Diz que é verdade, que tem saudade…


Bar Dauê trabalha com karaokê há 2 anos. (Divulgação)

Sucesso nos karaokês e fenômeno na internet, “Evidências” embala o coração e o gogó brasileiro em 30 anos de paixão e entrega

 

Por Henrique Maynart

Mas pra quê viver fingindo, se eu não posso enganar meu coração? Perguntar é fácil, perguntar não ofende, vai vendo. No dia 17 de junho um punhado de brasileiros toma de assalto um bar em Rostov, na véspera da estreia da seleção contra a Suíça, para amornar o peito contra a baixa temperatura russa e a tradição insuportável de “neutralidade” dos adversários suíços. A manchete chega implacável: “Brasileiros invadem bar na Rússia e tocam “Evidências” na véspera da estreia”.

Brasileiros invadem bar em Rostov e cantam “Evidências”.

Os suíços que nos perdoem, mas neutro só se for sabão glicerinado, seja nas relações internacionais, dentro das quatro linhas ou na redação do jornal. Neste dia o planeta inteiro, de olhos acesos em direção à Copa do Mundo, pôde constatar que diferente do meio de campo embolado entre o TRF 4, Sérgio Moro e Rogério Favreto sobre o Habeas Corpus do Lula, o povo brasileiro é apaixonado e faz questão, sim, de Evidências. Temos um novo hino nacional, o brado retumbante lá das margens plácidas do Ipiranga que se conforme. Evidenciar é preciso.

10 MIL VEZES POR NOITE

“A gente aqui, pra falar a verdade, tá até cansado de ouvir.” Caio Bastos é proprietário do Bar Dauê, na Farolândia, e trabalha com Karaokê há mais ou menos dois anos, sempre às quartas, quintas e sextas ou sábados, a depender do movimento. “De 100 músicas tocadas, ela está no Top 10. Ela toca no mínimo duas vezes por noite e todo mundo canta junto”. E os números do Bar Dauê ainda estão abaixo da média nacional. De acordo com pesquisa realizada pela KWC Brasil, entidade que organiza Campeonato Mundial de Karaokê, “Evidências” é a música mais cantada pela modalidade no país, com uma média de 5,2 tocadas por noite. A pesquisa foi realizada em 2 mil casas de Karaokê, o que significa que a canção é tocada, em média baixa, 10 mil vezes a cada noite.

O bancário Zeca Oliveira é figurinha carimbada do Bar Dauê, aparece por lá ao menos uma vez no mês para soltar o gogó. “Gosto mesmo é de cantar “My Way”, do Sinatra, mas o legal de cantar “Evidências” é que o bar inteiro canta com você, todo mundo canta a letra inteira, envolve todo mundo”, ressalta.

SOFRÊNCIA E SUPERAÇÃO

“Essa música hoje representa pra mim o livramento de uma relação abusiva, mas já foi muito difícil pra mim”. A alagoana Thatiane Nicácio, de 29 anos, relata sua estória com a canção. “Em 2009 eu comecei a namorar um cara, que era um canalha, por quem eu era apaixonada. Na segunda ou terceira vez que eu levei “gaia”, reatamos com ele mandando essa música. Toda vez que terminávamos, eu escutava essa música na “sofrência”. Em 2011 ficamos noivos e o “fio da pexte”, botou “Evidências” pra tocar no pedido.”

Thatiane Nicácio. “ Música significa um livramento de uma relação abusiva” (Arquivo pessoal)

O relacionamento terminou no final de 2012, e ela preferia evitar a música até um show de Fagner, no Festival de Inverno de Garanhuns (FIG) em 2013. “Em julho, no FIG, teve um show de Fagner e ele tocou a música. Foi uma danação de sofrimento. (risos) A primeira vez que ouvi depois de acabar o relacionamento, foi uma explosão de sofrência. Mas já deu tempo de superar, hoje eu curto a música”.

DE ÓCULOS ESCUROS

Tatiana Hora é doutoranda em Cinema pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e fala sobre um relacionamento conturbado no início dos estudos, em Belo Horizonte. “Eu fiquei muito apaixonada, estava sozinha em outra cidade e carente. E a gente ficou uns três meses, era aquela briga de gato e rato. A gente às vezes demonstrava estar apaixonado, às vezes fugia, ficava fazendo jogo, muito. Aí um amigo meu começou a tocar “Evidências” no violão e falou. ‘Aí, a música de vocês dois’. A partir daí toda vez que tocava “Evidências” eu lembrava dele e sofria muito. Ele terminou comigo de óculos escuros, pra esconder o choro.”

Com o passar do tempo Tatiana acabou superando a “sofrência”, mas a recordação se mantém. “Depois disso, eu canto essa música em videokê e lembro dele até hoje ( risos). Mesmo não gostando mais dele e depois de viver muita coisa. Mas virou ‘a música dele’”.

Tatiana Hora. “Eu canto essa música em videokê e lembro dele até hoje”. ( Arquivo pessoal)

COWBOY NO ASFALTO

“Ela pode ser simples, mas não é simplória. Ela toca as pessoas”. O DJ e pesquisador musical Rafa Aragão fala sobre a composição de José Augusto e Paulo Sérgio Valle. “Eles são grandes compositores, ambos têm diversos hit´s românticos. A letra é enorme, mas as pessoas sabem cantar”.

A canção foi gravada inicialmente em 1989 por Leonardo Sulivan, mas não alcançou projeção. O sucesso veio após a gravação da dupla Chitãozinho e Xororó em 1990, no álbum “Cowboy no Asfalto”.  “Acho esse nome do disco bem sintomatico com o momento que o sertanejo vivia ali. Foi a nacionalização do gênero, a explosão. Programas de tv, propaganda de cerveja, música de novela. O sertanejo já era um estilo que vendia bem, só que era visto como música das classes populares. Nos anos 90 ele é incorporado as classes média e alta. “Evidências” é a prova da longevidade e alcance do sertanejo.”

DJ Rafa Aragão, pesquisador musical (Arquivo pessoal)

Recentemente a canção foi alvo de uma peça publicitária do desodorante Rexona, em alusão à Copa do Mundo. A peça ressalta a reconciliação da torcida brasileira com a camisa da seleção, seja pela lembrança da derrota por 7 x 1 da Alemanha em 2014, seja por alusões de ordem política e associação da camisa da CBF aos protestos pelo impeachment da presidente Dilma Roussef, em 2016. O vídeo chegou a 11 milhões de visualizações no Youtube, além de ampla veiculação na televisão aberta.

EMOÇÃO, SENTIMENTO E SEDIMENTO

“Evidência é uma palavra que se refere muito à categoria científica, algo que prova alguma coisa, que remete à racionalidade. A música reflete exatamente a briga entre a racionalidade e a paixão.” O psicólogo clínico Aldo Rezende analisa a canção com a sua vertente estética romântica e no foco do “estado de apaixonamento”.  “O amor é um sedimento, a paixão é um estado emocional e, como tal, é passageira.”

Aldo Rezende, psicólogo clínico, mestre em Psicologia Social e Política. (Arquivo pessoal)

“A paixão tem tempo de duração. É interessante que nesta vivência da paixão a gente consegue construir sentidos para o afeto, para o amor, para um vínculo mais contínuo, que seria o amor no caso. E a música tem uma lacuna, ninguém sabe o que vai ter aí, depois dessa entrega. Se a entrega vai se construir num amor, numa vontade de estar junto, ou se vai ser algo volátil como qualquer outra emoção.”

E NESSA LOUCURA DE DIZER QUE NÃO TE QUERO…

Rebeca, nome fictício com vistas a proteger a fonte por motivos de “não quero me expor assim não”, relata a dificuldade de descambar diálogos em redes sociais e aplicativos de relacionamentos por parte dos homens heterossexuais com os quais interage.  “Os caras mal falam “bom dia” já chegam dizendo que não querem compromisso, que “saíram de um relacionamento difícil”, que não querem se envolver. Velho, eu só dei bom dia muitas vezes, quero casar com o cara não. Os caras precisam de terapia, não de aplicativos de relacionamento e encontro”, desabafa.

 

Print de conversas em aplicativos de relacionamentos.

Mestre em Psicologia Social e Política, Aldo Rezende explica parte deste comportamento em redes sociais levantando o paradoxo entre racionalidade e perda de controle, e localiza o romantismo enquanto categoria estética com o exemplo de “Evidências”.  “As pessoas deslocaram o romantismo de sua função histórica e estética. A relação do romantismo com a política e com a história, a gente tá falando do surgimento da burguesia. Dos princípios burgueses. E um dos princípios mais importantes da burguesia é a liberdade. A paixão é caracterizada por um estado de fusão e de perda de liberdade. ‘Eu preciso aceitar que não dá mais pra separar as nossas vidas.’ A gente tá falando de perda de liberdade, de perda de autonomia. Pra mim este é o princípio político basilar. Pra se apaixonar você precisa perder outras possibilidades.”

SÓ QUERO OUVIR VOCÊ DIZER QUE SIM

Sucesso nos karaokês brasileiros, campeã de memes em versões na internet mesmo após quase três décadas de seu lançamento nacional, “Evidências” vem comovendo e arrastando multidões de fato, seja num bar em Rostov, no metrô de São Paulo, no bandejão de Campinas, nas baladas sertanejas ou nas biroscas espalhadas pelo Brasil afora. Um hino que consegue mesclar o sentimento de entrega, de demonstração de afeto, de construção de identidade e nacionalidade através de vivências do passado e do presente. “Mas pra quê viver fingindo, se eu não posso enganar meu coração? Eu sei que te amo.”

Previous Gladston Rosa recebe Chiko Queiroga e Antônio Rogério em show especial
Next Presidente do Creci-SE celebra boas notícias para os Corretores de Imóveis