Restaurante americano quer usar maconha como sedativo na hora de matar lagostas


A lobster is lowered into a pot of boiling water Friday, Feb. 11, 2005, in Freeport, Maine. A new study out of Norway concludes that it's unlikely lobsters feel pain, stirring up a long-simmering debate over whether Maine's most valuable seafood suffers when it's being cooked. (AP Photo/Robert F. Bukaty)

Proprietária de casa no Maine quer suavizar a dor dos crustáceos antes de irem para a panela de água quente. O Departamento de Saúde discorda

 

por Mihir Zaveri
The New York Times
Do Maine, EUA

 

Está chegando a hora, e nada a salvará de uma morte dolorosa. Mas, e se, minutos antes do mergulho fatal na água fervente, o carrasco oferecesse maconha à vítima para sedá-la?

“Se eu fosse uma lagosta e me dessem essa opção”, diz Charlotte Gil, dona do restaurante especializado em lagostas Charlotte’s Legendary Lobster Pound, em Southwest Harbor, no Maine, “minha resposta seria: ‘manda!’.”

Charlotte quer dar esse consolo aos crustáceos cuja morte garante o sucesso de seu restaurante. Para isso, ela estuda deixar as lagostas tão chapadas que mergulhariam sem dor ou estresse na água escaldante.

A “execução lagostal indolor” vem dando ao Charlotte’s muita publicidade – e criando uma grande discussão. Será que lagostas ficam entorpecidas? A maconha evita mesmo que elas sintam dor? Elas vão fumar ou beber a droga? Quem comer uma lagosta chapada também fica doidão?

Segundo o Estado do Maine, a resposta a todas essas perguntas é não.

 

USO DA MACONHA
O departamento estadual de saúde vai considerar como adulterados, portanto, ilegais,  “alimentos afetados por marijuana”, diz Emily Spencer, porta-voz da repartição. “Ainda não temos informações sobre as consequências na saúde das pessoas se comerem lagostas ‘sedadas’ com maconha”, completa.

Segundo Charlotte, os efeitos “eutanásicos” da canábis sobre as lagostas são inegáveis. Num teste repetido várias vezes, funcionários do restaurante puseram a lagosta num pequeno aquário com uns poucos centímetros de água e tamparam. Em seguida, assopraram fumaça de maconha por um tubo para dentro do recipiente até que ele ficasse saturado com ela, mantendo a lagosta ali por cerca de três minutos.

Antes de entrar no aquário, a lagosta estava agitada, mexendo a cauda e estalando as garras. Após o contato com a fumaça, ficou dócil e calma, garante Charlotte. “Ela continuou alerta, mas a agitação acabou. Parou de bater a cauda e não tentou mais beliscar ninguém”, afirma a chef. “Ficou tão calma que deixou até acariciar suas costas.”

Para Charlotte, seu método é preferível a mergulhar um crustáceo vivo, sem submetê-lo a maconha, em água fervente.

Charlotte, de 47 anos, planta sua maconha em casa. Ela diz que tem licença. Em 2017, eleitores do Maine aprovaram, por estreita margem, uma medida que legaliza o consumo recreacional de maconha para maiores de 21 anos.

Na quinta-feira passada, Charlotte recebeu uma advertência do Departamento de Saúde de que estaria usando a maconha de modo proibido, pois a erva só poderia ser destinada a ela, “nunca a uma lagosta”.

Charlotte, que se declara amiga dos animais, vem enfrentando um dilema desde que passou a servir lagosta, seis anos atrás. Neste ano, ela começou a experimentar, com sua equipe, o uso de maconha com fins, digamos, “humanitários” em seu restaurante, que fica 80 quilômetros a leste de Bangor. Quando a experiência veio a público, a ideia foi considerada por alguns uma jogada publicitária, o que Charlotte jura que não é verdade.

Membros da equipe fizeram teste de urina após comer lagosta tratada com maconha e não foram encontrados vestígios da droga. Numa experiência ainda em andamento, o pai de Charlotte, de 82 anos, vem comendo diariamente fartas porções de lagosta sedada com maconha. Em breve ele fará um exame de sangue.

Charlotte espera que esses testes possam provar ao Estado que as lagostas não absorvem a maconha. Mas, a julgar pela advertência recebida, seus planos de servir lagosta “tratada” ao público podem ser interrompidos. Segundo Emily Spencer, a questão ainda está sendo estudada pelo Estado do Maine.

LAGOSTAS SENTEM DOR?
As experimentações de Charlotte remetem a um antigo e persistente debate sobre lagostas sentirem ou não dor. Neste ano, a Suíça decidiu que lagostas e outros crustáceos não podem mais ser mergulhados vivos em água fervente, entendendo que isso causa dor aos crustáceos. Outros métodos, mais rápidos e indolores, devem ser usados, estabeleceu a Suíça.

De qualquer modo, até agora não está claro se lagostas podem sentir dor, diz Michael Tustly, professor de sustentabilidade e soluções alimentares na Universidade de Massachusetts em Boston e estudioso pesquisador sobre os crustáceos. Lagostas, diz ele, percebem o mundo de modo fundamentalmente diferente daqueles pelos quais os humanos o percebem.

“Já vi lagostas muito machucadas começarem a comer logo após se ferirem”, revela. “O que isso significa em termos de percepção de dor?”

Pesquisas sobre os efeitos da maconha em lagostas são escassas. Mas Tulsty diz que um estudo de 1988 indicou que elas reagem a algum componente químico da maconha.

Joseph Ayers, professor de ciências e biologia marinha e ambiental na Universidade Northeastern que há décadas estuda lagostas, diz que elas e outros crustáceos são organismos simples demais para sentirem dor como as pessoas sentem. “São ainda mais simples que os insetos”, afirma. “Não podem exprimir o que sentem, o que só os humanos conseguem. Você provavelmente nunca vai saber o que uma lagosta sente de fato.”

E, podem cérebros assim tão simples ficar chapados? “Quem vai saber?”, encerra Ayers, nada cientificamente.

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