Cecília Amado, 31, é firme e delicada. Está na Bahia fazendo seleção de elenco para seu primeiro longa, Capitães da Areia. O filme é uma adaptação do livro homônimo de seu avô, Jorge Amado, lançado em 1937, um monumento da memória afetiva baiana - e o romance mais vendido do escritor. Na bagagem, a carioca traz os trabalhos como assistente de direção em filmes como Batismo de Sangue (2006) e na minissérie A Cidade dos Homens (2002). No elenco, estão nomes de peso como Lázaro Ramos e Patrícia Pillar. A cineasta recebeu a reportagem da Muito no Forte do Barbalho, e contou o que quer atingir com o filme. Muito - Por que adaptar Capitães da Areia? Cecília Amado - Por dois motivos: um pessoal e outro profissional. O pessoal, por ser o livro da adolescência. Capitães da Areia mexeu muito comigo. Dá para tratar o tema da infância de rua e carente com delicadeza, sem cair para a violência. O motivo profissional é que este é um dos poucos livros dele que me possibilita fazer um filme diferente do que se faz hoje em dia, e que concilia três fatores muito presentes no cinema atual, mas sempre meio separados: um potencial comercial muito forte, o que significa, mais do que vender ingresso, que as pessoas vão ver essa mensagem; a possibilidade de fazer um filme artisticamente muito requintado sem cair em truques para ser mais comercial, porque ele já é, automaticamente, comercial; e, ainda, a temática social. M - No meio cinematográfico local existe uma guerra de conceitos sobre o que é filme baiano. O senso comum determina que, se veio ser feito aqui por uma produtora de fora, não é baiano, a exemplo de Ó Paí Ó (das produtoras Dueto Filmes, Europa Filmes e Globo Filmes) e Cidade Baixa (VideoFilmes). Dentro de que conceito Capitães da Areia é baiano? C.A. - Primeiro, de onde ele nasce: o livro, não só por ser Jorge Amado, tem a Bahia no conceito e na essência dos personagens, que vivem no porto, no cais da Bahia. E tem a ginga da capoeira. O filme tem esse argumento, que é muito baiano. Acredito que tanto Ó Paí Ó quanto Cidade Baixa, que são feitos por cineastas baianos, têm essa energia na alma deles. E passam, sim, um amor pelas pessoas. O Jorge Amado tinha muito isso: paixão pelo ser humano, pelo outro. Tenho intimidade com os noventa meninos que escolhi que não poderia ser igual em nenhum outro lugar. Com a minha equipe, também. Por isso, acho que o filme é baiano e tem a energia que pulsa na Bahia hoje.
Fonte: A Tarde On Line |