Uma Semana da Pátria apática


Após desfile cívico e Grito dos Excluídos, um rastro de desilusão/Fotos: Vieira Neto

Ouvimos quem fez parte do Grito dos Excluídos.
E a palavra símbolo do 7 de setembro? Desilusão

Em outros tempos, 7 de setembro era uma data efetivamente comemorada, com a população indo às ruas das cidades para acompanhar os Desfiles Cívicos. Essa tradição perdura, especialmente em municípios do interior. Mas neste ano, com o cancelamento do desfile da rede municipal de ensino por parte da gestão do prefeito Edvaldo Nogueira (PCdoB), restou aos aracajuanos o desfile da rede estadual, tradicionalmente realizado, na data reservada à celebrar a independência brasileira, na av. Barão de Maruim.
E estava tudo – ou quase – lá: palanques oficiais; autoridades; desfiles militares e estudantis. Mas, numa semana em que a República veio abaixo – ou quase, novamente –, uma característica foi marcante: reservado para o final do cortejo das escolas, a 23ª edição do Grito dos Excluídos se mostrou mais forte, mais ácida nas críticas e mais impactante até do que os desfiles oficiais em si.

“E a nossa corrupção?”

“A usurpação dos nossos direitos é o que nos une, independente de credos religiosos, pois é enquanto cidadãos que nós estamos aqui”, afirma o Padre Cláudio Dionísio, pároco do Sagrado Coração de Jesus, no Grageru. “A independência não é algo pontual, é contínuo. Nós continuamos escravos do sistema neoliberal e escravos de nossos preconceitos, que é a pior coisa. E mais: escravos do nosso próprio espírito corrupto. Criticamos os políticos por aquilo que fazemos em nossa casa. Então, isso aqui, hoje, é uma lição de cidadania para nós mesmos”, resume Cláudio.

VEM DE LONGE

Veio ver o desfile

Ednaldo dos Santos se aboletou em um ônibus disponibilizado pelo Sindicato dos Servidores de Feira Nova. Sofreu no calor da viagem e, debaixo de uma sombrinha, na Barão de Maruim, se posicionou. “O Brasil tem jeito, só é o povo botar um lá que queira trabalhar. Mas se seguir botando sempre um ladrão lá, nunca vai melhorar e é só a gente que vai sofrer”, avalia, de forma direta, Ednaldo.

Raquel ainda acredita

Mas o sentimento de que as coisas não vão tão bem, especialmente quando mais um grupo passa pelo palanque reservado às autoridades, não se prende a uma idade. Que o diga Raquel de Andrade França, apenas 18 anos. “Tá muito difícil”, diz ela em relação a atual situação brasileira. Mas, ao menos, mantém a esperança. “Lá atrás muito se conseguiu com essas marchas. E eu acho que tem jeito para o país. Porque sempre tem um jeito”.

Poucos clientes

Gilson Oliveira é ambulante no dia a dia, vendendo produtos de limpeza de casa em casa. Aproveitou o 7 de setembro para fazer o famoso “extra”. “Mas a venda hoje foi fraca. Tem muita gente vendendo”. Em relação ao país, Gilson é definitivo. “Não tem mais jeito, não. E esse pessoal aí, gritando, protestando, é só para enganar o povo, para enrolar o brasileiro. Nenhum desses lados está certo. O único lado certo é o de Jesus”, resigna-se.

10 ANOS FORA DO MERCADO

Aloisio: catando lata

Mas o sentimento de desesperança não é algo construído a partir de situações da atualidade. Aloisio Valença dos Santos tem 56 anos, mora em São Cristóvão, próximo à rodoviária. A sua presença na parada da Independência tem a ver com outra “independência”: a financeira. “Tem 10 anos que estou desempregado. Para mim, isso tudo aí não tem nada a ver. Eu cato garrafas e latas para me sustentar. Mas o que dá dinheiro mesmo é lata”.

Fim do preconceito

O babá, ou seja, zelador de santos, Augusto, professando sua religião, africana, aproveitou o Grito dos Excluídos para, também, buscar uma outra independência. “Temos que acabar com os preconceitos, especialmente contra a nossa religião. Nós queremos o nosso lugar, pois isso é nosso dever como cidadãos e seres humanos”. Politicamente, Augusto mantém a esperança viva. “Está difícil, mas eu acho que é possível melhorar, com perseverança e fé”.

Amintas: “apocalipse”

Mas foi o último depoimento capturado pela reportagem que, de fato, assustou pela sua conformação. Amintas Machado, aos 65 anos, não se furta de dizer o que pensa do país. “A coisa tá feia mesmo. Tem jeito, mas o povão tem que mudar. Nessa idade que eu estou, nunca vi o Brasil desse jeito. Agora, tem uma coisa: o que estamos vendo aí é o apocalipse, é o fim do mundo, o fim dos tempos. Mas não é só o Brasil, é o mundo todo”, encerra Amintas.

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