Bia Ferreira: “não posso me dar ao luxo de falar de amor”


Bia Ferreira e o seu jeito de ser cada vez melhor (Foto: Amanda Cardoso)

Morando em São Paulo, cantora fala da necessidade de fazer da música instrumento de luta

Aracajuana de coração, a cantora Bia Ferreira está alçando voos mais altos em São Paulo. Sua voz potente, seu ritmo contagiante e suas letras engajadas integram um trabalho autoral que vem ganhando cada vez mais projeção no Brasil inteiro. Em processo de gravação, ela se prepara para lançar um single no mês que vem e para o lançamento de um EP em novembro. Ao Olho Vivo, a cantora fala sobre São Paulo, Aracaju, arte, ativismo e saudade.

Bia Ferreira está alçando voos mais altos (Foto: Amanda Cardoso)

Olho Vivo – Como começou sua trajetória na música?
Bia Ferreira – Começou quando nasci. Minha mãe é cantora. Ela canta na igreja, é regente de coral e pianista. Com três anos, comecei a estudar piano. Depois entrei no Conservatório Brasileiro de Música e nunca mais parei. A música é minha vida. Depois do piano, fui aprendendo outros instrumentos eruditos como flautas doce e transversal, escaleta, xilofone… Fui passeando pelos instrumentos e hoje toco 16.

OV – O que te motivou a ir para São Paulo e qual o significado de estar aí tendo vindo do Nordeste?
BF – Fui motivada pela possibilidade de um trabalho mais concreto e de uma visibilidade e projeção maiores. Foi uma decisão duvidosa, a princípio. A primeira ideia era vir e passar um tempo. Aqui é o centro comercial da música, é onde a gente consegue ter acesso à maior parte do Brasil através da mídia. O significado de estar aqui tendo vindo do Nordeste é uma coisa complicada, por que eu não nasci no Nordeste. Fui criada no Sul e no Sudeste. A minha ida para o Nordeste se deu há cinco anos, quando eu estava procurando um canto em que eu me sentisse à vontade. Eu não estava me sentindo pertencente a nenhum lugar, estava perdida. Foi quando encontrei Aracaju e me apaixonei. Fui muito bem recebida e foi onde meu trabalho começou a ter uma projeção profissional. Então, me considero aracajuana, e o povo de Aracaju também me considera. Cheguei em São Paulo levantando a bandeira de Aracaju, trazendo visibilidade a um Estado que é o menor do Brasil e que pouquíssimas pessoas conhecem. Assim como eu, Héloa, Lau, The Baggios, Mestrinho estão sempre por aqui. É uma galera que quer visibilizar não só seu trabalho, mas seu Estado. Chegando aqui com sotaque, o pessoal fica te olhando esquisito. Então, você tem que ter um trabalho muito bom pra ser reconhecido, por que as possibilidades são escassas. Trazer essa bandeira é uma coisa incrível e é uma responsabilidade enorme, por que estou trazendo o nome da cidade que amo e que escolhi para ser minha. É onde quero criar meus filhos e onde quero morar.

OV – Você vem encontrando mais espaço aí do que encontrava em Sergipe?
BF – Sim. Em Aracaju, eu não estava sendo bem assistida nem financeiramente e nem no reconhecimento do meu trabalho autoral. Os bares estavam querendo que eu tocasse música dos outros, e isso começou a me incomodar. Eu estava ganhando dinheiro como intérprete, e nem era tanto dinheiro assim. Em São Paulo, só apresento trabalho autoral, sendo valorizada por isso e contratada em teatros e em centros culturais.

OV – Você é reconhecida por fazer da música instrumento de ativismo. O que te inspira a conduzir seu trabalho de forma tão engajada?
BF – Ninguém valoriza a profissão do músico, mas nossa função é muito importante, por que a gente passa informações e forma opiniões através do nosso som. Também somos educadores. O meu engajamento é necessário, por que tem muitos dos meus morrendo. Morre preto e pobre todo dia, as mulheres negras são objetificadas, e é por isso que eu não posso me dar ao luxo de falar de amor. É complicado falar de amor sem falar de homofobia, de transfobia. Tenho um compromisso com meu povo, com a favela, com quem veio de onde eu vim e precisa receber o mesmo tipo de informação a que eu tive acesso. E eu me inspiro em muitas mulheres que fazem da arte a sua militância. Nina Simone, que foi ativista, cantora, e que nunca deixou as lutas do movimento anti-racismo. Aqui perto, estou tendo a oportunidade de conhecer e trabalhar com mulheres que admiro, como Luana Hansen, Preta Rara, as meninas do Rap Plus Size. Aí em Aracaju tem o exemplo de Linda Brasil, que é uma sobrevivente. Meu ativismo não é sozinho, tenho a ajuda de pessoas que me formam e fortalecem.

OV – Como está a sua carreira hoje e quais são os seus próximos projetos?
BF – Não consigo descrever a alegria que estou sentindo de ver um trabalho sendo feito. A gente está em processo de gravação do EP, e vai ser um EP lindo, com participações de amigos e pessoas queridas como Preta Rara, Luana Hansen, Luedji Luna… É muita gente boa e eu estou muito feliz em encontrar espaço para o meu trabalho, produzir, estar em estúdio, montar arranjos, fazer shows, ser reconhecida na rua. Estou em uma fase plena, fazendo o que eu realmente quero fazer. Estamos com o projeto de lançar um single em agosto, que se chama “Cota não é esmola” e que fala sobre as cotas raciais na universidade. Vamos lançar o EP em novembro, com um showzão aqui em São Paulo. Estou doida de vontade de ir para Aracaju, mostrar esse trabalho novo e rever os amigos e as pessoas que me incentivaram, como Paulinho Araújo, João Victor, Lari Lima e Bárbara Sandes. Quero dizer que a gente não esqueceu da quebrada, de onde a gente veio. Sinto saudade de Aracaju. Do cheiro, do clima, das pessoas, do calor, de tudo. Mas, como já dizia João Victor Fernandes, “saudade é poda da alma para melhor crescer”. E a gente tá crescendo.

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