Alessandro Vieira, o senador que quer abrir a caixa-preta do judiciário


"Ninguém deve estar acima da lei em uma democracia" (Foto: Pedro França/Agência Senado)

“[Vou] denunciar escândalos de corrupção já ocorridos em Sergipe [e vou] cobrar das autoridades que investiguem ou desengavetem estes escândalos”

O senador Alessandro Vieira, 43 anos, do PPS, que antes de aparecer glorioso no cenário político e ser eleito para o Senado Federal com exatos 474.449 votos, totalizando 25,95% dos votos válidos nas eleições de 2018, ocupava a função de delegado da Polícia Civil em Sergipe, continua entre os assuntos mais comentados desse início de 2019 por causa da maneira, diga-se, tão singular de se posicionar politicamente.

Fenômeno de votos no estado que escolheu viver e trabalhar (Alessandro é natural de Passo Fundo-RS), o delegado-senador pode ser, como dizem muitos quadros políticos da esquerda em Sergipe, somente mais um ‘episódio’ da onda direitista que, inteligentemente e após 13 anos de governos do PT, soube perceber a descrença popular com a esquerda recheada de escândalos de corrupção, conseguiu impactar o país neste início de ano, e fez com que partidos da ultradireita, como o DEM, angariassem para si um número estratosférico de fãs e eleitores.

Ou, contrário disso, Alessandro Vieira pode ser sim e se transformar, cada dia mais, em um político atuante, destemido e corajoso no engajamento e na luta contra a corrupção, slogan defendido por ele durante toda a campanha. Mas uma coisa é certa, o senador tornou-se um incômodo para velhas raposas da política, seja apontando soluções simples para a economia do dinheiro público, como o de escolher trabalhar em gabinete compartilhado economizando quase R$ 5 milhões em funcionalismo, seja ‘comprando’ briga direta com figuras como Renan Calheiros ou sugerindo imediata instauração de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar juízes. E acerca de todas essas pautas polêmicas, o senador Alessandro Vieira falou ao CINFORM.

“Quem defende mudanças reais não pode escolher adversário ou ter medo”
(Foto: Agência Senado)

CINFORM: O senhor está ou não está com Bolsonaro?

Senador Alessandro Vieira: A minha posição no Senado é de independência. Faço parte de um bloco, com 14 senadores, cujo compromisso é avaliar pautas concretas enviadas pelo executivo, dialogar com a sociedade e apoiar aquilo que se mostre positivo para o Brasil.

O senhor usou a plataforma de tecnologia usada pelo Bolsonaro?

Não conheço uma “plataforma” usada pelo Bolsonaro e fiz a campanha, no primeiro turno, apoiando Marina Silva.

A CPI está causando impacto, pois está em voga posicionar-se contra a justiça. Mas não é um projeto que já ‘nasce’ morto por ser inconstitucional?

Não existe nenhuma inconstitucionalidade. O que é vedado é questionar ou invadir as atribuições do Poder Judiciário. O requerimento trata de desvios ou excessos, não das atribuições em si. Ou alguém acha que reter processos por mais de uma década, impedindo a prestação jurisdicional, é exercício regular de atribuição?

Qual autoridade teria uma Comissão Parlamentar de Inquérito para convocar um juiz, um magistrado?

A autoridade prevista na própria legislação. Ninguém deve estar acima da lei em uma democracia.

O senhor se posicionou, durante toda a sua campanha, como o candidato da mudança. Mas estar ao lado de Davi Alcolumbre não é o mesmo que estar ao lado da mesmice?

É preciso avaliar as alternativas disponíveis com potencial para derrotar Renan Calheiros e seu grupo. Não só eu, como outros 41 senadores entendemos que somente o Davi reunia essas condições. Foi por isso que Simone Tebet, Tasso Jereissati, Álvaro Dias e Major Olímpio abriram mão das respectivas candidaturas. Comparar Davi e Renan beira o ridículo. Ele será cobrado e fiscalizado com relação aos compromissos de transparência e modernização que assumiu.

O senhor está comprando briga com Renan Calheiros. A conta dessa ‘briga’ não vai sair cara demais?

Quem defende mudanças reais não pode escolher adversário ou ter medo.

O senhor é um delegado experiente. Mas no cenário político, apesar da expressiva votação, o senhor está iniciando, se engatinhando ainda. Não estaria muito cedo para começar embates tão polêmicos com raposas velhas da política brasileira?

A leitura que fiz do momento político e das oportunidades, até agora, se mostrou correta. Vencemos um grupo político que estava enraizado no Senado há mais de 30 anos, comandado por Sarney, Renan, Jucá, Jáder e outras figuras notórias. E conseguimos apresentar o Requerimento de CPI das Cortes Superiores. Para uma semana de trabalho, parece positivo.

Hoje quem governa o Brasil é o poder judiciário. O senhor concorda com essa afirmação?

Não, mas é preciso resgatar a credibilidade do Legislativo e do Executivo, além de garantir transparência e efetividade ao Judiciário. Só assim teremos uma democracia equilibrada.

O último escândalo envolvendo a família Bolsonaro e mais diretamente Flávio Bolsonaro, filho do presidente, que escancarou conversas particulares e expôs contas bancárias privadas. Acha que a corrupção existiu ou foi farsa midiática? Se a corrupção existiu não está na hora de os parlamentares se posicionarem?

É preciso aguardar o andamento das investigações. Caso sejam confirmadas as notícias ventiladas, a punição deve ser dura.

O país assistiu – perplexo – a patifaria que foi esta última votação para a presidência do senado. O que dizer sobre isso?

Estou acompanhando de perto e também solicitei as imagens integrais. Foi um absurdo, mas também é preciso reconhecer que os novatos tiveram uma atuação firme para garantir eleições corretas e transparentes.

O senhor propôs uma gestão de gabinete compartilhado a fim de economizar. Está dando certo?

Estamos finalizando a montagem da equipe, a expectativa é muito positiva. A economia projetada só com a redução da equipe do Senado é de cerca de R$ 5 milhões ao longo do mandato, sem redução de qualidade na atividade.

Acerca da corrupção em Sergipe, já que esta é uma das suas mais importantes bandeiras, como atuar?

Fortalecendo a atuação dos órgãos de controle, como Polícia, MP e Receita, atuando diretamente na fiscalização como parlamentar e dando visibilidade à pauta anticorrupção. Montamos um Frente Parlamentar Mista pela ética e combate à corrupção, da qual sou vice-presidente.

Como reacender departamentos com o Deotap (daqui de Sergipe), ultimamente tão apagadinho, tão caladinho…

Cobrando as autoridades responsáveis, especialmente o Governador. Confio na capacidade da atual equipe do Deotap, mas é preciso garantir reforço técnico e respaldo político. A transparência das ações gera parceria com a sociedade.

O senhor pretende denunciar escândalos de corrupção já ocorridos em Sergipe? Ou cobrar das autoridades que investiguem ou desengavetem estes escândalos?

Vamos fazer as duas coisas.

O senhor pede uma CPI do Judiciário e o Judiciário tem juízes inativos ganhando cerca de 185 mil ao passo que a maioria dos brasileiros recebe um salário mínimo de aposentadoria. Por onde a previdência deveria começar, então? Quem ‘quebra’ a previdência, afinal?

A reforma da previdência deve começar pela transparência e diálogo com a sociedade. Ela é necessária, mas precisamos definir o tamanho e iniciar os cortes pelos mais privilegiados.

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