Você pode imaginar um piloto de avião como trabalhador doméstico? Certamente a resposta é não. Mas um piloto que trabalha para uma família, que possua um avião particular, é funcionário doméstico. Da mesma forma, motoristas que servem em residências, jardineiros, arrumadeiras, faxineiras, cozinheiras, babás e acompanhante de idosos, estão diretamente ligados ao Sindicato das Empregadas Domésticas. Embora a entidade seja voltada para as mulheres, os homens inseridos em trabalhos domésticos estão enquadrados por lei na categoria
Sueli Maria de Fátima é cozinheira há 22 anos na mesma casa, é presidente do sindicato que representa a categoria doméstica em Sergipe e, além disso, é inserida no projeto educacional desenvolvido na Casa da Doméstica, que já formou dezenas de profissionais da categoria em nível médio. Apesar de tantas atribuições de peso, Sueli diz que o mais importante é seu orgulho em ser doméstica e não temer o preconceito que impera, até mesmo, entre a própria categoria.
“Muitos profissionais não aceitam quando são enquadrados como domésticos. Alguns têm vergonha pelo preconceito que ainda domina o país. Um motorista foi demitido de seu emprego, onde servia em uma casa de família e foi enviado ao sindicato para fazer as contas. Ele se revoltou pelo fato de ter sido incluído na categoria doméstica, saiu, preferiu não resolver nada e até não receber” relata Sueli.
A presidente o sindicato diz que essa é uma barreira que já não deveria existir, porque dentro das vitórias da categoria perante a sociedade e entidades sindicais, está a inclusão cultural, com entrada da categoria doméstica no mundo digital paralela a conclusão de diversos cursos voltados para o trabalho que desenvolvem. Ela cita a trabalhadora doméstica, que cuida da casa, como o principal alvo do preconceito.
Essas pessoas como relata Sueli, atravessaram várias décadas sendo tratadas como escravas, vivendo a margem da sociedade e se submetendo a diversos tipos de assédio. Entre eles o moral. “Hoje o trabalhador doméstico, sabe responder a altura sem perder a compostura. Damos cursos, ensinamos a lei e essas pessoas utilizam esses conhecimentos na hora certa”, observa Sueli.
Ela não nega que ainda existe assédio moral e para essas pessoas, talvez seja bem maior do que em qualquer outra profissão, no entanto, o número de denúncias já é bastante expressivo. “Muitos temem a perda do emprego e findam por se calar, mas uma grande parte já bota a “boca no mundo” e leva ao conhecimento das autoridades competentes a discriminação porque passam ou ainda as humilhações”, afirma Sueli. “
Ela diz que alguns fatos remetem a escravidão. “Eu trabalhei como babá aos 12 anos e um dia, segurando um menino de um ano, ele se assustou com algo, pulou do meu colo e nós caímos. A criança se feriu e a mãe dela me espancou com um cinto. Tive tanto medo que nunca mais quis ser babá, então me tornei cozinheira”, conta a doméstica.
Sueli enfatiza que também o assédio sexual já é bastante combatido pela categoria, que antes se submetia a uma série de provocações, por parte de patrões sem escrúpulos e que se acham donos de seus empregados.
Em busca de respeito
A presidente do sindicato atribui às submissões do passado, o medo e a vergonha declarada que uma grande parte de trabalhadores têm de assumir que são domésticos. Ela atenta que anos de preconceito declarado, não se findam em passe de mágica, sendo preciso uma luta constante ainda muito árdua para que a categoria seja aceita como digna e capaz diante da sociedade.
“Hoje militamos como sindicalistas, já estamos nos filiando a CUT e temos uma história de mudança que muito nos trás orgulho. Vencemos diversas barreiras, nos organizamos e só em Aracaju e grande Aracaju, temos 600 associadas. Por enquanto só mulheres estão inseridas aqui”, diz Sueli.
A luta da classe doméstica em Sergipe começa na década de 70 quando foi formada a Associação das Empregadas Domésticas. Naquela época, a categoria reivindicava apenas assistencialismo, mas não desejava se manter naquele patamar. Na década 80 com a Constituição, foi realizado o Seminário Mulher e as Leis Trabalhistas em Brasília, onde Sueli foi a única representante sergipana.
Com o crescimento lento, mas forte da categoria, em 1992 foi criado o sindicato e a visão assistencialista finalmente mudou. A partir daí, Sueli conta que a categoria passou a ter personalidade, buscando consolidar uma imagem de respeito perante a sociedade. Como resultado, a atual presidência da CUT convidou a categoria a se filiar.
“Essa foi uma das buscas que levamos muito tempo para alcançar. Sergipe foi o último estado do Nordeste a inserir a categoria doméstica na central dos trabalhadores. Mas não importa já chegamos e viemos de muito longe ”, conclui a trabalhadora.
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