Pessoas trans avançam em busca do direito de ser


Maria Luísa: "Ser negra e periférica aumenta a transfobia" Fotos: Larissa V. e Arquivo Pessoal

Vencendo violências físicas e simbólicas, transgeneridade rompe estatísticas e ganha espaços através do ativismo

A transgeneridade compreende pessoas que não se identificam conforme o gênero com o qual foram designadas ao nascer. Uma noção simples, mas que ainda não é devidamente entendida por grande parte da população. O desconhecimento sobre as identidades trans e a pressão social para cumprir os desígnios de gênero naturalizados pela sociedade é causa de preconceito, por um lado, e de sofrimento, por outro.

Maria Luísa: “Ser negra e periférica aumenta a transfobia”
Fotos: Larissa V. e Arquivo Pessoal

Nesse sentido, os dados falam por si: a expectativa de vida de uma pessoa trans no Brasil é inferior aos 40 anos. Cerca de 90% das mulheres trans foram relegadas à prostituição compulsória, já que o direito à Educação lhes é negado e a inserção no mercado de trabalho é quase inexistente. O Brasil é considerado o País que mais mata pessoas transgêneras em todo o mundo. Diante desse cenário, simplesmente existir se torna uma transgressão e um ato político de resistência.
Até mesmo entre as pessoas próximas, uma expressão de gênero que foge aos padrões hegemônicos se torna conflituosa. Questões simples, como sentir-se identificado pelo próprio nome, geram tensões diárias às pessoas trans. Além das violências físicas e simbólicas, elas enfrentam uma imensa mistificação sobre sua identidade. Muita gente ainda confunde, por exemplo, a identidade de gênero – que corresponde à autoidentificação – com a orientação sexual – que diz respeito à atração romântica. O avanço em direção à compreensão e ao respeito, portanto, acontece a passos lentos.

ENTENDIMENTO
Maria Luísa Andrade é estudante de Teatro e, aos 23 anos, passou pelo processo de compreensão de sua transgeneridade. “O meu ser mulher foi barrado por toda a vida, por ter sido condicionada a um padrão social estabelecido ao redor das genitálias. Me entender como a mulher trans – que sempre fui – foi algo processual, uma autoafirmação”, diz.
Para o farmacêutico Daniel Lima Menezes, se entender como homem trans também foi um processo gradativo. “Desde que me entendia por gente, nunca me vi em um papel feminino como é imposto pela sociedade. Já adulto, me sentia sufocado. Procurei na internet se existiam pessoas que passavam pelo mesmo que eu e achei vídeos gravados por homens trans. Assim, vi que não havia nada de errado comigo”, lembra.
Dodi Leal está em fase de conclusão de seu doutorado em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo. Foi no início dessa etapa acadêmica que ela encontrou o suporte para reconhecer o feminino que sempre esteve latente em sua identidade. “O feminino no meu corpo foi silenciado, sufocado e reprimido. Nos últimos dois anos, comecei a me nomear no feminino e a entender que não há nada errado no meu corpo. Errada está a narrativa de transgeneridade sob a ótica da patologia”, afirma.

TRANSFOBIA
Maria Luísa é natural da Capital baiana e, tendo estado em sua terra natal há poucos dias, foi vítima de transfobia

Daniel Lima: ser visto como exótico também é violência

dentro de casa e no bairro onde foi criada. “Estive em casa por uma semana, mas pareceu um ano. No caminho de casa até o ponto de ônibus, ouvi inúmeras ofensas. Na família, também há rejeição. O fato de ser negra e periférica faz com que a transfobia seja ainda maior porque a visibilidade é ainda mais reduzida”, explica.
Daniel enfatiza que ser visto como um ser exótico é um tipo de violência. “Perguntam qual foi o nome com que meus pais me batizaram, se já fiz cirurgia… Chegam a olhar para partes do meu corpo procurando algo que retrate o gênero com que me designaram ao nascer”, relata. Dodi lembra do viés institucional da transfobia, o qual sentiu na pele recentemente.
A doutoranda foi impedida de embarcar em um voo de São Paulo ao Rio de Janeiro tendo seu nome social e identidade de gênero reconhecidos. “A passagem foi comprada em meu nome social, mas a companhia aérea colocou no nome civil. A Agência Nacional de Aviação Civil, que é uma autarquia pública, está sendo criminosa quando não cumpre um decreto federal: o 8.727/2016, que diz respeito ao uso do nome social”, esclarece.

PATOLOGIZAÇÃO
Os códigos burocráticos também são violências contra as pessoas trans. Para que se faça a retificação de documentos com a inclusão do nome social, por exemplo, o universo jurídico exige que a pessoa seja caracterizada como portadora de um transtorno de identidade sexual: a transexualidade.
“O juiz, por si só, não é capaz de diagnosticar se o indivíduo é ou não transexual. É necessária a intervenção de profissionais da Saúde, como o psiquiatra”, afirma o advogado Vanderson Moura, que já assessorou processos de retificação registral. Para ter seu nome social reconhecido juridicamente, portanto, a pessoa trans precisa declarar oficialmente que tem uma doença.
A patologização das identidades trans se deve ao fato de que a transexualidade se inscreve no Cadastro Internacional de Doença – CID. Cabe lembrar que a homossexualidade também já esteve no CID até 1990, quando a Medicina reconheceu seu equívoco. A luta das pessoas trans é para que o mesmo aconteça com a transexualidade e para que a transgeneridade – termo considerado correto, livre de cargas patologizantes – possa ser livremente vivida.

PONTOS DE VISTA
Para alguns profissionais da Saúde, a patologização das identidades trans não é vista como verdade absoluta. A doutora em Educação e professora do curso de Psicologia da Universidade Tiradentes, Lívia de Melo Barros, afirma que a discussão da transgeneridade passa por um viés interdisciplinar.
“Cada área tem o seu olhar. Na Psicologia, existe uma luta para que o sujeito trans seja aceito e acolhido. É preciso que se pense em aparelhos públicos que contemplem a pessoa em seu processo de desenvolvimento”, diz.
Como educadora, Lívia chama a atenção para o fato de que muitos alunos, futuros profissionais da Saúde, ainda veem as pessoas trans com olhares preconceituosos. “Não é culpa dos profissionais da Saúde não estarem preparados para atender as pessoas trans. O sistema como um todo, infelizmente, não está preparado para a diversidade. Como entender e respeitar aquilo sobre o qual não tenho conhecimento?”, indaga.

PERSPECTIVAS

Dodi Leal: “A narrativa patologizante da transgeneridade está errada”

Aos poucos, a militância trans vem conseguindo conquistar espaços e minar o sistema. O fonoaudiólogo e pesquisador da Universidade Federal de Sergipe Rodrigo Dornelas do Carmo é um dos coordenadores de uma iniciativa pioneira em Sergipe: o Ambulatório de Cuidado Integral à Saúde da Pessoa Trans, localizado em Lagarto.
“As pessoas trans não costumam procurar os serviços de Saúde, pelo fato de os profissionais terem uma formação precária para atendê-las. Trabalhamos na perspectiva da despatologização. Quando chega uma pessoa trans, perguntamos o que ela deseja para construir seu processo terapêutico. Nada é compulsório”, relata Rodrigo.
Outra iniciativa é o Educatrans, cursinho preparatório para pessoas trans que desejam fazer o Exame Nacional do Ensino Médio – Enem. A iniciativa é da Associação e Movimento Sergipano de Transexuais e Travestis – Amosertrans. De acordo com Dodi, essa ocupação de espaços de poder é um avanço, mas é preciso ir além.
“É preciso que pessoas transgêneras não hegemônicas ocupem espaços também, para que se entenda que existem homens com vaginas e mulheres com pênis. É preciso ver nesses espaços mulheres barbadas, sem silicone, para que se veja que não é preciso cumprir uma determinada estética para ser transgênero”, esclarece Dodi.
Diante de tantas questões, a esperança é que a visão sobre as pessoas trans ganhe um pouco da leveza descrita por Maria Luísa: “A melhor coisa de ser trans é saber que sua realidade identitária, hoje, é a que você sempre quis viver. É ser reconhecida e respeitada por quem você é”.

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