ANTC explode caixa-preta do TCE/SE


Integrantes do colegiado do TCE/SE, sempre atentos a deslizes de gestores públicos (Foto: Divulgação/TCE-SE)

Com nota dirigida à imprensa, a Associação Nacional dos Auditores de Controle Externo dos Tribunais de Contas do Brasil expõe afronta às leis praticada pelo Tribunal de Contas do Estado de Sergipe

Na edição de número 1866, de 14 de janeiro, o jornal CINFORM veiculou matéria de denúncia onde expôs a situação de penúria por que passa o Tesouro do Estado, agravado por sequentes pedidos de adiantamentos de receita de royalties a receber da Petrobras.

Atual presidente do TCE não participou das irregularidades

Na reportagem, o alerta vem do risco de alteração desses repasses, que podem ser reduzidos, ou até mesmo interrompidos em função de mudanças na política de exploração da estatal, ocorrência que deixaria o Tesouro em situação de insolvência.

A abordagem do jornal sugeriu, ainda, uma espécie de parceria, não muito recomendável, entre o governo (que deve ser investigado) e o Tribunal de Contas (que deve investigar), através de passagem pela Assembleia Legislativa, uma conduta que o CINFORM pretende minuciar nas próximas edições.

Jackson Barreto, em cujo governo estabeleceu parceria com o TCE
(Foto: Arquivo/Vieira Neto)

O texto deu especial destaque ao contributo negativo do Tribunal de Contas do Estado, quando elevou despesas, de forma ilegal, contrariando normativo constitucional, fato que é exacerbado por se tratar de uma corte de contas, cuja função é justamente zelar pelo cumprimento dos dispositivos lavrados na Constituição Federal.

Cópia da Lei Complementar número 232, de 21 de novembro 2013

O jornal, que é divulgado na internet, tanto no site próprio quanto nas redes sociais (atingiu, entre 08 e 14 últimos, 582.716 impressões de hashtags), motivou que a reportagem chegasse ao conhecimento da ANTC, que, incontinenti, liberou Nota à Imprensa que o CINFORM, imbuído de sua função de informar, publica na íntegra.

Ao tempo, a equipe de reportagem do jornal prossegue analisando detalhes dos bastidores envolvendo essas e outras ações dos órgãos públicos sergipanos.

Assinatura e data da publicação no DOE

NOTA À IMPRENSA

Em atenção à matéria jornalística veiculada no Estado de Sergipe pelo jornal CINFORM, na edição 1866, publicada em 14/01/2019, intitulada “Governo atual agrava crise previdenciária em Sergipe”, a Associação Nacional dos Auditores de Controle Externo dos Tribunais de Contas do Brasil – ANTC vem suscitar questionamentos e tecer comentários que considera necessários ao esclarecimento da sociedade sergipana, notadamente quanto ao trecho que expressa a resposta do Tribunal de Contas do Estado de Sergipe – TCE/SE acerca dos fatos publicados, e que segue colacionada ao final desta nota.

A transformação de cargos públicos operada pela LC 232, de 21 de novembro de 2013, objeto da Ação Direta de Inconstitucionalidade n° 5128, ajuizada no Supremo Tribunal Federal – STF pela Procuradoria Geral da República e na qual a ANTC também foi admitida como “amicus curiae”, vai na linha do que o STF considera de inconstitucionalidade flagrante, enlouquecida, desvairada, o que, por si, já deveria ensejar a negativa de aplicabilidade por parte dos gestores do Tribunal de Contas do Estado de Sergipe, haja vista que, em sendo instituição de controle, precisa dar maior exemplo de probidade na própria gestão, dado o efeito multiplicador daquilo que adotar.

É preciso deixar bem claro para o povo sergipano que o atual cargo de Analista de Controle Externo I, criado em 2013 pela Lei Complementar n. 232, e com a exigência de aprovação prévia em concurso público de nível superior como requisito mínimo de investidura, passou a ser ilegitimamente ocupado por agentes que prestaram concurso público que exigiu o nível médio de escolaridade como requisito mínimo de investidura, os originais assistentes de controle externo, que, em 2011, passaram a ser denominados de Técnicos de Controle Externo (LC 203/2011).

Aliás, faz-se oportuno também levar ao conhecimento público que o TCE/SE, sem que tivesse havido qualquer determinação judicial, empossou candidatos aprovados em concurso público de nível médio nesse cargo que exige a aprovação em concurso público de nível superior, mesmo estando esses candidatos fora das vagas ofertadas no edital. Ou seja, já bem após a entrada em vigor do §1º do artigo 1º da LC 232/2013, que passou a exigir a aprovação prévia em concurso público de nível superior como requisito mínimo de investidura no cargo de Analista de Controle Externo I, o Tribunal de Contas do Estado de Sergipe convocou, nomeou e empossou 26 candidatos que foram aprovados em concurso público de nível médio, quando a lei já exigia a aprovação prévia em concurso público de nível superior para seu provimento.

Dessa forma, como nunca houve concurso público de nível superior para provimento dos referidos cargos de Analista de Controle Externo I, criados com o advento da LC 232/2013, esses cargos, a rigor, encontramse todos vagos, até que sejam legitimamente providos por candidatos que tenham sido aprovados em concurso público de nível superior. Essa é, portanto, a única interpretação que é possível extrair do dispositivo legal.

Não há que se falar, também, em similitude de atribuições, pois as atribuições originárias do cargo transformado eram de auxílio, apoio. Ou seja, não houve tão somente mudança de nomenclatura, mas mudança de requisitos de investidura e mudança substancial de atribuições, com equiparação de vencimentos ao cargo de Analista de Controle Externo II, cargo público que sempre teve como requisito mínimo de investidura o nível superior de escolaridade, eis que suas atribuições sempre foram de complexidade mais elevada.

A pergunta que deve ser feita aos sergipanos é: Seria possível esses técnicos/assistentes de controle externo que se submeteram a concurso público de nível médio serem alçados ao cargo de procurador de contas ou conselheiro substituto, por exemplo?

O fato de terem eles se submetido a concurso público não lhes permite a mudança para cargos com requisitos de investidura e grau de complexidade e responsabilidade de atribuições superiores. São concursos públicos diferentes, exigências editalícias indiscutivelmente diferenciadas, de modo que interpretações em sentido contrário a esse incorrem na transposição ilegal de cargos públicos, indiscutivelmente vedada pelo ordenamento jurídico pátrio, com entendimento já sumulado, há muito tempo, pelo Supremo Tribunal Federal (SV n. 43).

O TCE/SE alega, ainda, a “ausência de acréscimo de vencimento”, contudo, o parágrafo único do artigo 11 da LC 232/2013 textualiza claramente que os servidores enquadrados no cargo de Analista de Controle Externo I (aqueles que fizeram concurso para cargo de nível médio) farão jus ao adicional de nível superior se preencherem os requisitos de escolaridade previstos no § 2° do art. 1° da Lei Complementar. Se todas as carreiras de nível médio da Administração Pública sergipana resolverem pleitear um benefício semelhante, a Previdência sergipana suportará? A Lei promoveu ou não acréscimos e vinculações remuneratórias?

Acrescente-se que o art. 39, §1°, da CRFB/1988 determina que a fixação dos padrões de vencimento e demais componentes do sistema remuneratório observará a natureza, o grau de responsabilidade e complexidade, os requisitos para investidura e as peculiaridades do cargo (incisos I a III), o que não ocorreu com a famigerada Lei Complementar sergipana, que utilizou o cargo de nível superior, inclusive a remuneração, como paradigma para a transformação dos cargos originalmente ocupados por agentes para os quais foi exigido nível médio como requisito de investidura, concursados para o desempenho de atribuições de nível intermediário, de apoio/auxílio.

Por isso, a transformação de cargos públicos operada pela LC 232/2013 não se tratou “apenas de mudança de nomenclatura”, o que já seria grave por não designar de forma adequada e com transparência o cargo público, tendo havido, também, ato indiscutivelmente afrontoso aos artigos 37, II, da Constituição Federal, o que exige a punição dos responsáveis, conforme claramente preceitua o §2º do mesmo dispositivo constitucional.

Nesse sentido, como a iniciativa de projetos dessa natureza é do Tribunal de Contas, aguardaremos a declaração de inconstitucionalidade, para, a partir de então, buscarmos a responsabilização pessoal dos agentes que deram causa ao dano, bem como dos agentes públicos beneficiários que com eles mantenham vínculo direto, tudo observando o disposto no artigo 37, §6º da CF/1988 c/c o artigo 28 da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro, eis se está diante de um erro indiscutivelmente grosseiro, donde se extrai facilmente a consciência e a vontade dos responsáveis, pois, após a Constituição de 1988, o provimento de cargos públicos efetivos deve se dar por meio de concurso público específico.

Ressalte-se que a busca pela responsabilização pessoal dos envolvidos pode, e deve ocorrer independentemente do ajuizamento de ações populares.

Quanto à percepção dos valores recebidos pelos beneficiários da transformação, deixe-se claro que os precedentes dos Tribunais superiores exigem a boa-fé. Todos os beneficiários estão realmente albergados pela boa-fé?

Não é demais lembrar que a Lei de Responsabilidade Fiscal estabelece que os Estados têm como limite para despesas com pessoal 60% da Receita Corrente Líquida (RCL).

No entanto, segundo estudo publicado em novembro/2018 pela Secretaria do Tesouro Nacional – STN, intitulado o Boletim de Finanças dos Entes Subnacionais 20181, o estado de Sergipe já se encontrava com esse limite ultrapassado em 2017, vez que a despesa com pessoal do estado já correspondia 63,74% da RCL, segundo a apuração da STN.

Por fim, reitere-se que a transposição inconstitucional de cargos públicos, além de agravar a crise previdenciária e o equilíbrio das contas públicas, prejudica a continuidade e a sustentabilidade das políticas públicas, podendo, ainda, vir a ofender direitos fundamentais daqueles que manejam recursos públicos, na medida em que os servidores públicos beneficiários das transformações não se submeterem a concurso público específico, não tendo eles, também, comprovado a qualificação necessária e adequada ao desempenho das atribuições dos cargos aos quais foram ilegitimamente alçados.

De Brasília para Sergipe, 15 de janeiro de 2019.

FRANCISCO JOSÉ GOMINHO ROSA

Presidente da Associação Nacional dos Auditores de Controle Externo dos Tribunais de Contas do Brasil

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