Contra gordofobia, gordos falam sobre empoderamento


Euler: "Não entendo o que a indústria entende por G e GG"

Mesmo sendo um quinto da população brasileira, pessoas gordas são privadas de afeto, de espaços e de respeito

No Brasil, existem pelo menos trinta milhões de pessoas consideradas acima do peso, o que equivale a um quinto da população. Os dados foram publicados no ano passado e lançam luz sobre uma realidade que muita gente ainda não quer encarar: as pessoas gordas são uma fatia representativa entre os brasileiros. Mesmo sendo muitos, gordas e gordos são invisibilizados e defrontam-se todos os dias com um preconceito real. 
A gordofobia existe, mas ainda é tratada como um debate desnecessário, de importância secundária. A verdade, porém, é que os corpos gordos continu am a ser vistos como indesejáveis e patologizados. Os gordos são, literalmente, privados de espaços na sociedade, estereotipados e esvaziados de sua condição de seres dignos de afeto.
Superar a carga negativa que envolve a palavra “gordo” é um exercício diário, já que o adjetivo ainda é sinônimo de ofensa, remetendo ao que é feio e ruim. Na busca pela ressignificação, o Olho Vivo convidou gordas e gordos para falar de suas vivências e de seu processo de empoderamento. Afinal, para ser lindo e querido não é preciso estar dentro dos padrões.

DISCRIMINAÇÃO

Euler: “Não entendo o que a indústria entende por G e GG” Fotos: Ítallo Melo e arquivo pessoal

Euler Lopes, de 26 anos, é ator e diretor de teatro. Em seu trabalho, a preocupação com a imagem é uma constante, o que o faz enfrentar discursos gordofóbicos com frequência. “A gente não vê gordos na Publicidade. Quando ele está, é só para ser o engraçado, o comilão”, diz. Assim como quase todos os gordos, Euler guarda na memória situações em que sofreu gordofobia.
“Fiz um trabalh o em que precisava mexer com documentos. Um cara perguntou se minha mão não estava suja de gordura, como se gordos fossem sujos e só vivessem comendo”, recorda. A estudante de Teatro Suellen Santana, de 21 anos, passou por situações semelhantes.
“Em uma formatura, a mãe de um dos formandos achou um absurdo me ver dançando. Para ela, gordo não pode dançar, e se dançar, tem que ser contido”, lembra. Nem mesmo na própria família as pessoas gordas estão a salvo. “Aos dez anos, briguei com minha mãe a ponto de querer me matar. Ela saiu gritando que eu era feia e gorda. Ainda ouço dela que devo emagrecer para arranjar namorado”, conta Suellen.

SAÚDE
Ser gordo e ser saudável são condições consideradas inconciliáveis. Claudia Rocha, de 38 anos, é blogueira e youtuber. Tendo superado um câncer, Claudia teve sua experiência exposta no documentário “Gorda”, dirigido por Luiza Junqueira. Segundo ela, o fato de ser gorda foi julgado como a razão da doença antes mesmo dos exames comprobatórios.
“Todo dia precisamos lidar com a patologização do corpo gordo, vencer a falta de acessibilidade e lidar com o descaso dos profissionais de Saúde, que não nos enxergam como pacientes convencionais. O “diagnóstico” é sempre o mesmo, ‘você está doente porque é gorda’. Isso sem mencionar a violência obstétrica contra grávidas gordas e a falta de infraestrutura nos serviços de Saúde para atender o público gordo”, resume.
Para a artista plástica Dandara Aryadne, de 25 anos, que participou do documentário com Claudia, o preconceito foi a causa de sua patologia. “Resolvi passar fome. Não conseguia comer, e quando comia, vomitava. Comecei a emagrecer pelos motivos errados, mas ganhei atenção. Até que fiquei doente e engordei de novo”, afirma.

DIFICULDADES
As atividades mais simples são, muitas vezes, um fardo para as pessoas gordas. Passar na catraca do ônibus ou comprar roupas, por exemplo, podem trazer transtor nos. “As roupas legais nunca servem. Não entendo o que a indústria entende por tamanho G e GG, pois sempre ficam pequenos. Além disso, existe a ideia de que o gordo deve usar roupas folgadas, para não marcar a gordura. Por que não posso usar uma roupa justa, que destaque minhas formas? E sei que a pressão sobre as mulheres é ainda maior”, diz Euler.
Claudia enumera dificuldades pelas quais já passou por ser gorda. “Já sofri assédio de fetichistas, já fiquei entalada na catraca do ônibus, já fui maltratada por ser cliente gorda, já me fotografaram comendo no aeroporto, já fiquei presa em um vestido dentro de um provador, já fui constrangida por uma depiladora durante uma sessão… Foram diversas situações que já aconteceram comigo”, afirma.

RELACIONAMENTOS
Pessoas gordas, sobretudo mulheres, são preteridas nas relações amorosas. O medo da solidão, para quem é gordo, é uma realidade perversa. “Tenho problemas para me relacionar. Não tenho corage m de chegar nos meninos, pois estou fora do padrão. Sou gorda e ainda tenho o cabelo crespo. Às vezes, é até coisa da minha cabeça, mas sempre acho que ninguém consegue ter interesse por mim, pelo fato de ser gorda”, comenta Suellen.

Superando a gordofobia, Suellen é só sorrisos

Pedro – nome fictício para um personagem real – é estudante de Arqueologia, tem 24 anos e é gay. Segundo ele, as exigências dos padrões estéticos são maiores para homossexuais. “Sofro para conhecer pessoas e acabo sendo rejeitado. Já ouvi frases como ‘Você é bonito de rosto, mas você é gordinho, então, não rola’, e isso dói muito”, diz.
As pressões estéticas incidem também sobre o círculo de amizades das pessoas gordas. “O gordo é rotulado e tem que ser sempre engraçado. Já que ele é gordo, tem que ser bom em alguma coisa. Por que uma pessoa gorda não pode ser incluída em um meio de discussão mesmo não sabendo fazer piadas?”, indaga Suellen.

AUTOESTIMA
Com tantas cobranças, fica difícil para as gordas e gordos manterem a autoestima equilibrada. Para muitos, os dias de crise são mais frequentes do que os de bem-estar. “Autoestima é uma coisa que não existe para uma gorda em fase de descobrimento. Depois do documentário, senti uma melhora. Depois de doze anos, usei um bíquini na praia. Foi o melhor dia da minha vida em anos”, rememora Dandara.

Dandara e Claudia contaram vivências no doc. “Gorda”

Para Euler, o processo de autoaceitação veio depois de encontrar amigos abertos a falar sobre o tema. “Depois de procurar um interlocutor e estudar sobre o assunto, passei a me ver mais bonito. Hoje, olho minha bunda e minhas pernas e acho lindo. A gente não pode cair na cilada. Tem que se afirmar, tirar a camisa na praia, ir em todos os lugares. É olhar pra si e dizer: ‘Gordo sim, e lindo!'”, considera.
Mesmo se sentindo mais segura consigo mesma, Dandara lembra que ainda há dias difíceis. Mas nem por isso deixa de acreditar. “Ainda tenho pontadas de maus pensamentos, mas empurro minha barriga, coloco meus óculos escuros e saio de casa. Hoje, sou feliz por ser quem sou e por ter me libertado da pressão de caber no mundo. Ser gorda é mais do que vestir certo número. É enfrentar o mundo de cabeça erguida. Amo ser gorda porque eu me amo”, afirma a artista plástica, em tom de lição de vida.

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