“O câncer foi o meu fim e o meu recomeço”


Outubro Rosa chama a atenção para a prevenção do câncer de mama

Ainda na década de 1990, surgiu o movimento Outubro Rosa para chamar a atenção da população sobre a importância da prevenção contra o câncer de mama, o tipo mais comum entre as mulheres no Brasil e no mundo. Segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), estimam-se que 59.700 novos casos da doença sejam diagnosticados no biênio 2018-2019. O que representa um risco estimado de 56,33 casos a cada 100 mil mulheres.

Ana de Cácia descobriu que tinha câncer de mama em 2002

Ana de Cácia de Almeida descobriu em 2002 que tinha câncer de mama. Ela lembra que começou a sentir que algo estava errado em maio daquele ano, mas foi por conta própria que ela refez a mamografia e, em seguida a biópsia, que fechou o seu diagnóstico somente em setembro.

“Eu já sentia algo errado comigo desde maio e como já tinha feito a mamografia em janeiro e não tinha dado nada, os médicos que eu ia diziam que era imaginação da minha cabeça. Não doía a mama, apenas uma agulhada na mama várias vezes ao dia. Só em julho fiz outra mamografia por minha conta, em agosto fiz a biópsia e em setembro saiu o resultado. Fiquei apavorada. Não queria morrer! Meus filhos eram pequenos, tinham apenas quatro e 10 anos”, lembra.

Ana descobriu que tinha câncer em um estado mais avançado e de um subtipo que atinge cerca de 20% dos casos de câncer de mama, o triplo negativo, que não responde aos medicamentos tradicionais utilizados junto à rádio e quimioterapia.

“O triplo negativo é um subtipo que não expressa nenhum dos três marcadores mais usados na classificação do câncer de mama. Não expressam receptor de estrógeno ou receptor de progesterona (por isso não se beneficiam de terapia oral com hormonioterapia) e também não expressam proteína HER-2. Esse subtipo é mais frequente em mulheres mais jovens e costumam ter um comportamento mais agressivo”, explica o oncologista Ricardo Ramos.

DIAGNÓSTICO PRECOCE
O oncologista Ricardo Ramos alerta para o fato de que a incidência do câncer de mama tende a crescer progressivamente a partir dos 40 anos. Por isso, é importante que a partir desta idade as mulheres que não tem casos da doença na família façam anualmente uma mamografia.

Dr. Ricardo Ramos, oncologista clínico

“O auto exame é importante para a mulher conhecer melhor o seu corpo, podendo assim perceber de maneira mais precoce o surgimento de alterações. No entanto é importante ressaltar que somente o auto exame mensal não é suficiente. Nódulos menores que um centímetro geralmente não são percebidos através do auto exame. Por isso a importância da mamografia anual, pois esta consegue detectar ainda mais precocemente um câncer de mama, aumentando assim as chances de cura. No entanto, se a paciente tem ou teve algum familiar de primeiro grau com câncer de mama ou ovário, ela deve conversar com um oncologista ou mastologista sobre quando iniciar seus exames de rastreamento”, comenta.

O oncologista alerta ainda para alguns sinais que devem servir de alerta para que as pacientes procurem orientação médica especializada. “Sinais como alteração no formato da mama, vermelhidão ou coceira na pele ou no mamilo, vazamento de um ou ambos os mamilos, mudança na textura da pele, inversão ou mudança na posição do mamilo, dor constante na mama ou axila e sensação de nódulo na mama devem servir de alerta para a mulher procurar orientação médica especializada com seu ginecologista”, alerta.

Segundo o médico, “quanto mais precoce for o diagnóstico, maiores são as chances de cura da paciente, que podem chegar aos 95% com o tratamento adequado”.

TRATAMENTO
Quando Ana de Cácia descobriu que tinha a doença, o tratamento era bem diferente do que é feito hoje. Apesar de não ter feito radioterapia, ela precisou fazer a cirurgia e seis meses de quimioterapia. “Há 15 anos atrás a quimioterapia não era fracionada como é hoje. A gente tomava as quimioterapia brancas e vermelhas juntas no mesmo dia. Fiz isso durante seis meses depois que fiz a cirurgia”, lembra.

O oncologista Ricardo Ramos comenta que hoje o tratamento varia de acordo com cada caso, levando em consideração fatores como tamanho do tumor, acometimento dos gânglios axilares, características moleculares do tumor, entre outros. Mas, a “pedra fundamental” do tratamento é a cirurgia.

“Não podemos falar em cura sem uma cirurgia. Seja ela pequena, conhecida como conservadora (onde boa parte da mama é mantida), ou mais extensa como uma mastectomia, onde todo o tecido glandular da mama é removido ficando a pele e mamilo sendo colocado no lugar uma prótese de silicone. O uso de quimioterapia, terapia oral com hormonioterapia, radioterapia dependerá de uma análise por uma equipe que envolva o oncologista clínico e radio-oncologista. Após a devida análise é que chegaremos ao tratamento ideal para cada paciente”, explica.

MUDANÇA DE VIDA

Movimento Mulheres de Peito luta pelo tratamento adequado em Sergipe

Para Ana de Cácia a descoberta do câncer foi o seu fim e o seu recomeço. Ela conta que desde a adolescência sempre trabalhou muito e sempre deu prioridade aos outros ao invés de se colocar em primeiro lugar, mas tudo mudou quando descobriu a doença aos 38 anos.

“Eu só trabalhava, vivia para os outros (incluindo família) e era incompleta. Vivia esperando a felicidade, a riqueza, a realização pessoal. Quando o câncer chegou, tudo perdeu a importância. Comecei a ver que não precisava de nada daquilo para ser feliz, para agradecer a Deus a minha vida. Descobri que a felicidade estava dentro de mim. Uma coisa eu lhe digo: fora o medo da metástase, eu sou uma pessoa muito feliz”, comenta.

Hoje, Ana, que agora só faz acompanhamento clínico a cada seis meses, faz parte do movimento Mulheres de Peito, que lutam pelo tratamento adequado às pacientes com câncer no Estado.

“O movimento Mulheres de Peito atua no apoio ao paciente, entendendo seus sentimentos no momento mais difícil de suas vidas, incentivamos a terapia ocupacional, o apoio psicológico, a fisioterapia, a nutricionista. E o principal: lutamos para que não falte a medicação da quimioterapia e que a máquina da rádio não pare ou quebre”. explica.

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