Entre as vastas, mas fugidias margens da memória, as cândidas molecagens nos poções do Vaza Barris, em Itaporanga D’Ajuda, nadam, pescam siris ovados, camarões espertos. Coisas que o jereré da vida já não nos permite achar, nem sob o lodoso mangue desta cidade Capital - onde vim morar -, nem nas gôndolas esquálidas dos seus supermercados.
São mercadorias que insisto em contrabandear, de deleitosos portos para o alvoroço cotidiano da modernidade.
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O privilégio da cidade era um rio habitando os quintais. O Vaza Barris cortava respeitoso as trilhas domésticas, como um inquieto horizonte de caudalosas possibilidades. Ele levaria às distâncias do mar a inquietação dos meninos, o zuadento thi-bum dos nossos pulos mortais, levando, lavando os sonhos mais pueris da juventude itaporanguense, enquanto, ao cimo da ladeira do Sapé, o Trem de Ferro – outro rio a serviço das distâncias - encheria de carvão e fumaça o sonâmbulo destino da cidade: - Um dia, todos nós estaremos longe daqui. Como será o mundo além desses rios?
Era ela, então, uma pequenina aldeia entre rios, ela mesmo um córrego fiel de silêncios familiares. Tão silenciosa que se podia ouvir nas tardes modorrentas, o alarido das crianças, aos sustos e imprecações, provando em acobráticos mergulhos os seus rituais de incipiente coragem e muita intrepidez.
Itaporanga permanece ainda assim, tão querida quanto indelével na memória, mas aquática: será sempre um rio correndo em priscas eras, onde permanecem submersas as nossas armadilhas jererés.
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