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Aracaju,SE
Setembro/2010

Gilfrancisco
Jornalista, pesquisador e professor membro do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe.
Contatos através do email: gilfrancisco.santos@gmail.com

Blog - Gilfrancisco - 09/12/2009 15:03
Segundo Congresso de Neurologia, Psiquiatria e Higiene 

Realizado em Aracaju nas instalações do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe, de 20 a 25 de outubro de 1940, o Segundo Congresso de Neurologia, Psiquiatria e Higiene Mental do Nordeste Brasileiro, discutiu os respectivos relatos, para sociedade na reunião anterior:

Relatório de neurologia - a neuromiolite epidêmica (Doença de Austregésilo), Ulisses Pernambucano, Arnaldo Di Lascio e Alcides Benício; Relatório de Psiquiatria 'Técnica e resultados dos tratamentos da Esquizofrenia no Sanatório Recife, Dr. René Ribeiro; Tipos de organização de Assistência a psicopatas para o nordeste brasileiro - dr. João da Costa Machado; Relatórios de Higiene Mental - Tipos de organização de serviços de assistência a menores abandonados e delinqüentes, dr. Rodolfo Aureliano; Organização de classes homogêneas nas escolas primárias, professora Anita Pais Barreto. Além da leitura e discussão dos relatórios foram apresentados inúmeros trabalhos pelos membros da Sociedade:

Neurologia - Um caso de doenças de Dupuitrem (Retração da aponeurose palmar), professor Arsênio Tavares e dr. Antônio Couceiro; Um caso de tumor da lipólise com caquexia, dr. Ladislau Porto; Goma sifilítica do lobo frontal com sintomatologia de demência paralítica, drs. Pedro Cavalcanti Alcides Benício e Antônio Couceiro; Psiquiatria - Estado estatístico das doenças mentais encontradas nos 400 primeiros internados em casa de saúde particular, professora Ulisses Pernambucano e dr. Jabas Pernambucano; Solução analítica num caso de problema de conduta sexual, dr. Gonçalves Fernandes.

Os psiquiatras que fizeram parte no memorável certame, eram procedentes da Paraíba, Pernambuco, Rio Grande do Norte, Alagoas, Ceará, destacando-se os nome dos especialistas: Ulisses Pernambucano, Arsênio Tavares, Alcides Benício, Arnaldo Di Lascio, Antônio Couceiro, Álvaro Ferraz, Albino Gonçalves Fernandes, Anita Pais Barreto, João Marques de Sá, entre outros.A chegada dos congressistas, por via aérea ou em trem especial da Leste Brasileiro foi triunfal. A sessão inaugural do Congresso aconteceu às 20 h no salão nobre do IHGS, sob a presidência do Interventor Federal, Eronides de Carvalho e com a presença dos Secretários de Estados da Justiça e da Fazenda, respectivamente, M. de Carvalho Barroso e Epifânio Dória e outras autoridades. Os representantes dos Estados e das instituições médicas foram saudados com uma salva de palmas. Em seguida o Interventor, Eronides de Carvalho, pronunciou o seguinte discurso:

"O Estado de Sergipe registrará, com grande honra, nos fatos da sua história, a realização, na sua Capital, do 2º. Congresso de Neurologia, Psiquiatria e Higiene Mental do Nordeste.
Não se apagará, jamais, da memória dos coevos, e os porvindouros aludirão com indisfarçável orgulho, o conclave que hoje se instala na cidade que Inácio Barbosa fundou às margens do plácido e amorável rio Sergipe.

É que, minhas senhoras e meus senhores, a glória da terra sergipana, em sediar este notável congresso cresce de vulto tanto se considere a pequena parcela que temos no imenso e grandioso torrão brasileiro.

A mim, particularmente, esta circunstância tem uma extraordinária significação, ligada que está à minha vida de profissional e administrador.

Tem vinte e dois anos passados que, vindo a capital baiana, saído da sua tradicional e gloriosa Faculdade de Medicina, eu trazia em minha imaginação de médico jovem, o firme propósito de dedicar-me nesta terra querida à clínica psiquiátrica.

Quanto sonho!

Quanta vontade firme orientada para o bem dos doentes mentais!

Quanto plano de trabalho em prol daqueles que foram estigmatizados com o mal que não era tratado como doença?

Toda minha vida acadêmica fizera-a eu visando este benemérito escopo.

O "São João de Deus", encravado na aprazível zona de Brotas, povoara de projetos o meu cérebro de moço, nos mais uma linha definida mais a mais se acentuava: o dedicar-me, na capital do meu Estado, à homérica labuta que naquela casa se travava e que eu vivia com intensidade.

Como, porém, realizar todos estes anseios?

De que forma levar para frente, torná-los efetivos, quando o meio ambiente não me facultava nenhuma oportunidade para a consecução de tal fim?

Era forçoso, perentório, renunciar.

Não poderíamos subsistir: eu e o meu programa clínico, apesar de todo ardor de médico jovem e toda uma fase prolongada de estudos e especializações. Renunciei-a. Mas com que sacrifício!...

Sei bem que, antes e após mim, outros vieram com o mesmo impulso e, da mesma forma, tiveram que ceder à atroz realidade do meio hostil.

Tenho, hoje, a rara e incalculável ventura de, muitos anos decorridos, mais de uma vintena talvez, voltar à liça, desta vez, porém, com o gláudio da vitória.

O que me não fora possível conseguir ontem, tendo comigo, apenas, os sábios ensinamentos da antiga Faculdade baiana e do "São João de Deus", passados os tempos transformou-se em uma palpitante realidade, quando no exercício da cousa pública, abriu-se aos meus colegas o campo que eu e tantos outros encontramos tão hermeticamente fechado.

Sem dúvida, que, para mim, motivos íntimos bem ponderáveis, se ajuntam a satisfação que como homem de Governo, me domina com todos os acontecimentos deste 2º. Congresso de Neurologia, Psiquiatria e Higiene Mental.

Se, para nós, não fora possível, um, a menos, viver a vida profissional no domínio da psiquiatria, hoje nos ufanamos de apresentar aos olhos de V. Excias. senhores congressistas, a organização dos serviços psicopáticos de Sergipe, onde somente ai tiveram tarefa pronta e imediata três jovens e distinguidos colegas.

E aqueles que quiserem, fora deste estabelecimento, dedicar-se à tarefa em que sem predecessores não se conseguiram firmar, terão prestamente assegurada a vitória, pela transformação que se conseguiu operar no meio sergipano.

As luzes deste Congresso espargiam sobre Sergipe e pelo Brasil raios incandescentes de ciência pura, assinalando os novos progressos da neuropsiquiatria brasileira.

Senhores Congressistas:

Há dois anos, a bela capital tabajara mereceu tal Aracaju, a honra de ser a sede deste memorável congresso. Era a primeira reunião e, sem dúvida, por isso mesmo a mais árdua e espinhosa. Venceu, porém como sempre, aliás, a fé imaculada nos ideais que a giraram, e a força virgem das energias em ação destruíram todos os feros e afrontas, os trabalhos de alto valor científico saídos daquela extraordinária reunião consagraram a idéia do benemérito professor Ulisses Pernambucano, que tinha dessa arte, consolidados os alicerces do que passaria a ser, então, o Congresso de Neurologia, Psiquiatria e Higiene Mental do Nordeste Brasileiro.

Esta grande obra, de marcante interesse nacional, começou-a o professor Ulisses Pernambucano à frente dos serviços de higiene mental do valente e glorioso Estado de Pernambuco. E o seu ponto de partida foi o arrasamento da “Tamarineira” a infernal casa dos doidos, que enregelava a alma quando referida.

Mas não foi só a destruição que se praticou, senão a sua substituição por uma modelar casa de saúde, que deixou como reminiscência longínqua as grades de ferro, os castigos cruelíssimos e mais o que a impiedade e a ignorância criavam, não para curar, mas para matar os loucos.
Foi ai, positivamente, que se abriu o sulco e lançou a semente que, germinando, iria depois frondejar aqueles que formam, em torno do eminente mestre, uma escola psiquiátrica de inestimável valia, projetada, hoje, no ambiente brasileiro, como obra de continuada preocupação nacional.

Este congresso é a voz desta escola “que deslocou o doente mental das enfermarias ou dos pátios para os gabinetes especializados, aproveitando nesta tarefa os dados da moderna biotipologia, no seu tríplice aspecto estático, dinâmico humoral e psicológico”, A sua consagração, se não fossem suficiente os resultados positivos que se conseguiram, seria encontrada, também, na citação dos seus trabalhos, deparada, a cada passo, nas revistas e nos livros de psiquiatria que os grandes centros científicos do estrangeiro, editam.
E se não pode calar a especialíssima circunstância de que esta obra, sobre interessar universalmente, pela universidade da ciência, preocupa-se “de não desprezar as questões de psicopatologia regional”.

A fanei a que se empenha o congresso da Escola Psiquiátrica do Recife rivaliza-se à dos grandes movimentos feitos em várias épocas a favor da evolução deste setor da ciência médica.
Não tem sido pequena a conquista da ciência, em toda a parte do mundo, no campo psiquiátrico. Ainda “no século XVII, quase todos os alienados mentais indigentes ou eram abandonados à sua sorte depois de algum acesso agudo, ficando expostos a zombarias, caçoadas e brincadeiras, - mesmo à violência ou brutalidade – do público; ou, se considerados perigosos, internados por ordem de um magistrado... em cadeias, casas de correção, asilos, etc. onde viviam em situação infinitamente pior do que soltos...

Em alguns desses estabelecimentos havia aposentos especiais para os loucos, mas não raro o vício, o crime, o infortúnio, a loucura e as doenças crônicas da espécie mais repugnante eram postos em comum e tratados da mesma maneira. Os loucos eram, por via de regra, presos com cadeiras ou cordas, numa sujeira indescritível, em ambientes imundos, com camas de palha raramente renovada, ou sem cama nenhuma a não ser o frio chão de gelado. Muitas vezes não tinham nada com que se cobrir nem de dia nem de noite. Passavam fome, não raro eram espancados, e algumas vezes mortos.

Já em 1792, tudo se modificava e Philippe Pinel "pela primeira vez na história da medicina, procurou tratar os loucos como seres humanos".

"Com risco da própria vida e liberdade, iniciou ele a reforma de arrancá-los das correntes, colocando-os em hospitais sob a vigilância de médicos pacientes, e acabando com os abusos de entorpecentes e sangrias a que eram submetidos". Não foi vão o trabalho que, mais tarde, desenvolveu Dorothêa Dix nos Estados Unidos fundando cerca de 32 estabelecimentos para tratamento dos insanos. Já mais perto de nós, nos fins do século XIX, nasceu a moderna psiquiatria. Incompreendida pelo público, pelo corpo médico, em geral, e tão pouco pelas autoridades legais esmoreceu o movimento encetado "com excessivo entusiasmo" e os hospitais regrediram ao regime custodial.

Foi preciso surgir Clifford Berrs para em vinte anos, transformar os asilos de loucos em verdadeiros hospitais e desenvolver as clínicas de higiene mental.

O Congresso de Neurologia, Psiquiatria e Higiene Mental do Nordeste Brasileiro age, entre nós, tal qual o "Pinel americano", como "agente catalítico", "em cuja presença outros ganham o impulso de trabalhar pela higiene mental".

Das observações, averiguações e pesquisas que fazem os seus componentes redunda cada dia, novos triunfos no tratamento dos insanos, que trazem, do mesmo passo, uma fisionomia muito própria, colocando em destaque especial os seus estudos, quiçá de uma grande repercussão social.

Evocando a memória dos grandes cientistas que dedicaram a vida ao estudo da psiquiatria, em todas as partes do mundo, e tributando a V. Excias. Senhores Congressistas, a mais sincera homenagem do Estado de Sergipe pelo que representam como expoente da Escola Psiquiátrica do Recife, declaro solenemente instalado o 2º. Congresso de Psiquiatria e Higiene Mental do Nordeste Brasileiro".

(Diário Oficial do Estado de Sergipe, 22 de outubro, 1940)



***


O escritor e sociólogo Gilberto Freire (1900-1987), um dos participantes do Congresso, também é entrevistado em setembro pelo Diário de Pernambuco, texto republicado no Diário Oficial do Estado de Sergipe:

"Reúne-se a 20 do mês próximo, em Aracaju, o 2º. Congresso de Neurologia, Psiquiatria e Higiene Mental do Nordeste, iniciativa do professor Ulisses Pernambucano, desta cidade e da Sociedade de Psiquiatria do Nordeste, que tem por órgão a revista Neurobiologia.

Informados de que do mesmo participaria, a convite do professor Pernambucano, da Sociedade de Psiquiatras e também do governo do Estado de Sergipe, o sociólogo Gilberto Freire, procuramos oubi-lo sobre o caráter sociológico daquela reunião, que está despertando vivo interesse nos meios médicos, médico-legais e pedagógicos do Nordeste e de todo o país.
Disse-nos o sr. Gilberto Freire:

- É certo que o Congresso a reunir-se em outubro vindouro em Aracaju se apresenta com expressão de um movimento que há muito tomou característicos de estudo sociológico de problemas que outrora eram tratdos pelos médicos, sem consideração pelos seus aspectos sociais, isto é, de meio ou de ambiente. Refiro-me ao movimento já conhecido nos meios científicos do país inteiro pela "Escola Psiquiatria do Recife" e que tem por orientador o professor Ulisses Pernambucano.

Há tempos chamei a essa escola "mais humana e social das nossas escolas de psiquiatria", isto é, do Brasil. Essa orientação explica o interesse com que, como estudioso de problemas sociais, acompanho os trabalhos do professor Pernambucano e dos seus colaboradores.
Explica também o convite que recebi para participar da reunião de Aracaju, onde apresentarei um trabalho sobre as relações da sociologia moderna com a psicologia social e com a psiquiatria.

Outros trabalhos de caráter social e mesmo sociológico serão apresentados naquele Congresso como tipos de organização de serviços de assistência a menores abandonados e delinqüentes, pelo dr. Rodolfo Aureliano; Organização do Serviço antropologia nas penitenciárias de Pernambuco, pelos drs. Álvaro Ferraz e Gonçalves Fernandes; Organização de classes homogêneas nas escolas primárias, pela professora Anita Pais Barreto e Padronização de "testes" pelo dr. de J. C. Borges.

Do meu trabalho, posso adiantar-lhe que contém uma tentativa da aplicação a regiões culturais e a personalidades do Brasil, do critério antropológico-social de "dionisiaco" e "apolíneo", cujos extremos interessam ao mesmo tempo ao sociólogo e ao psiquiatra ou ao higienista mental".

(Diário Oficial do Estado de Sergipe, 10 de outubro, 1940)


***

A expectativa da realização do Segundo Congresso era muito grande. O jornal Meio-Dia, do Rio de Janeiro, entrevistou sobre o certame o dr. Pedro Cavalcanti, do Sanatório de Recife, sobre as teses que seriam apresentadas pelo professor Ulisses Pernambucano e pelo dr. Rodolfo Aureliano, juiz de menores daquele Estado. A entrevista foi republicada pelo Diário Oficial do Estado de Sergipe:

"Encontra-se há dias nesta capital, o conhecido psiquiatra pernambucano, dr. Pedro Cavalcanti, médico do Sanatório Recife e da Assistência a Psicopatas de Pernambuco.

Falando à reportagem de Meio-Dia sobre as atividades psiquiatricas no seu Estado, declara-nos o conceituado especialista:

- No momento preparam-se os neuro-psiquiatrias nordestinos para 2ª. reunião da Sociedade de Neurologia Psiquiatria e Higiene Mental do Nordeste, a realizar-se na segunda quinzena deste mês, em Aracaju, sob o patrocínio do Governo Sergipense. Esta reunião coincide com a inauguração do Serviço de Assistência as Psicopatas de Sergipe que vem de ser organizado pelo Interventor Eronides de Carvalho. E, de passagem deixe-se assinalada a louvável iniciativa daquele governante dando ao seu Estado um serviço modelar em nada inferior dos melhores do país.

Como é sabido, o problema de psicopatas, no Brasil, com exceção de poucos Estados é um problema a resolver. Felizmente a Divisão da Assistência a Psicopatas do Dep. Nacional de Saúde Pública já iniciou sob a melhor orientação e estudo da solução do mesmo fazendo realizar em todos os Estados, minucioso inquérito sobre a situação dos doentes mentais e a assistência que lhes é prestada. Esperamos nós, os especialistas, pelos frutos desse inquérito, que de certo, revelará coisas espantosas em matéria de atraso e em muitos casos a ausência de qualquer orientação moderna e científica, no tratamento dos loucos. Se é certo que os insanos de Estados como S. Paulo, Rio, Pernambuco ou Sergipe, tem a ventura de ser assistidos por especialistas, é bem verdade que em outras regiões do país, há um descaso desumano pelos psicopatas. E este assunto será motivo de uma tese na reunião de Sergipe.

Será seu relator o meu colega, dr. João Machado. Diretor do Hospital de Alienados de Natal. Outra tese de muita atualidade a ser apresentado no congresso é a do professor Ulisses Pernambucano catedrático de Neurologia da Faculdade de Medicina de Recife, com a colaboração dos drs. Di Lascio e Alcides Benicio sobre a "Neuromelite epidêmica" ou "Doença de Austregésilo". Este trabalho apresentará minucioso documentário dos doentes que vêm há alguns anos, sendo internados no Sanatório Recife e constituirá um tema muito oportuno, porque é certo que a doença de Austregésilo aparece ultimamente mais freqüente, já que agora é melhor conhecida e estudada, graças aos trabalhos divulgados pelo notável mestre brasileiro que lhe dá o nome: - o professor Austregésilo.

O dr. René Ribeiro apresentará outro estudo de destaque:

"Técnica, resultado e tratamento da esquizofrenia do Sanatório Recife".

O 4º. tema oficial da reunião está confiado ao ilustre juiz de menores de Pernambuco, o dr. Rodolfo Aureliano, e será sobre o problema "tipos de organização de serviços de assistência a menores abandonados e delinqüentes". Afora esses temas oficiais inúmeros outros trabalhos de especialistas nordestinos serão apresentados nas sessões de Neurologia, Psiquiatria e Higiene mental, sendo de ressaltar a contribuição sergipana sob a chefia do dr. Garcia Moreno.

A Revista de Neurologia, que é o órgão oficial da Sociedade, apresentará em dezembro próximo, um número especial dedicado ao congresso.

(Diário Oficial do Estado de Sergipe, 13 de outubro, 1940)

 

***

Durante a solenidade inaugural do Hospital-Colônia, o diretor do Serviço de Assistência a Psicopatas, dr. Garcia Moreno (1910-1976), pronunciou o seguinte discurso:

"Avizinha-se o segundo ano decorrido sobre o dia em que, sob o testemunho do povo, o Interventor Eronides de Carvalho bateu neste terreno, a pedra fundamental do Hospital-Colônia da Assistência as Psicopatas de Sergipe.

Na simplicidade de que o ato se revestiu poucos puderam antever que s. excia, acabava de plantar a obra mais humana de sua fecunda administração.

O desamparo a assistência mental no estado traçava aos olhos de todos os quadros mais doloroso. Homens de outros governos, cujas boas intenções se concretizaram no benefício de obras valiosas, nada quizeram fazer pela solução de um dos problemas mais urgentes e angustiosos de Sergipe.

É que aqui, como em outras partes, jamais faltaram às profundas razões de incompreensão do problema. Nos estratos mentais do homem aonde não se destruiu a camada sedimentada na sua infância cultural. A loucura, apesar da clareza solar com que tem sido examinados um sem número de velhos enigmas da humanidade, comtinua sendo a grande incompreendida. Outras grandes e torturantes interrogações delineadas no espírito humano tem recebido dos sábios respostas que, de logo, se impõem e criam raízes na consciência da coletividade.

A loucura não. A psiquiatria cristaliza-se, arregimenta verdade, torna-se científica. Pinel, Esquirol, Bayle, krapelin, Freud, Bleuler assentam marcos indestrutíveis de conquistas definitivas no terreno da medicina mental. Apuram-se os fatores endógenos e exógenos das psicopatas. Demonstra-se a sociedade, o meio indissolúvel, a interdependência de soma e psique. Crescem as provas crueis de experimentação. As indagações e as indicações terapêuticas revestem-se do rigor áustero das coisas científicas. Fazem-se curvas. Profetizam-se prognósticos.

É para a grande maioria e para aqueles sobre cujos ombros pesam a responsabilidade de criar a felicidade social, a doença mental permanece cercada de todas as sombras com que a superstição obscurece os fatos. O homem que substituiu o dorso das alimárias pelo conforto do avião, e ouve, pelo rádio, no próprio lar, a voz dos seus antípodas, às vezes não pode compreender que o louco é um doente. É o resíduo cultural, a crença nas possessões diabólicas que vindas de muito baixo na mentalidade humana faz infiltração sobre a consciência, formando o conceito absurdo sobre a loucura.

Sergipe não podia fugir a essa atitude fatal. As ruas de sua cidade sempre ofereceram para gozo da população, a extravagância dos reis-meninos e dos profetas.

A corrente e o tronco, a corda e o açoite fizeram-se famosos nos préstimos da contenção e da flagelação sedativa. Nos fundos da Penitenciária do estado até hoje, até neste instante, pagam trancafiados, como ferras, o crime de terem adoecido mentalmente homens e mulheres.

O Interventor Eronides Ferreira de Carvalho, psiquiatra nos dias iniciais de sua carreira médica, cidadão de visão larga e sentimentos alevantados, criador da saúde pública multiplicador das escolas do Estado, fornecedor das produções agrícolas e industriais de Sergipe, apagou de um golpe,sem transições, os homens dos quadros pré-pinelianos a que outros assistiram criminosamente indiferentes.

Construiu-se ao milagre de esforço heróico, cuja grandeza é fácil calcular este Hospital-Colônia. Hei-lo inaugurado.

Por si só, no pauperismo econômico de Sergipe, basta para a consagração definitiva de um chefe de governo.

De hoje por diante os loucos de Sergipe passam a categoria de doentes, de doentes como os outros.

Aqui não lhe faltarão as excelências assistenciais hodiernas. Não lhes hão de constrangi a liberdade física e a liberdade interior as muralhas e a incompreensão. Hospital moderno haverá de viver consoante as diretrizes da moderna psiquiatria. Assim quer o sábio governo do Estado que lhe garantiu, para sempre, a existência útil, a perene situação de hospital, mercê da renda de um tributo específico. Assim queremos nós os seus trabalhadores, que faremos do Hospital-Colônia o ponto mais culminante dos nossos ideais de amor e solidariedade humana".


(Diário Oficial do Estado de Sergipe, 29 de outubro, 1940)


***

Durante o encerramento do Congresso, foram votadas várias moções e aprovadas unanimente. Algumas como: De agradecimento ao Governo, classe médica e povo sergipano pelo apoio que deram ao certame; Aceitando o convite do Interventor Rafael Fernandes e designando a cidade de Natal para sede do 3º. Congresso de Neurologia Psiquiatria e Higiene Mental do Nordeste a realizar-se na segunda quinzena do outubro de 1941; De congratulações com o Esta de Alagoas que dentro de pouco tempo com auxílio do Governo Federal, vai iniciar a construção do seu Hospital-Colônia.

Após a escolha dos assuntos para os relatórios oficiais do próximocertame, finfo o que é aclamado o nome do dr. Augusto Leite para presidir a Sociedade de Neurologia Psiquiatria e Higiene Mental do Nordeste. Em seguida feito comovido agradecimento à Sociedade de Neurologia pela escolha do seu nome para presidi-la. Ao meio dia na praia de Atalaia, teve início o almoço de 120 talheres que o Prefeito da Capital, Godofredo Diniz Gonçalves, ofereceu aos congressistas e as suas famílias, ao som de músicas regionais executadas pelo Jazz do 28 B.C.

Após visita à casa de veraneio do Governo, cuja inauguração estava presente os congressistas, regressando em seguida ao centro de Aracaju, onde assistem no Cine Rio Branco um filme sobre o Instituto Fisioterápico "Duarte Coelho" do Hospital Português do Recife. Ao encerrar a sessão rumaram ao Hospital-Colônia de Psiquiatria, inaugurando ali, a placa que dá àquele nosocômico o nome de Eronides de Carvalho, por deliberação unânime do 2º. Congresso de Neurologia Psiquiatria Higiene Mental do Nordeste. As 21 horas, em trem especial, regressaram os congressistas e a Embaixada "Eronides de Carvalho", tendo o Interventor Federal, acompanhado com seus secretários da Casa Civil e Militar até a Estação ferroviária. Em meio aos vivas a Sergipe, ao seu Governo e ao seu povo, deixou a Estação a composição especial, ao som da Banda de Música da Força Policial.


(Do Livro Sergipe nas Páginas do Diário Oficial)
 


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