Li e recomendo: Van Gogh


Autor: David Haziot

Editora: L&PM

Por Edvar Freire

Se a dor, a inspiração e o sofrimento pudessem ser definidos em um nome, este seria, sem dúvidas, Vincent Van Gogh. A biografia desse gênio da pintura deve ser lida com o espírito prevenido para uma incursão ao mundo sombrio de uma alma atormentada por sentimentos antagônicos, convivendo em um mesmo ser. O amor, o ódio, o remorso, o sonho, a culpa, a incerteza, tudo dolorosamente incrustrado. Sua definição “A arte é o homem acrescentado à natureza” já fala de sua busca incessante pela perfeição, aí entendida como um dossel sagrado em que a paisagem, a tela e o espectador formam um todo, único e indivisível.

O menino Van Gogh, que entendia a “arte para os pobres” vivia assombrado com um pequeno túmulo ao lado da igreja, onde fora enterrado seu irmão e de quem herdara o nome. Depois, a sua internação em um colégio, a visão daquela carroça amarela se afastando, levando seu pai de volta para casa, um pastor protestante de uma pequena aldeia no Sul da Holanda, por quem o menino se sentiu abandonado, até ao reconhecimento de sua obra, que Van Gogh não chegou a ver, pois que morrera antes, com apenas 37 anos, vivendo entre os tormentos de uma mente que tudo sonhava e que nada conseguia realizar: amores frustrados, bebedeiras, doenças venéreas, que o levaram a terríveis surtos psicóticos, inúmeras tentativas de suicídio, e a constante busca pela perfeição nas artes, adotando uma técnica nova, revolucionária, de explosão de cores, incompreendida pelos especialistas e pelos colegas famosos.

Perambulou ¬ caminhando longas distâncias, passando fome, frio e desprezo ¬ pela Holanda, Bélgica, França, viveu em asilos para loucos. Contou muitas vezes com a ajuda financeira do irmão, Théo, quando se correspondia em penosas cartas, aliás, cartas essas que permitiram ao autor discorrer sobre a vida do artista.  

Admirador humilde de Gauguin, Van Gogh não percebia que já ombreava com ele e até o superaria, a partir do sucesso na famosa exposição Salão dos XX, que sucedeu a uma publicação de Albert Aurier, no noticioso Mercure de France, tecendo fortes comentários acerca da obra impactante de Van Gogh. No Salão dos XX, estavam Renoir, Puvis de Chavannes, Lucien Pissarro, Toulouse-Lautrec, a nata da pintura.

Um pintor simbolista famoso, Herry de Groux defenestrou a obra de Van Gogh, afirmando que não exporia suas obras ao lado “do execrável Vaso de girassóis do sr. Vincent ou de qualquer outro agente provocador”. A essa altura, Vincent Van Gogh já possuía muitos admiradores, e de Groux foi desafiado por Toulouse-Lautrec para um duelo. Outro artista, partidário de Van Gogh, Paul Signac, afirma que substituiria Lautrec em novo duelo, caso ele fosse morto.

Sua última crise durou dois meses, urrando, oscilando entre a loucura e momentos de lucidez. Na verdade, até hoje os especialistas ¬ psiquiatras, psicólogos ¬ não fecharam um diagnóstico para Vicente Van Gogh, o filho.

Finalmente, o campo de trigo com corvos, amarelo intenso e azul, dia ameaçado por sombras, 27 de julho de 1890, Vincent atira no próprio peito, passa dois dias de agonia, sob forte infecção, consola o choroso irmão Théo, afirmando “Fiz isso para o bem de todos”, enquanto fumava calmamente um cachimbo. Expira na madrugada de 29, nos braços do irmão, falando, já na inconsciência “Eu gostaria agora de entrar”. E entrou para a eternidade. Van Gogh, excelente leitura. Li & Recomendo.

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