Omissão do Estado condena pacientes com câncer em Sergipe


Máquina de radioterapia do Hospital de Cirurgia está quebrada há mais de três meses (Foto: Arquivo CINFORM/Jayme Moraes)

Dr. Márcio Botelho: “Quanto maior o número de casos de câncer de colo de útero, de boca, de pênis e câncer de pele, mais aquela população é ignorante com os cuidados que ela precisa ter consigo mesma. E isso, geralmente, está ligado à educação e ao acesso aos serviços de saúde”

O câncer é uma doença onde, por inúmeros fatores, as células do nosso corpo começam a se multiplicar de uma forma anormal. E, assim, estas células tendem a ser muito agressivas e incontroláveis, determinando a formação de tumores, que são o acúmulo de células doentes. Segundo um levantamento feito pela própria Secretaria de Estado da Saúde (SES), são esperados para o ano de 2018, 5.030 novos casos da doença.

Apesar disso, as redes de saúde do Estado e dos municípios sergipanos parecem estar aquém desse número. Além de todo tratamento de quimio e radioterapia, e de as cirurgias estarem concentrados na capital, muitos pacientes do interior do Estado sofrem para realizar exames que auxiliam no diagnóstico do câncer pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Moradora da cidade de Nossa Senhora da Glória, a 126 quilômetros de Aracaju, dona Erisvalda dos Santos começou o tratamento contra o câncer de mama há pouco tempo. Ela encara quatro horas de viagem para ir e outras quatro horas para voltar do Hospital de Cirurgia, onde faz sessões de quimioterapia.

“Eu saio de casa às três horas da manhã para ir para Aracaju fazer as sessões de quimioterapia, porque lá no Hospital de Cirurgia o atendimento é feito somente pela manhã. Eu comecei o tratamento há pouco, pouco mais de 20 dias, mas todos os exames e consultas tive que fazer pelo particular, com a ajuda de amigos e familiares, porque não conseguia fazer pelo SUS”, comenta Erisvalda.

DESCASO COM O PACIENTES
Um dos locais de atendimento aos pacientes oncológicos do Estado é o Hospital de Cirurgia. Segundo a assessoria de comunicação do hospital, em média, 270 pacientes receberam atendimento oncológico em setembro, entre consultas ambulatoriais, tratamento de quimioterapia e hormonioterapia. No entanto, 50 pacientes que precisam de radioterapia precisaram ser encaminhados para o Hospital de Urgências de Sergipe (Huse), pois a máquina, fabricada na década de 1970, está quebrada há mais de três meses.

“Para não haver prejuízos aos pacientes, fizemos parceria com o HUSE para oferecer tratamento aos pacientes que atenderíamos no serviço do Hospital de Cirurgia. Por isso, foi criado o 3º turno de Radioterapia do HUSE e, para tanto, cedemos nossos colaboradores para executarem esse trabalho lá”, afirma a assessoria.

Setor de oncologia do Huse não oferece o isolamento necessário aos pacientes

O Grupo de Apoio à Criança com Câncer (GACC Sergipe) mostra preocupação com a situação que os seus assistidos passam. Segundo a assessoria de comunicação da ONG, faltam medicamentos e os exames de alta complexidade não são realizados em tempo hábil. Fred Gomes denuncia ainda que a estrutura física do setor de oncologia do Huse não oferece qualquer conforto aos pacientes e aos seus acompanhantes, além de não oferecer o isolamento adequado aos pacientes.

“A realidade hoje do tratamento de câncer infanto-juvenil no nosso Estado ainda é totalmente diferente daquela que nós gostaríamos que fosse. Onde todo o direito do portador da doença fosse respeitado. A estrutura física é precária. Você chega hoje no setor de Oncologia e os quartos não oferecem o mínimo de conforto para os pacientes e para os seus acompanhantes. Além disso, não existe restrição de acesso à Oncologia, fazendo com que o risco de bactérias e contaminação seja muito grande. Inclusive, no mês passado alguns pacientes contraíram uma bactéria e, infelizmente, uma jovem de 17 anos veio a óbito”, afirma.

FALTA DE PREVENÇÃO

Dr. Mário Botelho, cirurgião oncológico

Segundo o Instituto Nacional do Câncer (INCA), os cinco tipos de câncer com maior incidência entre os homens, em 2018, são o câncer de próstata, seguido do câncer de pulmão, cólon e reto, estômago e de cavidade oral. Enquanto que nas mulheres, são o de mama, colo de útero, cólon e reto, e pulmão. Excluindo o câncer de pele.

O cirurgião oncológico Márcio Botelho chama a atenção para as atitudes que podem prevenir a maioria deles. “Às vezes você tem condutas que fazem com que alterações sejam descobertas no início e tratadas antes que possam se tornar um câncer. Como, por exemplo, a ida ao dentista para evitar o câncer de boca, a realização de exames ginecológicos anuais para prevenir o câncer de colo de útero”, comenta.

Ainda segundo o médico, existem alguns tipos de câncer que são denominados como “cânceres sociais” e estão diretamente relacionados à cultura de uma população. “Quanto maior o número de casos de câncer de colo de útero, de boca, de pênis e câncer de pele, mais aquela população é ignorante com os cuidados que ela precisa ter consigo mesma. E isso, geralmente, está ligado à educação e ao acesso aos serviços de saúde”, explica.

DILEMA DO HOSPITAL DO CÂNCER

Obras do Hospital do Câncer se arrastam desde 2013

Quando o governo do Estado anunciou, em novembro de 2013, que a terraplanagem do terreno no bairro Capucho, onde o Hospital do Câncer será construído iria começar no final daquele ano havia R$ 47 milhões para iniciar a construção, sendo R$ 15 milhões do Proinveste e R$ 32 milhões de convênio com Ministério da Saúde, incluindo os valores das emendas parlamentares até 2012.

Pelo projeto inicial, o hospital teria 30 leitos para internação infantil e 120 leitos para internação de adultos, além de 10 leitos de UTI para os adultos e 10 para crianças. Mas, até hoje não se vê nenhuma parede levantada.

No dia 18 de julho deste ano, foi publicado no Diário Oficial do Estado a rescisão do contrato com as empresas Pórtico e WVG Construções, que formavam o consórcio Honcose. A decisão, tomada de forma unilateral, se deu “ante a lentidão do seu cumprimento e execução, levando a Administração Pública a comprovar a impossibilidade da conclusão da obra, nos prazos estipulados no contrato”.

Segundo a Secretaria de Saúde, eles estão em fase de contratação de uma nova empresa que irá elaborar o projeto do hospital. Pelo novo projeto elaborado pela SES, o novo prédio terá 17 mil metros quadrados (10 mil metros quadrados a menos que o projeto inicial) e contará com 50 leitos de quimioterapia. “Os demais leitos serão mantidos: 120 para internação adulta, 30 para internação infantil, 10 UTI adulta, 10 UTI infantil, 20 para quimioterapia infantil”, afirma a assessoria.

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