ARTIGO: O CADÁVER ADIADO


Clóvis Barbosa*

Billy Blanco morreu no dia 8 de julho de 2011. Uma de suas músicas, feita em parceria com Tom Jobim, e que ainda hoje é sucesso, foi “Tereza da praia”, que se notabilizou nas vozes de Dick Farney e Lúcio Alves, que simulavam uma disputa pela mesma mulher. Trata-se de uma encantadora conversa musical entre Dick e Lúcio: “Lúcio, arranjei novo amor no Leblon. Que corpo bonito, que pele morena, que amor de pequena, amar é tão bom… Ô Dick, ela tem um nariz levantado? Os olhos verdinhos, bastante puxados? Cabelo castanho e uma pinta do lado? Ora, é a minha Tereza da praia! Se ela é tua, é minha também! O verão passou todo comigo, o inverno pergunta com quem. Então vamos a Tereza da praia deixar, aos beijos do sol e abraços do mar. Tereza é da praia, não é de ninguém, não pode ser tua nem minha também. Tereza é da praia”. Esse disco foi gravado em 1954 e coincidentemente a mulher de Tom Jobim chamava-se Tereza, o que deu panos pra mangas aos fofoqueiros de plantão. Mas Billy Blanco esclareceu em seu livro Tirando de Letra, afirmando que “Lamento desapontar críticos, jornalistas e boateiros: Tereza da praia é figura absolutamente fictícia”.

Para quem não conhece Billy Blanco, o seu nome completo era William Blanco de Abrunhosa Trindade, nascido no Belém do Pará em 8/5/1924 e falecido no Rio de Janeiro em 8/7/2011. Foi um dos compositores mais destacados da música popular brasileira, tendo composições interpretadas por nomes consagrados, como Elis Regina, João Gilberto, Dolores Duran, Jorge Goulart, Nora Ney, Sílvio Caldas, Pery Ribeiro, Miltinho, Doris Monteiro e tantos outros. Mas Billy também era uma figura bem humorada. Conta Ruy Castro, articulista da Folha de São Paulo, que muito depois da morte de Tom Jobim, Billy fez uma paródia com “Tereza da Praia”, ao constatar que ela havia mudado: “Ela usa o nariz só de um lado / Tem o olho vermelho / Bastante injetado / Cabelo na venta / E sapato 40 / Essa é tua Tereza da Praia / No Leblon, não engana ninguém / O meu caso é um rabo de saia / Vai com calma, que é o dela também”. Enquanto uns vivem e se imortalizam na criatividade, como é o caso de Blanco, outros passam pela vida vegetando, como um cadáver adiado. Fazem da hipocrisia a razão do seu viver, sempre fingindo ter crenças, virtudes e sentimentos que na verdade não possuem.

O mais completo dos evangelhos é o de Mateus. Ele nos fala do povo que limpava o exterior da taça, mas deixava o interior sujo: Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Limpais o copo e o prato por fora, mas por dentro estais cheio de roubo e cobiça. Fariseu cego! Limpa primeiro o copo por dentro, que também por fora ficará limpo. Eles são os sepulcros caiados, que por fora parecem belos e adornados, mas por dentro estão cheios de ossos de mortos e imundície. Ainda em Mateus, Jesus disse: Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas, por dentro, estais cheios de hipocrisia e iniquidade (23:28). Agora, por exemplo, a sociedade brasileira assiste diariamente a uma onda denuncista jamais vista na história do país. É denúncia para todos os gostos. Enquanto isso, currículos e conceitos são estraçalhados, patrimônios indisponibilizados e famílias destruídas. O pior de tudo é que a esmagadora maioria dos denunciantes não olha para o próprio rabo, sendo eles responsáveis por práticas éticas piores do que aquelas que estão sendo elencadas contra alguém ou instituição. Ora, ora senhores… ética cobra quem tem ética, já dizia Kant.

Certa vez, há muitos anos atrás, preguei uma peça num amigo intelectual, tido e havido como crítico de toda e qualquer atividade artística. Tivera antes uma discussão com ele a respeito de quem seria o maior poeta da língua portuguesa. Sempre defendi o nome de Fernando Pessoa, ao que ele afirmava que eu nada entendia de poesia. Para ele, Camões era imbatível e Pessoa estava muito abaixo de ser considerado um poeta da estatura do grande autor de Os Lusíadas. Disse-lhe que Camões não escrevia para o povo, mas para um seleto grupo de intelectuais, ao contrário de Pessoa, cuja poesia penetrava na alma e sempre nos deixava um ensinamento. Pois bem. Certo dia, cheguei em sua casa com um poema que gostaria que ele fizesse uma crítica, já que tinha vergonha de mostrar aos meus colegas. Ele leu por umas três vezes, me devolveu com a seguinte decisão: – Desista de poesia, está uma bosta! Imediatamente, retirei do bolso um pequeno livro de Fernando Pessoa, abri em determinada página e mostrei-lhe aquele poema, cujo nome era Poema em linha reta. Ele ficou ruborizado. Eu saí de sua casa num misto de alegria e frenesi. Tinha vingado o meu poeta. Independente desse fato fomos amigos até o dia de sua morte.

Na verdade, Poema em linha reta foi escrito por seu heterônimo Álvaro de Campos, tido por ele como “o mais histericamente histérico de mim”. O poema é um libelo contra a insensatez, a ausência de autocrítica, da falta de vergonha, do egocentrismo, tão em voga nos dias atuais: Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. (…) Toda gente que eu conheço e que fala comigo nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu um enxovalho, nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida… Quem me dera ouvir de alguém a voz humana que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; que contasse, não uma violência, mas uma covardia! Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam. Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? (…) Poderão as mulheres não os terem amado, podem ter sido traídos – mas ridículos nunca! Powell e Presburger fizeram um filme em 1948 sob o título “Os sapatinhos vermelhos”. Nele, é dito ao personagem russo Boris Lermontov: – Você não pode mudar a natureza humana. Ele responde: – É verdade, mas posso fazer algo melhor: ignorá-la. Pois bem. A verdade é que, apesar do grande avanço da tecnologia, o homem pouco evoluiu.

Nunca se viu tanta autodestruição. É o caso dos políticos que desacreditam a política, por exemplo. Qualquer indício de irregularidade, sem qualquer análise mais profunda, é tida e havida como corrupção, improbidade, ladroagem. Ninguém se espanta mais quando se fala que determinado político é ladrão. A crítica, a denúncia, vem do povo? Não! Vem da própria classe política. O comportamento ético de alguns é de arrepiar. Recentemente, um político que foi eleito por uma coligação, repentinamente, descobre que os partidos da coligação que o elegeu são formados por corruptos e, por isso, retira-se da sigla da qual fora eleito e ingressa numa outra, tida como opositora. E tudo fica por isso mesmo. Ele não perde o mandato. Ora, é sabido que, no sistema do voto proporcional, o político é eleito pela soma dos votos de todos os outros candidatos do partido ou da coligação. São raros os casos daqueles que se elegem com votos superiores àqueles fixados para o quociente eleitoral. Se esse político, pós eleição, descobre que os seus ex-aliados são corruptos, o ético era ele renunciar, já que foi eleito sob o manto da desonestidade. Outros, sentem-se realizados ao desqualificar os atos, por mais honestos que sejam, de seus adversários.

O pior de tudo é quando o denunciante é flagrado nas suas pilantragens, oportunidade em que, usando de leviandade, as explicações paleolíticas são dadas pela ausência completa de pudor. Pois bem. Essa alcateia de bárbaros que vive zunindo em todo campo social, com ênfase nos segmentos econômicos e políticos, em momento algum tem qualquer compromisso com a sociedade, a qual, muitas vezes, é quem paga o seu salário. Nesse mundo, a hipocrisia impera triunfante, já se disse isso, levando fama de bons aos falsos moralistas, e vitimando com difamações e inveja as pessoas que possuem virtudes verdadeiras. Há sempre uma esperança de enquadrar os selvagens num processo civilizatório. Poderia começar ouvindo as músicas de Billy Blanco. Sugiro Tereza da praia, Pistom de Gafieira, Estatuto da Gafieira, Mocinho bonito e Sinfonia do Rio, esta última título de uma suíte composta de dez sambas, feita com Tom Jobim, sendo considerada um hino à Cidade Maravilhosa. Enfim, mentecaptos, não sejam “um pobre farsante que a sorte esqueceu, contando vantagem”. Se não puder eleger o amor como seu porto, faça como Billy que, com simplicidade de espírito, se expressou: “mesmo que seja pra viver cheio da grana, quero ser pobre em Copacabana”. Não seja um cadáver adiado.

*Clóvis Barbosa é advogado, presidente do Tribunal de Contas do Estado de Sergipe.

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