CINFORM recebe denúncia de assédio sexual dentro da UFS


Luiz Adolfo participa como voluntário do coral da UFS. Foto: arquivo pessoal

Professor de Física foi afastado da sala de aula, mas a UFS
permite que ele seja voluntário do coral da universidade

Uma denúncia delicada e grave de assédio sexual na Universidade Federal de Sergipe (UFS) chegou ao CINFORM. A equipe de reportagem apurou o caso e a universidade confirmou. O professor do curso de física, Luís Adolfo de Mello, assediava alunas publicamente. Em seu perfil no SIGAA (sistema online da universidade), que era para conter informações da vida acadêmica, há informações da sua vida pessoal, hobby e afins, alguns alunos chegaram até a comparar com o perfil do aplicativo de relacionamento Tinder. Além disso, Luís enviava e-mails para a turma fazendo comentários impróprios com algumas alunas. O professor se encontra afastado do curso, porém, ainda transita na universidade e participa do coral da UFS como voluntário, de acordo com informações.

Este é o perfil do professor no
sistema online da universidade. Foto: arquivo pessoal

Uma das vítimas relata que ele sempre as elogiavam, colocando apelidos carinhosos, tentando puxar assunto e até mesmo forçando contato físico. “No meu quarto período eu peguei uma disciplina de física com o professor Luiz Adolfo. Desde o início do semestre eu percebia a “atenção” que ele dava para as alunas. No início era um grupo específico de meninas às quais, toda vez, ele sempre dirigia as perguntas e usava nos exemplos. Elas ficavam claramente desconfortáveis e “sem graça” diante de toda exposição, visto que era uma turma grande com diversos cursos. Mas eu nunca via nada de tão grave, só considerava um professor chato e que gostava de pegar no pé de algumas alunas que ele talvez conhecesse. Não conhecia nenhuma delas. Como eu sempre participava das aulas ele acabou aprendendo meu nome e eu entrei para o grupo que sempre recebia essa “atenção”. Se tornou tão desconfortável e chato que eu chegava a me sentir desmotivada a tirar dúvidas e fazer perguntas. Sempre pedia a algum colega homem, ao qual ele respondia de forma simples e “seca”, sem ficar fazendo piadas e chamando de apelidos”, relata Kelly Rayane (nome fictício).

Segundo a jovem, inúmeras vezes o professor dizia que tal aluna só sairia se desse um abraço ou beijo, forçando um contato totalmente desnecessário. No final do período Kelly relata que o professor enviou um e-mail para todas as suas turmas, citando três alunas. Uma delas foi ela, a qual ele convidou para “sair para jantar”. As outras duas garotas citadas no e-mail foram elogiadas da seguinte maneira: ‘sua nota foi 9 mas você sabe que é uma nota 10’. A partir daí as meninas entraram em contato com Bianca e disseram que foi criado um grupo numa rede social juntamente com outras alunas de outras turmas, e lá continha inúmeros relatos de assédio do professor, inclusive piores do que a jovem tinha passado. O processo foi iniciado e mais de 10 ex-alunas e uma secretária deporam. O depoimento foi bem desgastante devido ao fato de que ele estava na sala e era livre para confrontar o que a vítima dizia. O professor foi afastado da universidade.

Um dos e-mails que ele enviava para a turma elogiando as meninas. Foto: arquivo pessoal

“Acabei sabendo de seu afastamento e em breve, se não já o fez, deve retornar às salas. Preocupante o fato de que nem mais de 10 mulheres depondo contra um assediador e ele busca estará em breve livre para fazer isso de novo. Quatro horas por semana, durante quatro meses, na frente de 50 alunos. Ou mais”, pontua.

VOVÔ DO BEM

O CINFORM conversou com mais uma vítima de assédio. Quitéria Batista (nome fictício), relata que inicialmente o via como um ‘vovô do bem’. Ele sempre se referia a ela como ‘queridíssima’ e a jovem o tratava normalmente, até perceber que o professor começou a invadir o seu espaço.

“Sempre vinha dar beijo no rosto das meninas, fazer comentários indelicados e aí eu comecei a evitá-lo, assim como outras meninas. Teve um dia que eu e minha amiga estávamos no corredor e íamos passar por ele, mas para fugir dos “beijinhos” entramos no banheiro para esperar ele passar. Ele viu a gente entrar no banheiro, então ficou fazendo hora no corredor até sairmos de lá. Então, ele veio para cima da gente, eu coloquei a mão na frente dele e cumprimentei com um aperto de mão, para ele se tocar. Outra vez, quando fomos buscar as notas na sala, ele estava na porta e novamente veio beijar meu rosto, mas eu virei e saí, meus colegas estavam por perto. Os episódios se repetiram, uma vez ele encurralou uma colega nossa na parede. Depois que o denunciamos e ele foi exonerado, o encontrei como voluntário no coral da universidade. Ele ainda tentou manter contato, queria que eu tivesse lido um negócio que ele escreveu no celular, um poema, texto, sei lá. Mas eu ignorei e pedi para um amigo devolver o celular que ele tinha colocado na minha estante. Depois de ignorá-lo algumas vezes ele parou de tentar manter contato. Acho realmente que ele tem algum problema mental, porque ele não fazia nada escondido e muitas mensagens sem noção ele mandava pelo SIGAA (sistema on-line da UFS), às vezes sinto pena dele”, declara.

BRINCADEIRAS INCONVENIENTES

Mauro Narciso (nome fictício) foi aluno de Luís Adolfo na disciplina de Física C, no primeiro semestre de 2016. Desde o primeiro dia o jovem notou suas brincadeiras inconvenientes com as alunas da sala e percebeu se tratar de assédio. Ao longo do período, as brincadeiras foram piorando, e as reclamações das estudantes eram mais notáveis.

“No fim do período, quando foi colocar as notas no sistema, Luís enviou um e-mail pelo SIGAA, no qual praticamente convidava algumas alunas para sair com ele. E o pior de tudo, como havia mandado pelo sistema, todos os alunos receberam. Assim, algumas meninas se sentiram revoltadas e foram testemunhar na ouvidoria. Acabou que foram descobertas várias denúncias de assédio contra ele, datando de muito tempo atrás. Até onde sei, ele foi afastado porque foi constatado que ele tinha problemas de cunho psicológico, mas depois ele retornou à UFS. Eu resolvi falar agora, tanto tempo depois, porque ainda o vejo na UFS e acho que não é correto que um comportamento tão grave fique sem punição. Parece que é algo cultural e que acaba não sendo punido. Não é certo. Eu lembro que minha ex-orientadora de pesquisa, que na época era chefe do departamento e ajudou as meninas quando receberam as denúncias, ficou chocada com essa cara de pau de escrever isso no SIGAA”, diz.

UFS

A UFS declara que fez as devidas apurações e o professor se encontra afastado de sala de aula há quase dois anos. Informa também que o Ministério Público tem acompanhado o caso. A universidade acrescenta que no processo o professor foi punido com pena de advertência e permanece afastado de sala de aula por tempo indeterminado, até que um novo exame de sanidade mental seja realizado, em face dos laudos médicos de transtorno de bipolaridade permanente. Questionados pelo CINFORM se o professor podia ser voluntário do coral e transitar tranquilamente no campus, a UFS afirma que pode sim.

 

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