“Nem herói nem bandido, policial é trabalhador”


Delegado esteve em Sergipe para participar do seminário “Amar e mudar as coisas”. (Arquivo pessoal)

Orlando Zaccone fala sobre os desafios para outro modelo de segurança pública, defende a desmilitarização da polícia e a legalização das drogas

Henrique Maynart

“O que se discute no Brasil não é como a polícia age, mas em relação a quem ela age.” Ele é delegado de polícia, pesquisador, Hare Krishna, vegetariano e defensor da legalização de todas as drogas. Aos 54 anos de idade, 18 deles na Polícia Civil do Rio de Janeiro, Orlando Zaccone não corresponde ao estereótipo clássico dos operadores da segurança pública. Mestre em Ciências Penais, doutor em Ciência Política e autor de “Os acionistas do nada: quem são os traficantes de drogas”, a figura do policial truculento, marrento pela própria natureza, dá de cara com um semblante simpático de fala suave e suingada.  De passagem pela capital sergipana para participar do seminário “Amar e Mudar as Coisas”, ocorrido na noite de quarta (25) na Universidade Federal de Sergipe (UFS), Orlando conversa com a reportagem do CINFORM entre o pão com queijo e o bolo que abocanha no final do café da manhã do Hotel Ibis, na última quinta-feira (26).

“Pow cara, senta aí, toma um café comigo”. Trajando uma camisa da Brigada Organizada de Cultura Ativista (BOCA), organizada pelo músico Marcelo Yuka, com a frase #NãoVaiTerCopa e o verso dedicado ao pedreiro Amarildo Souza, desaparecido e morto em 2013, Orlando não poupa tempo e análise.  Em 49 minutos e 38 segundos de conversa cronometrada, o delegado fala sobre seu primeiro contato com a Polícia Civil, o caso Amarildo, o recrudescimento do neofascismo, o papel da Associação dos Agentes da Lei Contra a Proibição (LEAP-Brasil), e o movimento dos policiais antifascismo.

A REDAÇÃO, O MONASTÉRIO E A DELEGACIA

Sua primeira formação foi em Jornalismo pela PUC, quando entra no vestibular de 1982. Ele chega a trabalhar na grande imprensa como repórter de O Globo, chegou a ser chefe de reportagem do caderno de Turismo, mas larga tudo em 1989 para virar monge Hare Krishna pelo período de um ano. Abandona o monastério e retoma os estudos em Direito, por influência do pai. “Fui terminar o curso de direito e aí eu me achava muito velho né, com trinta e poucos anos eu me achava muito velho. Daí eu comecei a fazer concurso público pra várias carreiras jurídicas, fiz pro Ministério Público, pra defensoria, e fiz pra delegado. Passei, estamos aqui até hoje (risos)”

Em paralelo ao trabalho como delegado ele vai fazer o mestrado em Ciências Penais, onde ele visa estudar a criminalização das drogas e partir de sua experiência como policial. “Eu sou da geração dos anos oitenta e o consumo de drogas, principalmente no Rio de Janeiro, deu um boom muito grande. E não só a maconha. Eu vivi aquela realidade muito de perto e queria entender como uma coisa que fazia parte de uma cultura, da produção cultural dos músicos da minha época, como o Cazuza, ou seja, quando a contracultura virou cultura. Lembro que nas eleições de 1982 o mote da campanha era “Brizola na cabeça”, ou seja, se brincava até na política com a questão das drogas… E daí os processos de criminalização foram crescendo. Eu queria estudar isso.” Deste estudo surge o livro “Os acionistas do nada: quem são os traficantes de drogas”.

Orlando Zaccone. Delegado, vegetariano, Hare Krishna e defensor da legalização das drogas. ( Arquivo pessoal)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

EU SOU UM DELEGADO QUE ELES PODEM XINGAR

Os posicionamentos polêmicos acumularam uma série de desgastes públicos e internos, ele comenta a sua relação com parte da corporação e parte da categoria policial. “Por parte da base da polícia, eles acham que eu só consigo fazer o que eu faço porque eu sou delegado, então todo o ódio que eles têm em relação à subordinação, eles colocam pra mim. “Pow, este cara só fala estas coisas porque ele é delegado, se a gente falasse metade destas coisas a gente tava preso”. Eu já ouvi vários comentários como este. Eles odeiam esta subordinação hierárquica dentro da instituição policial. Hoje um delegado recém-concursado entra mandando num policial que tá lá a 20 anos. Essa relação é sentida pelos policiais.  Então quando eles veem um delegado fazendo uma crítica ao modelo, eles aí vêm dois problemas: é a oportunidade de xingarem um delegado ( risos) porque eles podem me xingar no campo político que eu não levo a questão à Corregedoria, eles sabem disso. Se a Corregedoria me chamar pra dar explicações sobre um comentário meu no facebook eu vou dizer que não tem nada a ver, que eu não estava no exercício da função, que eu estava como cidadão. O policial militar não tem esse direito. Então como eu vou acionar a Corregedoria contra um policial que entra no facebook pra me xingar? Eu não vou levar pra questão correcional. E eles já se acostumaram com isso, eu sou um delegado de polícia que os agentes podem xingar, acho que eu sou o único (risos). “

A DESMILITARIZAÇÃO E O APOIO AO BOLSONARO

“Pesquisas feitas nos últimos anos apontam que a grande maioria dos policiais militares são a favor da desmilitarização, cerca de 70% dos policiais de acordo com algumas pesquisas. Então como é que este mesmo policial que é a favor da desmilitarização apoia um candidato que é exatamente o contrário? Que a cada dia que passa propõe um modelo mais militarizado? Você pode discutir a desmilitarização pelo viés da sociedade ou pelo viés da corporação. Pelo enfoque dos policiais, o Bolsonaro é militarista… A sociedade constrói dois estereótipos que são muito ruins para os policiais: um é o “banda podre”, o policial corrupto, o policial-bandido, que é construído à esquerda. E essa ideia do policial-bandido, se constrói à direita um outro estereótipo pior, que é a do policial-herói. Isso é uma das explicações para o que está acontecendo neste momento, do apoio dos policiais à pré-candidatura do Bolsonaro. Porque entre o herói e o bandido você vai querer ser  o herói, claro. Quando na verdade o policial é um trabalhador que não se enxerga como tal.”

POLICIAIS ANTIFASCISMO

“A gente incorpora o termo fascismo não como uma forma de governo ou um modelo de Estado, a gente encara o fascismo como um modo de vida. Este modo de vida pode ser incorporado por qualquer pessoa. O fascista não é uma categoria de anormal. Aqueles caras que estavam comandando os campos de concentração na Alemanha zanista, eles eram anormais? Não, eles estavam ali operando um modo de vida. E a gente pode ver que mesmo nas nossas relações pessoais a gente pode se comportar de um modo fascista. A gente precisa construir uma fala que possa reconhecer os policiais como trabalhadores. A esquerda abriu mão de ter uma fala para os policiais. Isso significa que a esquerda construiu uma ideia de que os policiais são inimigos do povo. O policial nada mais é que um servidor público que opera funções.”

CASO AMARILDO

O caso do pedreiro Amarildo foi investigado na delegacia onde estava lotado, na 15ª DP, da Gávea. Ele discorre sobre a dupla função do delegado e as contradições que surgem deste papel híbrido. “O caso Amarildo foi exatamente isso. Eu era delegado na área do desaparecimento do Amarildo, o pedreiro. Eu tinha um delegado assistente que estava trabalhando num inquérito pra investigar o tráfico na Rocinha, que resultou numa operação chamada Paz Armada. Um dia depois de uma diligência pra cumprir mandado de prisão na Rocinha o comandante da UPP resolve, por conta própria, pegar o Amarildo e levar pra sede da UPP, para interrogá-lo, para descobrir onde estavam armas, mas isso não fazia  parte da operação, ele fez à revelia. O comandante é responsável pela diligência que tem como consequência o desaparecimento do Amarildo. Eu tinha que investigar o Amarildo, e ao mesmo tempo que eu estava investigando o desaparecimento , neste inquérito pra apurar o tráfico, se construía a ideia de que Amarildo era traficante e eu tive que intervir nessa situação. Então foi um momento em que eu me coloquei contra um outro delegado que estava lá na unidade, que eu me coloquei contra alguns policiais que estavam fechados neste projeto, que revela exatamente isso que a gente está conversando.”

VIOLÊNCIA, POLÍTICA E ESPIRITUALIDADE

Questionado sobre a relação com a perspectiva Hare Krishna e sua atividade policial, Orlando discorre sobre a questão da violência não apenas na segurança pública, mas em todas as esferas da vida. “Nossa livro sagrado, a Gita,  é a narrativa de uma guerra. E ali você tem toda uma condição do homem no que diz respeito à própria existência da violência como algo inerente a este mundo que nós vivemos. Acho que existe uma tradução um pouco equivocada daquilo que o Ganchi falou sobre “não-violência”, na verdade a “ahimsa” é produção de  violência desnecessária. Neste mundo o ato de comer é violento, você vai ter que se alimentar de outro ser vivo. Se você é vegetariano você faz isso pra reduzir a violência. Ou seja, vamos abrir mão de uma violência desnecessária. A violência faz parte deste mundo. Eu acho que a espiritualidade diz respeito a isso. A espiritualidade é algo que está ligado à própria política. Aristóteles falou q eu o homem é um “animal político”, ele tá falando que o homem é o único animal que tem potencialidade para refletir a si mesmo acerca da  questão espiritual. Espiritualidade e política é o mesmo sentido, pra mim está cada vez mais claro que estamos falando a mesma coisa. Tanto na política quanto na espiritualidade você traz a potência de sentir pelo outro, se identificar no outro, se reconhecer no outro.”

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