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Aracaju,SE
Setembro/2010

Gilfrancisco
Jornalista, pesquisador e professor membro do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe.
Contatos através do email: gilfrancisco.santos@gmail.com

Blog - Gilfrancisco - 14/10/2009 11:53
Zé Dantas e a poesia nordestina 


Ao conhecer Zé Dantas, Luiz Gonzaga já era nome consagrado nacionalmente pelas transmissões da Rádio Nacional do Rio de Janeiro e sucessos em discos, em sua maioria feita em parcerias com o cearense Humberto Teixeira. Mas com Zé Dantas a discografia da música popular nordestina foi enriquecida de antológicas produções ainda hoje objeto de estudo e regravações. Os temas de suas canções transitavam desde as mágoas do migrante que abandona sua terra, passando pela sensualidade do sertanejo e pelo deboche perante as situações adversas da vida.

 


“Zé Dantas? Zé Dantas foi outro caso espetacular. Ele veio na onda do baião. Ficou naquela área de sertão, puro, autêntico, rimas fabulosas.”

Luiz Gonzaga

(O Pasquim, Edição nº. 111, 17 a 23 de agosto de 1971)


Grande parte da produção nordestina (litorânea ou sertaneja) já havia interiorizado uma linguagem que já pudesse ser identificada nos grandes centros consumidores de discos e de radiodifusão, a exemplo da música estilizada do baiano Dorival Caymmi. No caso do baião, a introdução caracterizou-se por certa preocupação didática, endereçada a um público novo:

“Eu vou mostrar pra vocês
Como se dança o baião
E quem quiser aprender
É favor prestar atenção”.

(Baião - Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga, Odeon, 22 de maio de 1946, pelo grupo Quatro Ases e Um Coringa)

Em 15 de março de 1972, entrevistado pela revista Veja “Eterno Rei do Baião”, Gonzaga afirma que “o baião foi idéia minha e do Humberto Teixeira”, acrescenta:

“Quando toquei um baião para ele, saiu a idéia de um novo gênero. Mas o baião já existia como coisa do folclore. Eu tirei do bojo da viola do cantador, quando faz o tempero para entrar na cantoria e dá aquela batida, aquela cadência no bojo da viola. A palavra também já existia. Uns dizem que vem do baiano, outros que vem de baía grande. Daí o baiano que saiu cantando pelo sertão deixou lá a batida e os cantadores do nordeste ficaram com a cadência. O que não existia era uma música que caracterizasse o baião como ritmo. Era uma coisa que se falava: “Dá um baião aí...” Tinha só o tempero, que era o prelúdio da cantoria. É aquilo que o cantador faz, quando começa a pontilhar a viola, esperando a inspiração”.

Dança muito em voga no século XIX no nordeste brasileiro, o baião como apreciam hoje teria nascido do chamado rojão, baiano, pequeno intermédio musical executado na viola entre os cantos do desafio. Diz Luiz da Câmara Cascudo que “a partir de 1946 o grande sanfoneiro pernambucano Luiz Gonzaga divulgou pelas estações de rádio do Rio de Janeiro o baião, modificando-o com a inconsciente influência local dos sambas e das congas cubanas. O baião, vitorioso em todo o Brasil, conserva células rítmicas e melódicas visíveis dos cocos, a rítmica (de percussão) com a unidade de compasso exclusivamente par.” Vejamos a letra “Tudo é Baião” de Zé Dantas:


andam dizendo
que o baião é invenção
quem disse isso
nunca foi no meu sertão
pra ver os cegos
nesse ritmo cantando
e os violeiros
no baião improvisando

e os sanfoneiros
do Moxotó
desde o Navio
ao Piancó
do Pajeú
a Cabrobó
canta baião
lá nos forró
pois o balaio
lá no sertão
e o xém-iên-iên
qué seu irmão
até as cantiga
de Lampião
na minha terra
tudo é baião

(Zé Dantas e Luiz Gonzaga, Edição Vitale, 1952; gravação RCA, 1953, intérprete: Quatro Ases e Um Coringa)

Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira chegavam feito um convite, não apenas para conquistar ouvidos, mas para balançar os corpos. De 1946 (ano em que o gênero explodiu comercialmente) até o início dos anos 50, viveu sua fase de ouro, quando muitos baiões considerados “clássicos” foram compostos e gravados: Siridó, Juazeiro, Qui nem jiló (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira) “Vem Morena” (Luiz Gonzaga e Zé Dantas)

Vem, morena, pros meus braços
vem, morena,vem dançar
quero ver tu requebrando
quero ver tu requebrar

quero ver tu remexer
no resfolego da sanfona
até o sol raiar

esse teu suor salgado
é gostoso e tem sabor
pois o teu corpo suado
tem o cheiro de fulô
tem o gosto temperado
dos temperos do amor

esse teu fungado quente
bem no pé do meu pescoço
arrepia o corpo da gente
faz o véio ficar moço
e o coração de repente
bate forte em alvoroço

(Zé Dantas e Luiz Gonzaga, Edição bem, gravação, 27/9/1949, RCA)



A associação com Humberto Teixeira (19xx-19xx) acabou em 1950, mas Gonzaga encontrou Zé Dantas com quem fez duas canções em 1949, Vem Morena e Forró de Mané Vitor e aumentaria essa parceria no ano seguinte: Derramaro o Gai, A dança da Moda, Cintura Fina, A volta da Asa Branca, Adeus, Rio de Janeiro, Rei Bantu, O torrado. Em 1953 Luiz Gonzaga gravou a toada - baião de Zé Dantas “Vozes da Seca”, talvez a primeira canção de protesto:


seu doutô os nordestinos
têm muita gratidão
pelo auxilio dos sulista
nesta seca do sertão
mas doutô uma esmola
a um home qui é são
ou lhe mata de vergonha
ou vicia o cidadão

é por isso que pedimo
proteção a vosmicê
home pur nóis escuído
para as rédia do pudê
pois doutô dos vinte Estado
temos oito sem chuvê
veja bem, quase a metade
do Brasil tá sem cumê

dê serviço a nosso povo
encha os rio de barrage
dê cumida a preço bom
não esqueça a açudage
livre assim nós dá esmola
lhe pagamo até os juro
sem gastar nossa corage

se o doutô fizer assim
salva o povo do sertão
se um dia a chuva vim
que riqueza pra nação
nunca mais nóis pensa em seca
vai dá tudo nesse chão
cumo vê nosso distino
mecê tem na vossa mão


(Zé Dantas e Luiz Gonzaga, Edição RCA-Leme, gravação RCA-Victor, fevereiro de 1953)

 

José de Souza Dantas Filho nasceu em 17 de fevereiro de 1921, em Carnaiba de Flores, município pernambucano do Alto Pajeú. Começou a compor xotes, baiões e toadas desde o seu tempo de aluno no Colégio Americano Batista do Recife (1938), onde publicou alguns desses trabalhos na Revista Formação e conheceu Gonzaga na Praia de Pina, durante a primeira visita deste ao Recife. Luiz Gonzaga conta como foi um dos encontros que tiveram:

"Eu estava hospedado no Grande Hotel e Zé ludibriou a vigilância, bateu na porta do meu quarto, eu abri e ele entrou como estava tangendo gado... Tchan, Tchan! Oi, hê boi, cuch, cuch! Eu ri, falei: - Que é isso rapaz? Então, ele respondeu: - Ué! num é assim que tu fazia lá no sertão? Olha, eu tenho umas musiquinhas pra mostrar pra você. Naquele momento, apresentou-me "Vem Morena", que depois foi gravada pelo cantor-sanfoneiro." Médico obstetra de formação, Dantas teve imensa paixão pela música e gostava sempre de enaltecer o folclore do nordeste brasileiro. Durante os plantões que dava nos hospitais, entre uma cirurgia e outra, fez muitas de suas composições.
Luiz Gonzaga, por muito tempo, procurou bons letristas, poetas que pudessem ajudá-lo a compor. E encontrou. Dominique Dreyfus, autora do livro "Vida do Viajante: a saga de Luiz Gonzaga" (2ª. ed. 1997), afirma que, na verdade, muitas das canções foram feitas unicamente por Zé Dantas ou Humberto Teixeira, tendo Gonzaga uma participação reduzida e, às vezes, nenhuma.

"Eu nunca fui nem compositor, nem letrista. E sempre fui dependente de um bom poeta. Eu não gosto de fazer uma música do início ao fim, e as poucas que eu fiz não se deram muito bem. Eu faço o monstro e entrego ao poeta. Eu sempre fui um sanfoneiro. Com Zédantas, às vezes era parceria mesmo, outras vezes ele fazia letra e música e eu fazia os arranjos. Eu sou mais um sanfoneiro".

Compositor, poeta e folclorista fundamental para a fixação do baião como gênero de sucesso, Zé Dantas, começou a compor suas primeiras músicas e a escrever crônicas sobre folclore para uma revista pernambucana, a partir de 1938. Em 1951 compuseram mais um clássico, o baião "Sabiá", e no ano seguinte foram às paradas com a marcha junina "São João na Roça" e com a triste "Acauã" (esta assinada apenas por Zé). Zé Dantas atuou ainda ao lado de Paulo Roberto no programa "No Mundo do Baião", na Rádio Nacional (RJ) em 1953, ano em que estouraram "O Xote das Meninas" e "Farinhada" (esta também apenas de Zé) na voz de Ivon Curi. Outro ícone do baião, Jackson do Pandeiro, também fez sucesso com uma canção de Zédantas, "Forró em Caruaru".
Quando Zédantas foi diretor folclórico da Rádio Mayrink Veiga, do Rio de Janeiro, o compositor pernambucano chegou a regravar suas canções mais emblemáticas em disco. Mesmo depois de sua morte, em 11 de março de 1962, todas as músicas da dupla (Zé Dantas e Luiz Gonzaga) continuaram a ser regravadas pelos maiores nomes da MPB.

Dantas/Teixeira


Apesar de serem parceiros em duas canções, “Acorda Maria” gravada por Neuza Maria e “Piririm”, baião gravado por Marlene em 30 de maio de 1951, Zé Dantas e Humberto Teixeira nunca foram muito amigos. Gonzaga era o único elo entre eles. Humberto, que apareceu primeira na vida de Luiz Gonzaga, era advogado. Dantas, mais moço cinco anos, era médico. Ambos se interessavam por política, o primeiro elegendo-se deputado pelo Partido Social Progressista - PSP, liderado por Ademar de Barros e o outro se orgulhando de ser "apenas um anônimo sertanista". Humberto Teixeira tinha uma ambição: universalizar a música nordestina, o que tentou fazer através da lei que levou o seu nome. Zé Dantas preferia cantar as coisas do agreste.
Um fato curioso entre os dois intelectuais nordestinos é que Zé Dantas em suas canções, fala sobre as coisas do sertão vivendo nele, enquanto Humberto Teixeira, morando no Rio de Janeiro, recorda em suas letras as paisagens e o sofrimento do povo nordestino. Foi o próprio Luiz Gonzaga quem melhor estabeleceu as diferenças entre os dois: Diz Luiz - Humberto era mais mesclado com a cidade, com o asfalto. E Zé Dantas veio do sertão bravo. Eu costumava dizer que podia sentir o cheiro de bode na pessoa dele.


Forroteria

Surgido durante a segunda metade da década de 1950, quando a migração de nordestinos para o Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília tinha chegado ao seu auge, na esteira da eufórica construção da nova Capital, os forrós constituíram um curioso exemplo de acomodação de interesses e expectativas culturais no âmbito das camadas mais humildes daquelas três cidades. Deve-se ao sanfoneiro baiano Pedro de Almeida e Silva, o Pedro Sertanejo (que começara a carreira no Rio, na década de 1950, época do sucesso do baião) torna-se dono de uma gravadora de discos nordestinos - a Indústria de Discos Cantagalo - e acabou fixando seu forró na Rua Catumbi, no Brás, em São Paulo.
Revelando o sucesso do Forró de Pedro Sertanejo (pai de Oswaldinho do Acordeon) a partir da segunda metade da década de 1960, foram surgindo novos salões de danças para nordestinos, "já então se aproveitando de um fator inesperado: a ampliação da venda de aparelhos de televisão pelo crediário, garantindo às famílias da baixa classe média a conquista de diversão em casa, esvaziou os cinemas de bairro, levando seus proprietários a alugá-los para os forrós, capazes de abrigar mais de dois mil freqüentadores por noite", acrescenta José Ramos Tinhorão no livro "Música Popular - os sons que vêm da rua" (1976).

 

O Xote das Meninas

Neta de Zédantas, a jovem Cantora Marina Elali esteve presente mais uma vez na telenovela das 21 h, da Rede Globo, com a canção do avô "O Xote das Meninas" em inglês "All She Wants", tema do casal Solange (Sheron Menezes) e Claudius (Caco Ciocler), na novela "Duas Caras" (2007/2008), dirigida por Agnaldo Silva. Com voz segura e suave, Marina interpreta com muita sensualidade, presença de palco, sem falar no arranjo (versão pop-xote-baião) moderno e tradicional ao mesmo tempo. Começa bem pop e depois vira xote, com sanfona de Dominguinho, triângulo e zabumba. Uma grande mistura que deu certo numa das canções mais conhecidas no Brasil, gravada por mais de duas dezenas de artistas entre eles, Chico Buarque, Gilberto Gil, Elba Ramalho, Marina Monte, Alceu Valença e outros

O Xote das Meninas

mandacaru quando fulorá na seca
é um sinal que a chuva chega no sertão
toda menina que enjôa da boneca
é sinal de que o amor já chegou no coração
meia comprida, não quer mais sapato baixo
vestido bem cintado não quer mais vestir timão

ela só quer. só pensa em namorar

de manhã cedo já tá pintada
só vive suspirando, sonhando acordada
o pai leva ao doutor a filha adoentada
não come, não estudo, não dorme
nem quer nada

ela só quer, só pensa em namorar

mas o doutor nem examina
chamando o pai de lado lhe diz logo
em surdina
que o mal é da idade
e que pra tal menina não há um só remédio
em toda medicina

ela só quer, só pensa em namorar


(Zé Dantas e Luiz Gonzaga, EdiçãoVitale, gravado pela RCA em 5 de fevereiro de 1953)

 

Luiz Gonzaga conta como foi um dos encontros que tiveram:

"Eu estava hospedado no Grande Hotel e Zé ludibriou a vigilância, bateu na porta do meu quarto, eu abri e ele entrou como estava tangendo gado... Tchan, Tchan! Oi, hê boi, cuch, cuch! Eu ri, falei: - Que é isso rapaz? Então, ele respondeu: - Ué! num é assim que tu fazia lá no sertão? Olha, eu tenho umas musiquinhas pra mostrar pra você. Naquele momento, apresentou-me "Vem Morena", que depois foi gravada pelo cantor-safoneiro." Médico obstetra, colou grau na Faculdade de Medicina da Universidade do Recife em 8 de dezembro de 1949. Dantas teve imensa paixão pela música e gostava sempre de enaltecer o folclore do nordeste brasileiro. Durante os plantões que dava nos hospitais, entre uma cirurgia e outra, fez muitas de suas composições.
Luiz Gonzaga, por muito tempo, procurou bons letristas, poetas que pudessem ajudá-lo a compor. E encontrou. Dominique Dreyfus, autora do livro "Vida do Viajante: a saga de Luiz Gonzaga" (2ª. ed. 1997), afirma que, na verdade, muitas das canções foram feitas unicamente por Zé Dantas ou Humberto Teixeira, tendo Gonzaga uma participação reduzida e, às vezes, nenhuma.

"Eu nunca fui nem compositor, nem letrista. E sempre fui dependente de um bom poeta. Eu não gosto de fazer uma música do início ao fim, e as poucas que eu fiz não se deram muito bem. Eu faço o monstro e entrego ao poeta. Eu sempre fui um sanfoneiro. Com Zédantas, às vezes era parceria mesmo, outras vezes ele fazia letra e música e eu fazia os arranjos. Eu sou mais um sanfoneiro".

Compositor, poeta e folclorista fundamental para a fixação do baião como gênero de sucesso, Zé Dantas, começou a compor suas primeiras músicas e a escrever crônicas sobre folclore para uma revista pernambucana, a partir de 1938. Em 1951 compuseram mais um clássico, o baião "Sabiá", e no ano seguinte foram às paradas com a marcha junina "São João na Roça" e coma trista "Acauã" (esta assinada apenas por Zé). Zé Dantas atuou ainda ao lado de Paulo Roberto no programa "No Mundo do Baião", na Rádio Nacional (RJ) em 1953, ano em que estouraram "O Xote das Meninas" e "Farinhada" (esta também apenas de Zé) na voz de Ivon Curi. Outro ícone do baião, Jackson do Pandeiro, também fez sucesso com uma canção de Zé Dantas, "Forró em Caruaru".
Quando Zé Dantas foi diretor folclórico da Rádio Mayrink Veiga, do Rio de Janeiro, o compositor pernambucano chegou a regravar suas canções mais emblemáticas em dico. Mesmo depois de sua morte, em 11 de março de 1962, todas as músicas da dupla (Zé Dantas e Luiz Gonzaga) continuaram a ser regravadas pelos maiores nomes da MPB.

 


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