Entrevista: Carlos Martins, chefe do Departamento de Engenharia da UFS


Barragem do Rio Poxim estava no levantamento da ANA como uma das que apresentavam algum risco (Foto: Julia Freitas)

“O caso de Brumadinho foi mais uma consequência do sistema de Privatização do Lucro e Socialização dos Prejuízos”

Após o rompimento da barragem da mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), no último dia 25, os órgãos de fiscalização de todo o país acederam o alerta sobre a situação das demais barragens dos país, independentemente do material que reservam.

Há algumas semanas o CINFORM mostrou a situação da Barragem Sindicalista Jaime Umbelino de Souza, localizada no município de Nossa Senhora do Socorro, citada em um levantamento da Agência Nacional de Águas (ANA) como uma das 45 barragens “indicadas pelos fiscalizadores com algum comprometimento estrutural importante”.

Na última semana, a Agência determinou a vistoria de outra barragem no estado num prazo máximo de 90 dias, a Barragem São José, no município de Poço Verde, no sertão sergipano. Para o engenheiro e chefe do Departamento de Engenharia de Materiais da Universidade Federal de Sergipe (UFS) Carlos Martins, “um projeto negligenciado hoje, ou uma vistoria malfeita, resultará em um desabamento, em uma queda de ponte ou estrutura amanhã”, por isso que uma fiscalização deve ser feita com recursos e conhecimentos adequados.

CINFORM – Qual a importância das fiscalizações nas barragens, independentemente do material que represam?

Carlos Martins – Nosso atual panorama de catástrofes tem apontado para a importância das etapas de fiscalização e manutenção de riscos e integridade. O tema do momento é a Barragem de Brumadinho, mas, o Brasil ainda não superou os desastres de Mariana, o Incêndio do Edifício Wilton Paes de Almeida em São Paulo, a queda da Ciclovia Tim Maia no Rio de Janeiro, ou, em Sergipe, o desabamento da Adutora de Pedra Branca ou a queda da caixa d’agua da Deso em Nossa Senhora do Socorro.

Neste sentido, é importante destacar que, como diz o colega Prof. Lucena do Núcleo de Engenharia de Produção da UFS: Não existe atividade com Risco Zero! O que precisamos é manter esses riscos em valores toleráveis, através do uso racional de produtos, processos, materiais e tecnologias. Neste panorama, destaca-se a necessidade de aplicação de tecnologias de inspeção, monitoramento e manutenção efetiva de equipamentos e estruturas, a fim de garantir a confiabilidade operacional e a segurança dos funcionários e populares que residem nas proximidades.

Mas é claro, não basta fiscalizar. É preciso fiscalizar com os recursos e conhecimentos adequados. E tomar as medidas necessárias para garantir a segurança da estrutura, e nisso, a história recente nos mostra que estamos sendo relapsos.

Carlos Martins, engenheiro de materiais

CINFORM – O senhor acredita que a preocupação com as barragens continuará após o fim do luto por Brumadinho ou as coisas voltarão ao “normal”, com as autoridades fechando os olhos para essa problemática?

CM – O caso de Brumadinho foi mais uma consequência do sistema de Privatização do Lucro e Socialização dos Prejuízos. Assim como nos demais desastres citados, é preciso uma ação mais efetiva das autoridades e uma participação mais efetiva de profissionais, pesquisadores, entidades de classe em prol dos interesses públicos e sociais.

No último ano, tivemos importantes avanços neste sentido, com o estabelecimento de parcerias entre o Conselho Regional de Engenharia de Sergipe e a Defesa Civil de Aracaju. Paralelamente, em cooperação com Coordenadoria Geral de Perícias de Sergipe, nós do Laboratório de Análise de Integridade Estrutural da UFS, temos atuados no intuito de introduzir novos conhecimentos e tecnologias que auxiliem a atividade pericial e promovam o aumento da segurança de equipamentos e estruturas em Sergipe, através da elucidação de laudos e responsabilização de atores.

Cooperamos também com o Grupo de Investigação em Acidentes de Trânsito da Policia Rodoviária Federal em Sergipe! Desenvolvendo, Ensinando e, principalmente, aprendendo como promover uma cultura de trânsito seguro.

Muitos grupos, agentes, políticos, autoridades têm priorizado interesses pessoais, mas, em um ambiente globalizado, o melhor virá quando todos buscarem o melhor para si e para a sociedade em geral. Precisamos pensar socialmente e cooperativamente.

CINFORM – A Agência Nacional de Águas (ANA) divulgou, em 2017, que a Barragem do Rio Poxim estava na lista das que possuíam mais risco, principalmente porque em seu entorno havia fazendas e residências. No início do mês ela divulgou que iria fazer uma vistoria pessoalmente em 52 barragens até maio, entre elas a de Poço Verde. Por que essa preocupação só acontece agora?

CM – Novamente, respondo com duas perguntas: Qual tipo de vistoria será adotado? Qual a qualificação dos peritos que farão a vistoria? Precisamos, como sociedade, repensar sobre a maneira como investimos os nossos impostos e sobre o tipo de situações estamos favorecendo. Nada acontece por acaso! Um projeto negligenciado hoje, ou uma vistoria malfeita, resultará em um desabamento, em uma queda de ponte ou estrutura amanhã. Precisamos agir para minimizar os erros e, consequentemente, evitar desastres e prejuízos futuros.

CINFORM – Além da fiscalização, qual a importância da manutenção adequada nessas barragens?

CM – A manutenção é a base da segurança em todas às áreas. Desde o início do Curso de Engenharia de Materiais, nossos alunos aprendem que um componente de engenharia é projetado para operar, de forma confiável, sob certas condições e por um determinado tempo, exercendo uma função especifica. Porém, devido à ação do meio, ocorrência de sobrecargas, degradação de materiais e causas fortuitas, o mesmo pode ter seu desempenho reduzido ou totalmente comprometido. Como a história nos mostra, a falha catastrófica de componentes e estruturas vem sempre associada a riscos e prejuízos de natureza humana, material e financeira, os quais justificam o interesse no desenvolvimento de sistemas mais eficientes de fabricação, manutenção, inspeção e controle de qualidade. O que precisamos é difundir esta cultura tanto para a população, quanto para os órgãos de fiscalização e controle, buscando sempre a garantia da segurança geral da população e o uso racional de insumos.

CINFORM – Por que não há uma política pública forte de fiscalização das barragens no Brasil?

CM – Como profissional e educador, digo que faltam Engenheiros (em especial, Engenheiros de Materiais) nas posições adequadas. Como membro da sociedade, digo que faltam ações efetivas de nossos governantes para garantir a segurança operacional de componentes e sistemas críticos. E, finalizando, como pesquisador digo que faltam investimentos e incentivos governamentais para atrair mais profissionais para às áreas voltadas para a segurança pública.

Precisamos reforçar a cultura de fiscalizar, mas também precisamos reforçar a cultura de fabricar, utilizar e manter com responsabilidade. Está tudo conectado! Precisamos investir em capacitação de mão de obra, no uso correto dos materiais e tecnologias, na criação de sistemas e rotas de segurança, na adoção de políticas que priorizem o respeito à vida, na perpetuação da Sociedade. Ao ignorar a segurança nas barragens, seus entornos e demais sistemas que põem em risco o meio ambiente, ignoramos nossa responsabilidade como espécie dominante no planeta.

Previous Você sabe o que é Marketing Pessoal?
Next Nascidos em março e abril começam a receber abono salarial do PIS 2017