Ato raro é presenciar alguém pedir a bênção a religiosos, idosos, parentes ou não. O tempo se encarregou de transformar esse costume em caretice e sinônimo de pessoas antigas. Aliado ao pedido tinha o beijo na mão. Os revolucionários anos 1970 mudaram tudo.
Hábitos, rumos, comportamentos, tudo novo. A modernidade da filosofia ‘paz e amor’, da liberalidade dos costumes, das contravenções sociais, do jeans rasgado, cabelos grandes, difusão do rock roll, levaram a força do ensejo, a vagar no universo.
Atualmente nos convívios familiares esse hábito ainda que disfarçado e em surdina, volta à tona. Ele vem a reboque da insegurança frente à violência que comanda as sociedades. Hoje se pedem bênçãos aos que ficam nos lares, na esperança de uma ida e retorno, em paz.
O reconhecimento da força da palavra dita ao universo faz que ela retorne com força e poder. Quando abençoava minhas crianças à noite, já nas camas, ainda acrescentava um ‘durma bem e sonhe com os anjos’ e ouvia delas, sonolentas, ‘amém. Você também... ’
Hoje, quando sou questionada pelas bênçãos que dou a alguns afilhados e filhos de amigos, sorriu e digo que é coisa de quem vive no passado. Eles ouvem a resposta, mas nem atinam para a verdade embutida no dito. Curiosa com meu próprio ato eu fui buscar resposta sem pieguices.
Encontrei dentre as cartas que me foram escritas pelo querido Padre Arnóbio Patrício de Melo (1927-2005), um pedido para que nunca, em tempo algum, me furtasse a abençoar um filho, ainda que eles não me pedissem. Afirmava ele que ‘bênção é a ausência de maldição. ’
Que Deus nos abençoe.