Prefeitura “comemora” economia às custas de arrocho e desestrutura


Edvaldo não diz, mas economia para a prefeitura é prejuízo para o povo

Edvaldo Nogueira tenta empurrar goela abaixo imagem de prefeito austero

Anderson Christian

politica@cinform.com.br

Esqueça Joseph Goebbels, ministro da Comunicação na Alemanha de Hitler, que dizia que a “mentira repetida mil vezes vira uma verdade”. Esqueça Benito Mussolini, ditador italiano, que colocava um boneco em seu escritório, à noite, para que todos pensassem que ele não parava de trabalhar. Esqueça Donald Trump e sua aliança com o russo Vladimir Putin para, via notícias falsas, manipular a eleição norte-americana. O mais novo caso de “genialidade” em comunicação e manipulação de informações está aqui e agora: o prefeito de Aracaju, Edvaldo Nogueira, PCdoB, quer convencer você de que ele é um gestor austero, que a prefeitura economiza e que isso é bom. Mas não revela os custos disso para a população.

E foi para responder a questão de quanto o povo padece, enquanto o prefeito faz “festa” por Aracaju ter sido apontada pelo jornal Valor como a capital que mais economizou este ano, que a reportagem do CINFORM buscou economistas e, principalmente, pessoas que conhecem por dentro o funcionamento dos serviços públicos aracajuanos.

O economista do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômico – Dieese –, Luiz Moura, um dos mais consultados quando o assunto são contas públicas em Sergipe explana a situação. “O prefeito teve duas medidas que acabaram impactando nas despesas. A primeira foi a negociação forçada das dívidas com os fornecedores. Todo mundo que queria receber logo, precisava dar um desconto de 30% no valor. O outro foi que ele não reajustou o piso dos professores e nem deu a revisão salarial dos servidores. E isso está errado, porque não garante nem a recomposição dos salários e nem cumpre a lei do piso”, diz Moura.

ECONOMIA SOFRE

Luiz Moura: “isso não é uma boa política”

Enquanto não dá nem aumentos previstos em lei, Edvaldo, de certa forma, empurra com a barriga o problema. “Em algum momento ele vai ter que sentar e discutir isso”, realça Luiz Moura, para quem, além do impacto na economia como um todo, por conta da menor circulação de moeda, esse tipo de economia defendida pelo prefeito como um “troféu” causa problemas individuais. “Há um impacto na economia, pequeno, mas há. Só que o problema é que os servidores não estão tendo nem a recuperação do que perdem com a inflação”.

Para a economista Sudanês Pereira, o problema não é economizar. É fazer isso sem levar em conta que áreas prioritárias não podem ser desassistidas em momento algum. “É preciso usar, com racionalidade, os recursos que “economizou”. Nesse momento que nós estamos (de crise), não se trata de economizar e guardar. Um exemplo: se não tem medicamentos básicos no posto de saúde, vai guardar esse dinheiro?”, questiona Sudanês.

Sudanês: “dinheiro no colchão?”

“Eu não concordo que esse negócio de bater palmas porque economizou. Se estivéssemos em outra situação, mas estamos em um momento de recessão. A prefeitura precisa resolver rapidamente problemas da comunidade, uma capital praticamente toda esburacada, posto de saúde em que falta Omeprazol, esparadrapo. E ainda vou comemorar isso? Nada disso: se economizei, devo é gastar nos melhores lugares, nas melhores ações possíveis”, explica Sudanês, considerando que as demandas em Aracaju estão “super reprimidas e precisando de ações o mais rápido possível”

SAÚDE

Para Luiz Carlos Spina, secretário geral do Sindicato dos Médicos de Sergipe – Sindmed – o problema é que a realidade não condiz com a propaganda. “A informação que nós temos é a que saiu no Valor Econômico e não sabemos de onde saiu isso, pois o que nós vemos são postos de saúde degradados, em péssimas condições; falta de médicos, com eles querendo contratar através de um PSS (Processo Seletivo Simplificado); e a falta de medicamento, que é constante, é real”, destaca Spina.

Diante desse cenário, em que a prefeitura diz que economiza, não poderia ocorrer o que o secretário geral do Sindimed afirma: “exames, especialmente os mais complexos, e cirurgias, a falta disso tudo é real, porque é a população que sente”, revela Luiz Carlos.

“Fazer festa, divulgação, porque reduziu a despesa diminuindo os serviços para a população é algo complicado”, relata Spina. Para o secretário do Sindimed, ainda há um agravante. “Se isso for verdade, se existe essa economia, uma administração que se vangloria disso não tem nenhuma desculpa para não dar reajuste para os servidores e nem para a falta de insumos e remédios”.

SERVIDORES

Nivaldo: “economia advém do não pagamento de direitos dos servidores”

Outro agente público ouvido foi o presidente do Sindicato dos Servidores Públicos Municipais de Aracaju, Nivaldo Fernandes, que não poupa Edvaldo Nogueira e sua gestão de severas críticas. “Essa propaganda de Edvaldo é enganosa, pois essa economia está na retirada do pão, do café, do arroz, do feijão da mesa do servidor; quando pega as horas extras do servidor e corta pela metade, quando pega a tabela aprovada em 2016, com o orçamento garantindo o cumprimento de seu pagamento, e até agora nada. A economia de Edvaldo está em ficar, há sete meses, sem pagar o adicional de insalubridade e de periculosidade e deixar processos de titulação mofando por não nomear a comissão por esse mesmo período, sem que nada avance”, diz Nivaldo Fernandes, dentre outras reclamações.

Nivaldo ainda cita o não pagamento da diferença de férias dos servidores e as licenças prêmio. “Tanto que já movemos dois mandatos de segurança para resolver na Justiça”. O presidente do Sepuma, sobre a “economia” da prefeitura, é objetivo. “Juntando isso tudo, claro que ele vai fazer economia”, ironiza Nivaldo Fernandes, para, em seguida, vaticinar: “enquanto a prefeitura subtrai, de forma vergonhosa e criminosa, os direitos legitimamente conquistados pelos servidores, faz festa com essa “economia”, entre aspas. Essa “economia” advém do não pagamento dos direitos dos servidores”, finaliza Nivaldo.

Edvaldo não diz, mas economia para a prefeitura é prejuízo para o povo

O raciocínio de Nivaldo Fernandes é corroborado pelo economista Luiz Moura. “Parte da economia está sendo feita nas costas do servidor. E isso não é uma boa política”. Já Sudanês lança uma pergunta simples e inquietante: “está economizado para guardar dinheiro no colchão? No serviço público, isso não existe. O correto é gastar de forma racional e qualificada”. E aí, leitor, será mesmo que merece “festa” a notícia de que atual administração de Aracaju economiza? Para ouvir o outro lado, a reportagem tentou contato, desde sexta-feira, 4, com  o prefeito Edvaldo Nogueira, chegando até a falar com sua assessoria de comunicação. Mas nenhum dos contatos foi atendido e nem retornado.

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