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Aracaju,SE
Julho/2010

Gilfrancisco
Jornalista, pesquisador e professor membro do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe.
Contatos através do email: gilfrancisco.santos@gmail.com

Blog - Gilfrancisco - 04/01/2010 11:51
A Revista Meridiano e seus 80 anos 

Na década de 20, na Bahia, os três escritores que se revelaram – antes de qualquer revista, grupo ou movimento literário – foram:

Eugênio Gomes, com o poema Moema; Herman Lima, que era cearense, com os contos de Tijipió (posteriormente, já morando no Rio, escreveu um livro interessantíssimo, A História da Caricatura no Brasil); e Godofredo Filho, com os seus poemas, sobretudo o Poema de Ouro Preto.

Depois, ainda na mesma década, apareceram três grupos quase simultâneos, todos refletindo a inquietação do Modernismo: o da revista Arco & Flexa, o da revista Samba e a Academia dos Rebeldes.

O grupo de Arco & Flexa foi o mais organizado no sentido da imprensa, o de maior influência. O guru do grupo, o mestre, era Carlos Chiacchio, um intelectual mineiro aqui radicado, que escrevia o rodapé literário de A Tarde. Esse rodapé era o que havia de maior peso na vida literária baiana, e teve, a meu ver, uma influência muito grande e muito positiva. Diz Jorge: sou, inclusive, imparcial para dizer isso, pois eu não pertencia ao grupo do Chiacchio; ao contrário, nós, da Academia dos Rebeldes, o combatíamos muito. Seus integrantes eram todos de famílias conhecidas e de boa condição social.

O grupo da revista Samba, economicamente o menos poderoso, era liderado pelo alfaiate Bráulio de Abreu (1903), excelente sonetista; publicou em 1996 Alma Profana, faleceu com quase cem anos. Desse grupo faziam parte o novelista Elpídio Bastos, o poeta e jornalista Clodoaldo Milton, que depois foi para o Rio, o Bittencourt Sobrinho, um ficcionista de muito talento, que morreu moço, Nonato Marques que dedicou-se a política e outros.

A Academia dos Rebeldes, que existiu de 1927 a 31, se formou em torno de um velho poeta e jornalista baiano, João Amado Pinheiro Viegas, descendente de espanhóis. Era um poeta baudelairiano, poeta de rima rica, grande epigramista. Um homem avançado para os padrões da época. Havia participado da campanha civilista ao lado de Rui Barbosa e trabalhado vários anos no Rio. Na Bahia ele trabalhou no O Imparcial, na época um jornal importante e que terminou sendo vendido aos integralistas. Deixou um livro, Brasil em Prosa e Verso, e várias plaquetas. Morreu em 1937, aos setenta e dois anos.

Faziam parte da Academia dos Rebeldes, pessoas que mais tarde foram literalmente muito importantes: o contista Dias da Costa, o grande ensaísta e etnógrafo Edison Carneiro, o romancista Jorge Amado, o grande poeta Sosígenes Costa, que apesar de viver distante em Ilhéus, sempre foi considerado do grupo, o poeta e depois dirigente comunista durante muitos anos Aydano do Couto Ferraz, Walter da Silveira, o mais moço do grupo e fundador do Clube de Cinema da Bahia, em 1950, João Cordeiro, romancista e tão cedo desaparecido, Clóvis Amorim, o sonetista piauiense Da Costa Andrade, o poeta e cronista Alves Ribeiro, os poetas José Bastos e De Souza Aguiar, o jornalista Otávio Moura e Pinheiro Viegas, patrono espiritual da Academia.

Os “rebeldes” viviam em torno de Pinheiro Viegas (1865-1937) e se reuniam diariamente no Café das Meninas e no Bar e Bilhar Brunswick, em Salvador, para comentar os fatos triviais da cidade, os escândalos do bairro literário, discutir os livros aparecidos e as revistas mais recentes. No início estavam mais ligados com as figuras populares: capoeiristas, malandros, estivadores, boêmios, prostitutas, gente simples da feira de Água de Meninos e do mercado das Sete Portas, do que a literatura propriamente, ou seja, sem muito ou nenhum peso intelectual na vida literária baiana.

O grande contista Dias da Costa, um dos freqüentadores do Bar Brunswick, uma mistura de café e bilhar, situado numa transversal da Rua da Ajuda e pertencente a um sírio, diz que “ali, todas as tardes, se encontravam alguns rapazes e um velho da face voltaireana, vestido de preto, monóculo encravado no olho esquerdo, bengala de estoque na mão, que fazia frases, soltava paradoxos, declamava epigramas cruéis e, vez por outra, recitava cintilantes poemas simbolistas” (...) “Ali encontrei, à volta de Pinheiro Viegas, Alves Ribeiro, Clóvis Amorim , João Cordeiro, Guilherme Dias Gomes, Edison Carneiro e Jorge Amado. E, desde essa tarde, fiz amigos dos quais, até hoje, só a morte me separou”. (Dias da Costa. Há quarenta anos na cidade do Salvador. Jornal de Letras, Rio, julho, 1967).

Na verdade a rebeldia dos adolescentes era organizar-se para poder enfrentar “os bons camaradas” da revista Arco & Flexa, comandado por Carlos Chiacchio (1884-1947), ou “os simpáticos rapazes” da revista Samba: Bráulio de Abreu, Clodoaldo Milton, Elpídio Bastos, Nonato Marques e outros. Hostil ao Modernismo, o grupo atuava nas polêmicas que cindiam as instituições de produção e difusão do campo intelectual da época. Este grupo literário era detentor de outra concepção de Modernismo e opondo-se a agremiações vigentes.

Colocava-se em contraposição não só a grupos locais, mas também a instituições de dimensão nacional, como a Academia Brasileira de Letras. Ou seja, o Modernismo encontrava então na Bahia, os primeiros ecos e as primeiras oposições. Meridiano (revista de vanguarda), de divulgação dos “rebeldes” foi publicada em setembro de 1929, um único número, o qual trazia o manifesto do grupo.

Publicada em papel jornal, apresentando o formato de 33x16 cm, sendo a mancha de 18 x11,5 cm, sem indicação de páginas (33 páginas, sendo que 8 destinadas a publicidade). Capa simples, de cor esverdeada, sem nenhuma foto no interior da revista, impressa em Fonseca Filho e Cia, tendo na direção, Alves Ribeiro, Da Costa Andrade e Jorge Amado, cujo endereço da redação era Cruzeiro de São Francisco, 16, onde funcionava a Academia dos Rebeldes. Segundo depoimento de Jorge Amado:

“Meridiano não passou do primeiro número, nós, os Rebeldes, éramos pobres como Jó, exercíamos nossa prosa e nossa poesia em qualquer gazeta que nos desse guarida: O Jornal, órgão da Aliança Liberal, as revistas A Luva e Etc.” (Jorge Amado. Alves Ribeiro, A Tarde, Salvador, 29. junho, 1975, diz que o editorial da revista Meridiano, não assinado, foi escrito pelo acadêmico de Direito José Alves Ribeiro).

Portanto, a revista era uma publicação marginal, expulsa da república das letras baianas. Na primeira página do periódico, trazia o artigo manifesto, Itinerário, sem assinatura:

“Itinerário

MERIDIANO sugere e inicia o combate a tudo o que retarda a marcha do progresso, em todas as manifestações do espírito humano. E considera o rotineirismo como um dos maiores obstáculos a vencer. Obra de regeneração moral e intelectual. Espírito moderno. Dinamismo. Século vinte.
* * *
Condena o sentimentalismo atrofiador de energias.
Desportos. Ar livre. Eugênia.
* * *
Condena as velhas superstições religiosas, que constituem o ponto de apoio da ignorância.
Substituam-se as mesmas pelas verdades da ciência.
* * *
Condena os convencionalismos idiotas que impedem o surto de todas as idéias novas.
Pensar e agir por conta própria.
* * *
Condena a tagarelice dos filósofos, a bisbilhotice dos gramáticos, a literatice dos diletantes, o verbalismo dos retóricos e as frioleiras dos 'poetas do amor e da saudade'
Filosofia prática, intuitiva, racional. Literatura instrutiva, sadia, edificante. Poesia simples, natural, sem artifícios.
* * *
Condena os 'ismos' importados do estrangeiro.
Escrever fora do julgo de estéticas desorientadas e incoerentes.
* * *
Condena os regionalistas em geral, que querem reduzir a nossa Literatura a uma fuzarca de violeiros e caipiras.

Literatura com motivos brasileiros, mas de interesse universal.”

Colaboram neste único número: Hosannah de Oliveira, Da Costa Andrade, Sosígenes Costa, Alves Ribeiro, De Souza Aguiar, José Bastos, Otávio Moura, Jorge Amado e Pinheiro Viegas. Sobre as colaborações, Meridiano - revista antimodernista, antiverde-amarelista, franqueia as suas páginas a todos os intelectuais do país, ficando ao critério da redação da revista, o julgamento dessas colaborações recebidas. Mas, tinha seus colaboradores efetivos: Hosannah de Oliveira, Sosígenes Costa, Otávio Moura, De Souza Aguiar, José Bastos e Pinheiro Viegas.
Neste número, Sosígenes Costa colabora com três poemas, sendo dois em prosa. Sua poesia marcou-se pelas tendências modernistas, embora com independência e personalidade própria: Apoteose das Parcas; Palhaço Verde e Narciso.

Os membros da Academia dos Rebeldes, também atuaram nos periódicos A Semana, dirigido por Da Costa Andrade, bem como em O Jornal, órgão da Aliança Liberal, que apoiou a Revolução de 30, onde Jorge Amado conjuntamente com Dias da Costa e Edison Carneiro, publicaram o romance, Lenita, de forma dúplice, primeiro em folhetim ou “fascículos”, neste jornal em 1929, com Jorge Amado adotando o pseudônimo de Y. Karl, e depois editado no Rio de Janeiro em 1931.

O romance foi estruturado da seguinte forma: cada um dos três autores escrevia um capítulo, desafiando a cada final, a capacidade dos dois outros de continuarem a narrativa. Segundo Jorge Amado, “um romance tão ruim que precisou de três autores”, ou “livro ruim de três adolescentes influenciados pelo maneirismo modernistas.” Além do Diário da Tarde, de Ilhéus, Estado da Bahia, o Diário da Bahia, os “rebeldes” publicaram vários trabalhos nas revistas: A Luva, Boletim de Ariel, Etc., que depois tornou-se integralista e O Momento.


 


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