas públicas, que são questões à parte para serem debatidas.
O parágrafo abaixo apontou um futuro previsível. Recentemente o Brasil deu exemplo de maturidade diplomática ao resolver a questão do gás com a Bolívia, respeitando a sua soberania, sem dores de país imperialista. Também não tergiversou nos seus direitos, tendo iniciado o recebimento do pagamento das refinarias. No caso de Honduras, o Brasil tem feito valer mais uma vez o diálogo como meio para resolver o imbróglio em que o presidente Zelaya o envolveu.
Em novos tempos, de sinais tão visíveis, o Brasil é a novidade. O país jovem adulto que renovará, com seu exemplo, de como reforçar a cultura do diálogo para o mundo reaprender o sentido da sociabilidade internacional, pois, diferente da infância, na fase adulta a solidão nos dá amigos invisíveis com os quais conversamos e juntos ficamos loucos.
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