A farsa oficial para entregar a Fafen


(Fotos: Vieira Neto)

“A diferença entre o governo do PT e o do PSDB e o de Bolsonaro, é que estes dois últimos, eles dizem que vão vender. Eles não mentem (vão mesmo entregar nosso petróleo)”

PAULA COUTINHO

A fechamento das portas da Fafen (Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados) e/ou hibernação da unidade, termo técnico utilizado para designar o desligamento do maquinário, começa na próxima semana, quarta-feira, dia 31. Nos últimos 20 anos, o imaginário popular da cidade de Laranjeiras, e certamente de todo o Estado, vive assombrado com a possibilidade de haver o encerramento das atividades da Petrobras no local. Isto porque, conforme alertam os petroleiros, o anúncio de fechamento vem em conjunto com o anúncio real de privatização dos polos da estatal. E, no caso da Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados de Sergipe, essa tentativa de entrega da unidade ao capital privado já ocorrera por duas vezes.

A primeira delas, ainda na década de 80, a segunda, nos anos 90, com Fernando Henrique Cardoso. Agora, Sergipe está em contagem regressiva para a entrega real da Fafen ao empresariado. Há quem pense ser essa a solução viável para o prejuízo que, de acordo com a própria Petrobras, a Fafen tenha se tornado. Porém, segundo os petroleiros, essa é apenas a mais inocente das desculpas para entregar a verdadeira mina de ouro sergipanos para alguns poucos donos.

Por outro lado, petroleiros que ali trabalham, como o sindicalista Edivaldo Leandro, de 56 anos, 40 deles passados na Petrobras, revelam que o perigo de deixar uma fábrica em que existe um reator – uma verdadeira bomba – em estado de hibernação (desativação) é tamanho, que ninguém, nem governos, nem a própria Petrobras, encarariam e tomariam para si essa responsabilidade. Leandro, porém, explicita que o mecanismo envolve um arranjo político para que ‘apareça’ um salvador de pátria e impeça a iminente hibernação.

Edivaldo Leandro, petroleiro e diretor do Sindipetro

PERIGO DE RADIAÇÃO

“O reator não pode ser desligado. Ele funciona como uma pilha que foi ligada. Se o reator derreter a camada de chumbo onde está o seu núcleo, não há nada que consiga detê-lo. Ali tem uma bomba, essa bomba precisa ser controlada. A irresponsabilidade da hibernação é tão grande que (eles) não vão deixar aquilo lá parado”, explica Leandro.

E acrescenta: “A irresponsabilidade da hibernação é tão grande que eles (governos federal e estadual, Petrobras) não vão deixar aquilo lá parado. E o ‘salvador da pátria’ já está preparado para entrar em cena. Hoje em dia eu não sei quem é o salvador da pátria. Pode ser qualquer grande empresário, Albano Franco, por exemplo, que esteve por três vezes conversando com o ex-presidente Michel Temer, para conseguir um adiamento da data de hibernação da Fafen. Ou seja, o salvador da pátria é o setor privado. Eu acredito que Albano Franco”.

Para Leandro, o plano é simples: sucateamento da unidade da Fafen até a sociedade acreditar que a fábrica provoca imenso prejuízo ao país. E o sindicalista aponta os próximos passos deste plano. “Acredito que na próxima sexta-feira Bolsonaro vai fazer um pronunciamento dizendo que a Petrobras é onerosa, para poder entregar o nosso petróleo ao capital estrangeiro. A Petrobras pesquisou anos a fio para encontrarmos o pré-sal. E o governo vai entregá-lo de graça. Quanto à Fafen, toda a dificuldade que os governos estão colocando para a Fafen, as ‘economias’ de que falam, saiba, eles farão o contrário para o setor privado. Os governos vão financiar o gás, vão subsidiar água, água será de graça para eles. O setor privado terá água tratada de graça, que é o principal insumo para manter o funcionamento da Fafen, além de receberem incentivos fiscais”.

SALVADOR DA PÁTRIA

“Mas antes, o salvador que vai chegar, vai dar uma entrevista em cadeia nacional, ele vai reunir a imprensa, vai anunciar o plano dele para salvar a Fafen, vai ser audiência no Brasil inteiro, não somente em Sergipe não. E ele vai falar: ‘Olha, eu já vinha tentando, já vinha falando, e em conversas com o governo Bolsonaro e com o governo Belivaldo Chagas, está aqui o plano para salvar a Fafen. E os empregos e a arrecadação do Estado não ficarão comprometidos. E o povo vai bater palmas. O cara vai ganhar dinheiro, porque dali da Fafen vem é muito dinheiro mesmo. Os governos vão dar subsídio de gás, subsídio de água, e de impostos. Não é à toa que Albano ficou articulando isso. Jackson Barreto anunciou que a fábrica ia hibernar, foi ele que disse que a Fafen iria parar, pensei que ele era o tal ‘salvador da pátria’. Mas o negócio era pior do que o que a gente pensava. Por que o esquema vai ser esse, a gente vai colocar a Fafen no setor privado. E os caras vão ganhar dinheiro em cima do que é do povo”.

“Se a Fafen fechar, a cidade de Laranjeiras acaba. Tanto é que o prefeito e o ex-prefeito estão mobilizando as pessoas da cidade. Eles são contra a privatização da Fafen. Essa é a intenção nossa, é a intenção dos trabalhadores, essa é a intenção dos políticos de Laranjeiras. Se a Petrobras acabar em Sergipe, o estado volta à monocultura da cana, de um comércio falido”.

ENTREGUISMO INICIADO POR DILMA

Essa trama, segundo o sindicalista, foi muito bem orquestrada, ano após ano, ainda nos governos do PT, na época em que Aldemir Bendine, atualmente preso, esteve à frente da presidência da Petrobras, indicado pela ex-presidente Dilma Rousseff. Foi Bendine quem anunciou o desinvestimento e a saída da Petrobras do setor de fertilizantes. “O cara é um bandido, tanto é que está preso. Ele dizia que colocaria a Petrobras no topo, vendendo o que não prestava, no caso, a Fafen”, argumenta Leandro.

E revela: “Qual a intenção deles (os governos)? Dizer à sociedade que a Fafen é inviável e por isso a Petrobras não tem interesse nela. Porque ela dá prejuízo à Petrobras, e, portanto, a Petrobras precisa se livrar dela. Mas, na verdade, a Fafen é um projeto bilionário, dá um lucro da gota serena à Petrobras. Agora, eles (governos) estão criando condições para dizer à sociedade que não dá certo”. E cita outros exemplos: “Por que a Petrobras está abrindo mão pré-sal? O pré-sal é ouro, toneladas e toneladas, bilhões de dólares. E estão abrindo mão, entregando para as multinacionais”.

ÁGUA CARA DA DESO

No quesito econômico, as três principais dificuldades que a Fafen apresenta são: a dolarização do preço da ureia, o preço da água e do gás natural. Esse mecanismo de dolarização é feito pelo governo federal por intermédio do Ministério das Minas e Energia. Não é a Petrobras, tampouco a Fafen, que determinam o valor da ureia. Com os preços altos, advindos da dolarização da Petrobras, os consumidores estão buscando lá fora a ureia mais barata do que a existente aqui no Brasil. Porque isto fez com que os compradores brasileiros, consumidores de ureia, parassem de comprar da fábrica brasileira e começassem a comprar este produto diretamente do exterior.

“Como é que eu vou comprar ureia se o preço está grande e o exterior está oferecendo na minha porta, mais barato? Tem ureia vinda de navio, de fora, com preço bem mais barato”, ressalta o sindicalista, acrescentando que a fábrica sergipana parou a produção do insumo neste final de ano, agora em dezembro. “Sabe por que a Fafen daqui está parada? Porque não tem onde estocar ureia, está tudo abarrotado de ureia”.

A segunda questão econômica apontada pelo sindicalista é o gasto da Fafen com a compra de água – principal ingrediente para gerir toda a produção dos insumos. Isto ocorre porque a Deso vende água bruta e sem tratamento à Fafen pelo preço de água tratada, caríssima.  “A Fafen gasta água demais em refrigeração e no processo industrial. A Fafen, que construiu a adutora do São Francisco, hoje recebe água bruta e é obrigada a tratar esta água. A Deso vende a água bruta à Fafen através da adutora ao preço de água potável. A água potável é 10 vezes mais cara do que a água bruta. Então isso encarece a manutenção da fábrica. Porque a água é um insumo muito caro no processo industrial”.

SERGÁS NÃO FACILITA

A terceira dificuldade econômica que emperra a produção da Fafen é o gasto que a fábrica tem para comprar gás natural. Isto porque a Petrobras é impedida – por meio de uma lei estadual – de entregar o gás à Fafen, que é uma unidade dela, da própria Petrobras. A Petrobras é obrigada, pelo governo do Estado, a entregar o gás à Sergás. E a Sergás revende o gás da Petrobras à Fafen.

“Por que a Petrobras não pode entregar o gás à Fafen? Mesmo que fosse por um período transitório, somente para a Fafen se reequilibrar?”, questiona o petroleiro. E analisa: “A Sergás usa a tubulação da Petrobras, que vai para a Fafen, e cobra altíssimo por este gás. A Sergás, que é uma empresa do Estado, para a sobrevivência da Fafen, poderia entender que, como já existe a canalização da Petrobras, o gás poderia ser negociado com o preço que sai da própria Petrobras”.

Sabem quais são as matérias primas necessária para produzir ureia? Gás natural e ar. O nitrogênio da ureia é retirado do ar e do gás. É uma matéria prima baratíssima, o projeto já está instalado, o pessoal qualificado e a mão de obra barata. É só abrir um cofre para entrar dinheiro”.

DEMISSÕES EM MASSA

Do ponto de vista técnico, as dificuldades são: a Petrobras reduziu drasticamente o efetivo. Isso implica em problemas de produção, falta de manutenção, falta de gente para operar maquinário. Durante os últimos anos, o efetivo de petroleiros concursados da Petrobras diminuiu e a Petrobras lançou vários incentivos para aqueles que quisessem sair da empresa, se aposentar. Porém, não abriu concursos.

Nas áreas de manutenção e limpeza, serviços também realizados por petroleiros, só que terceirizados, também há drástica redução de efetivos. Por isso, atualmente, a estatal enfrenta tantos problemas com a manutenção em suas unidades e a existência de tantos processos nas varas judiciais. Estes são alguns dos problemas técnicos impostos à Fafen pelo governo federal.

MONOPÓLIO RUSSO DOMINARÁ 

Existe, porém, uma possibilidade ainda pior acerca da privatização da Fafen, que é a de os russos dominarem o mercado mundial de fertilizantes. O sindicalista ratifica que “os russos, junto com alguns europeus, eles estão tentando fazer um monopólio de fertilizantes em todo o mundo. Eles compraram a fábrica parada da Petrobras no Mato Grosso do Sul. Eles podem pagar à Petrobras só para fechar aqui (nossa unidade da Fafen em Sergipe). Porque o que eles não querem é concorrência. E aí eles vão criar um monopólio privado aqui dentro do Brasil e vão ditar o preço dos fertilizantes. E, consequentemente, eles vão ditar o preço do gado e do que estiver na cadeia alimentar. Por que o gado consome o milho, o gado consome a soja”.

Conforme explicita o sindicalista, “a venda da Fafen de Mato Grosso do Sul foi fácil porque não tinha a cadeia produtiva. A fábrica estava pronta, mas não tinha começado a operar. Lula estava fazendo uma ampliação do setor de fertilizantes no país, essa foi a parte boa do governo de Lula. Em Mato Grosso do Sul, que é a região celeiro do pais, ter eles (área do agronegócio) próprios comprado a fábrica. Tem coisa melhor do que você ser dono da fábrica de fertilizantes que você vai usar no seu mercado? Os grandes produtores agrícolas brasileiros iriam deixar a Rússia ficar com as nossas fábricas de fertilizantes? Às vezes eu também penso que essa história de empresa russa que está comprando essa fábrica de fertilizantes aqui no Brasil, lá em Mato Grosso do Sul, pode ser uma história inventada, uma empresa de fachada e quem estaria por trás disso seriam os próprios produtores brasileiros”.

INSEGURANÇA ALIMENTAR

O Brasil só se tornou este grande produtor agrícola, chegando até a ser o maior produtor de grãos – e hoje está disputando com EUA e Rússia – graças aos fertilizantes nitrogenados que o país importa, cerca de 70%. Um destes insumos, o sulfato de amônia, só não é produzido aqui em Sergipe, segundo o sindicalista, “porque a Petrobras não quer”.

E dá exemplos: “Essa planta da Fafen de Sergipe está preparada para a produção de sulfato de amônia, um grande insumo. E, no entanto, a planta de sulfato de amônia está parada desde que ficou pronta. Não está funcionando. Isto foi ainda na época do governo de Lula, inclusive nós aplaudimos. Ele fez a duplicação e começou a construção dentro da Fafen, da planta de sulfato de amônia. E a gente bateu palma. Só que o governo do PT não levou adiante. É como se construirmos a cozinha, mas não sair nenhuma gota de café dessa cozinha. Ou seja, é um crime atrás do outro, é o que fizeram aqui com a Fafen”.

Para Leandro, infelizmente, “o governo do PT maltratou também a Petrobras”. E reitera: “Lula dizia que estava defendendo a Petrobras, mas não estava. Porque se Lula estivesse defendendo a Petrobras ele não leiloaria nenhuma gota de petróleo como ele fez. Lula e Dilma entregaram mais do que o dobro de petróleo aos estrangeiros do que fez Fernando Henrique Cardoso, que é um neoliberal. Eles entregaram através de leilões”. “A diferença entre o governo do PT e o do PSDB e o de Bolsonaro, é que estes dois últimos, eles dizem que vão vender. Eles não mentem (vão mesmo entregar nosso petróleo) ”.

BAHIA SEM REPRESENTATIVIDADE

Neste mesmo dia, 31 de janeiro de 2019, data marcada para a hibernação da Fafen em Sergipe, a Bahia também prepara igual procedimento na Fafen de lá. De acordo com o petroleiro Allan Carlos Arariba da Gama, lotado há 13 anos na unidade da Bahia, não há mobilização de trabalhadores da Petrobras da Bahia para lutar pela estatal. O sindicalista vê o Sindipetro baiano como um sindicato “entreguista”. Arariba aponta que um dos principais problemas enfrentados pelo Brasil, atualmente, a partir da produção de ureia, é a questão da segurança alimentar e da soberania nacional. Isto porque o país está importando o insumo.

“O projeto político que o Brasil faz hoje é abrir mão da soberania e da segurança alimentar; a gente está ficando dependente. Além de a ureia não estar sendo produzida aqui, a gente está nas mãos do capital externo, a gente está com uma grande reserva de gás guardada, porque não tem como escoar. O preço da matéria prima para a ureia é baixo”. E acrescenta: “A gente produz três tipos de ureia: ureia fertilizante, ureia pecuária e ureia industrial. O grande problema para o Brasil hoje é a questão de a ureia pecuária não pode levar aditivo nenhum, porque o boi não pode comer isso, é veneno”.

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