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Discursar diante de uma platéia desconhecida pode provocar muito mais pavor do que ver certos filmes medonhos. Se todos tivessem essa avaliação certamente entenderia bem melhor porque entra num cinema para assistir a um filme de terror. Num auditório o público é real. A sua falha de memória, o tremular de suas mãos podem sugerir falta de conhecimento do assunto, o que representa insegurança ou incompetência para estar naquele lugar com tamanha responsabilidade. Aquele público poderá ser agressivo ao sentir-se lesado por terem anunciado uma coisa e lhe apresentarem outra: um orador inapto. Num cinema, o indivíduo está preservado, apesar de poder imaginar está “sentindo na pele” o que o personagem está vivendo. É certamente por ter consciência de estar preservado das situações que o sujeito larga-se no cinema, entregando-se ao conforto da poltrona para ver o filme. A atividade é de distração: ele desarma-se. Daí, naquelas cenas surpreendentes: sustos! saltos! O diretor sabe. É com isso que ele brinca.
O encantamento pelo inusitado, impulsionado pelo “medo respeitoso” levou o ser humano à adoração da natureza como força criadora capaz de todas as realizações entre elas as “punições” como conseqüência das “desobediências” a essas mesmas forças misteriosas. A consciência deste medo e da origem dele se deu evidentemente na medida em que aconteceu a evolução da espécie.
O desconhecido é essencialmente provocador de receios e ansiedades. Se medo e curiosidade são antagônicos, no sentido de fazerem pessoas tomar posição, pode-se dizer: o medo que detém é atraso; a curiosidade satisfeita é avanço. Um indivíduo dito primitivo, que ande nu, poderá sentir pavor só em se imaginar dentro de uma roupa, mas, possivelmente sentirá atração por aquela novidade. A natureza impõe o medo sob seus vários aspectos: o trovão, o raio, a tempestade, o vulcão, o furacão e o terremoto.
Os possíveis estragos por eles provocados são imprevisíveis e aterradores, principalmente por não se ter controle sobre tais forças descomunais vindas das suas entranhas. São essas forças misteriosas que na imaginação sugerem reerguer, até em massa, mortos, zumbis e outros seres, dando-lhes vida eterna e forças descomunais, tornando-os indestrutíveis. Ou!... Para o mocinho quase indestrutíveis.
Não há dúvida que, para satisfazer a curiosidade e espantar o medo, a comunicação foi e continua sendo fundamental. O cinema enquanto meio de comunicação de massa concede o medo em doses e a oportunidade de vencê-lo, ainda que não seja por inteiro.
O medo é maior quanto mais intimista for a cena. A solidão do personagem e o que pode lhe acontecer, quanto mais comparada com aquela que viverá o telespectador fora do cinema, mais inquietação causará. A cena longa de um corredor silencioso e a repentina aparição de uma figura obscura, não contida no que poderemos chamar de configuração imagética imediata, mais um ruído perturbador, gera o sobressalto de quem está desavisado pela tranqüilidade da cena imediatamente anterior. É novamente o uso da dialética, em que situações extremamente opostas resultam numa terceira. Neste caso, a síntese é o susto: emoção súbita que faz o cardiógrafo registrar no gráfico instantaneamente o pico da batida cardíaca. Neste caso, o tempo entre a recepção e a assimilação da imagem, que se pode denominar de tempo morto, é demasiadamente curto, impedindo de o olho humano captá-la por inteiro e o cérebro decodificá-la, a ponto de se lembrar que está diante de uma fantasia.
As cenas feitas na penumbra contribuem neste sentido e têm também o propósito de causar estranheza, fazendo combinação com o ambiente nebuloso do subconsciente humano. Como nos sonhos, em que rostos, lugares e situações são indefinidos. As coisas são amorfas: o contorno, o conteúdo, a sombra e o brilho quase se confundem ou não existem. O tempo sofre toda sorte de variação ilógica e os personagens mudam de fisionomia tendo a mesma identidade, ou vice-versa, sem controle do elemento que sonha.
Pode-se dizer que, mesmo o diretor não considerando o seu estilo surrealista, a linguagem dos filmes de terror tem como ponto forte esta escola, dada a desestruturação da imagem dos personagens, como figuras irreais saídas de pesadelos.
A principal linha trabalhada com objetivo de mexer no horror implícito na alma do telespectador, e de grande aceitação, apesar do lugar comum, é a da psicose dos personagens. Os roteiristas e diretores exploram as psiconeuroses humanas provenientes do inconsciente de vários problemas. As neuroses e obsessões em todos os indivíduos. Na tela um sujeito doente. Na sala escura do cinema, o telespectador com a alma angustiada pelos crimes daquele vilão que não dá chances para a sua vítima, geralmente indefesa.
No centro desta questão: o medo das vítimas e da platéia. Ali se vê um ser humano sendo o predador de o próprio ser humano, caçando o outro com uma presa a ser devorada. Diferente da “aceitação” das mortes provocadas pelos heróis nas guerras, ou revoluções e por policiais de ruas, por mais cruéis que sejam. Aquela morte que espreita a vítima num quarto, numa viela escura, não tem apoio do clamor público, nem foi respaldada por uma decisão política num parlamento para defesa de uma demanda econômica, política ou social. É uma morte intimista, praticada a amiúde, por estrategista único, e com objetivo tão obscuro quanto seus métodos.
Num filme de terror, a morte é carregada de simbologia, associada aos primórdios da espécie humana. Eras esquecidas pela memória. Pode também ser instigantes, desafiando todos a acreditarem que no futuro o sujeito se deparará com algo incompreendido pelos limites do conhecimento humano e que o destruirá ou o devorará com propósito igualmente tenebroso.
Na Antigüidade a loucura era um fenômeno diabólico. “A forma como o sujeito estava pagando seus pecados”. Ganhou “status” de doença mental na revolução francesa. Entre aquela e esta situação atual, de ser “anomalias e desequilíbrios nervosos”, o cinema se reporta a estas e a todas intermediárias. Os valores estéticos acadêmicos (clássicos) incluindo o “tudo que é belo é bom” caíram por terra. O personagem pode ter uma ótima “embalagem” e um “conteúdo” horripilante, ou seja, o psicopata pode ser um atleta de fisionomia angelical.
Um passo no escuro qualquer remete ao desconhecido. O ser humano continua esta aventura chamando para si desafios, ainda que sejam ilusórios. Há nos mistérios a provocação da curiosidade que somente será satisfeita quando o próprio mistério for desvendado.
Segundo os códigos do padrão cinematográfico, na solução maniqueísta final também terá a morte do maníaco. A platéia respirará aliviada. O medo vivido durante a exibição do filme estará vingado. Cuidado! O monstro expirará em convulsivo ataque ao herói num último instante, pregando o último susto antes de morrer. Este é também o último clichê do filme. As luzes retornam e vem o alívio. Na rua não se sabe com quem vai se deparar!
N A.: este texto foi elaborado originalmente para a Revista Plano Geral do curso de Teoria e Crítica de Cinema, organizado pelo Cine Clube Fantomas e o SATED, em Aracaju, no mês de setembro de 1997, mas não foi publicado na oportunidade, sendo substituído na revista por O Maniqueísmo e o Pragmatismo no Cinema, deste mesmo autor. Em 2003 este foi publicada na Revista de Aracaju, da Fundação de Cultura e Turismo e Esporte da Prefeitura de Aracaju.
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