Rogério Carvalho, o “senador de Lula”


“Sérgio Moro, que já esconde que recebeu em casa representantes da Taurus, fábrica de armas, na véspera da publicação do decreto que permite qualquer um poder ter até quatro armas

Médico por formação, doutor em saúde pública pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), filho de Lagarto, um município sergipano, com vocação política desde a juventude e hoje senador por Sergipe pelo Partido dos Trabalhadores (PT) – este é Rogério Carvalho, 50 anos. Com 300.247 votos, que perfazem um total de 16,42% de votos válidos, o parlamentar se intitula o senador de Lula.

Em Sergipe, Rogério Carvalho já ocupou cargos públicos de extrema relevância, tais como, o de secretário de Saúde no Estado e também na capital, Aracaju. Antes de ingressar ao Senado, Rogério Carvalho foi deputado estadual (eleições de 2006) e deputado federal (pleito de 2010). Radicado em Brasília agora neste início de ano, Rogério Carvalho fala ao CINFORM.

E expõem o que pensa das diversas vertentes políticas, não somente as dele próprio, mas como também as dos adversários de todo o cenário nacional, como os recentes escândalos envolvendo a família Bolsonaro em corrupção, a prisão de Lula, o pacote anticrime do super-ministro Sérgio Moro, e uma possível candidatura dele, Rogério Carvalho, ao governo de Sergipe.

Cinform: O senhor se diz o senador de Lula. Mas Lula está preso e é um condenado. É válido se posicionar ao lado dele?

Senador Rogério Carvalho: Lula representa o Brasil que deu certo. Foi o presidente que diminuiu as distâncias econômicas entre ricos e pobres, que criou universidades, escolas técnicas, que levou energia elétrica para milhões de brasileiros, que deu vida ao nosso sistema de seguridade tirando milhares de brasileiros da fome e da miséria, que deu um aumento real de 77% no valor do salário mínimo. Tirar o Lula da vida pública foi uma estratégia, por ele ser o maior líder político vivo do Brasil, com o mais consistente legado de melhoria de vida das pessoas. Então, estar ao lado de Lula, é estar ao lado das causas civilizatórias. E a prisão de Lula representa a barbárie, o desrespeito à constituição, à democracia e à vida.

Cinform: Lula é um preso político como a esquerda conceitua ou isso é jogada de marketing?

RC: Sérgio Moro hoje é ministro da Justiça, está ao lado do presidente eleito que se beneficiou da prisão de Lula. Não é estranho que essa pessoa que o condenou, vire assessor do beneficiário da condenação? Sem contar que as duas condenações que o Lula recebeu são baseadas em presunções e não em provas. Portanto, chamem do que quiser, mas os fatos indiscutivelmente provam uma prisão política.

Cinform: O senhor foi cotado para presidir várias comissões. Politicamente o que isso significa? São quantas comissões ao todo?

RC: Eu fui consultado sobre assumir a presidência da comissão de direitos humanos do senado, mas acabamos entendendo que nos primeiros dois anos, essa tarefa deve ser exercida pelo senador Paulo Paim, e na sequência, eu assumirei. Neste ano, serei titular das comissões de constituição e justiça, de assuntos econômicos, de assuntos sociais, e senado do futuro. Sou vice-líder do PT no senado em 2019, e líder em 2020.

Portanto, para um “marinheiro de primeira viagem” é um bom começo. Politicamente significa que, ao longo dos primeiros quatro anos do mandato, vamos conseguir ampliar a capacidade de intervenção e de voz e, consequentemente, de relevância e importância no senado neste tempo. O que torna o nosso papel como senador mais eficaz e dá tranquilidade para atender às expectativas daqueles que nos elegeram.

Cinform: O senhor pensa em se candidatar ao governo de Sergipe ou é cedo para falar disso?

RC: É cedo para falar disso. Agora é hora de concentrar o foco para ter um bom desempenho no exercício do mandato de senador.

Cinform: Quais são suas metas para o senado, para estes próximos anos, o que pretende fazer pelo Brasil e por Sergipe?

RC: Esta semana, numa ação conjunta dos senadores da bancada do PT, iniciamos o mandato cumprindo promessas de campanha. Apresentamos projetos de lei que trazem de volta a valorização permanente do salário mínimo com aumento real. Propusemos a isenção de imposto de renda para quem ganha até cinco salários mínimos, o que alivia o orçamento das famílias de classe média. Tem ainda o projeto de lei que propõe a permanência e o aumento do imposto que os bancos devem pagar pelos lucros exorbitantes que têm alcançado. E como também falamos durante a campanha, que nos oporíamos à iniciativa de armar a sociedade como política de segurança pública, apresentamos o decreto legislativo que propõe a suspensão dos efeitos do decreto de Bolsonaro que arma a sociedade. Como de fato, e não de forma retórica, queremos o combate da corrupção, e o combate mais efetivo da corrupção é tornar a operação do estado cada vez mais transparente, apresentamos um decreto legislativo que propõe a suspensão dos efeitos do decreto da presidência que autoriza praticamente todos os servidores públicos ocupantes de função de direção possam colocar sob sigilo documentos que hoje são públicos.

E de forma irônica, o primeiro a usar esta “brecha” foi o ministro Sérgio Moro, que já esconde que recebeu representantes da Taurus, fábrica de armas, na véspera da publicação do decreto que permite qualquer um pode ter até quatro armas em casa. O mesmo Moro, que vazou o áudio da presidente Dilma numa conversa com o presidente Lula e disse que era de interesse público. E agora, ele ministro, se reunir com a direção de uma empresa que fabrica armas num dia, e na sequência sair um decreto que autoriza as pessoas a comprarem armas, é uma situação que a sociedade deve julgar. E aí reforça a tese de que Lula foi vítima de uma conspiração e é um preso político.

Cinform: Recentemente a sociedade acompanhou perplexa a votação da presidência do Senado. O que o senhor tem a dizer acerca daquela votação?

RC: Ali foi um total desrespeito ao senado e à sociedade. Aquelas sessões são preparatórias, designadas a dar posse aos novos senadores, e para eleger o presidente da casa. Mas o que vimos, foi a tentativa autoritária de desrespeitar o regimento para assegurar os interesses do governo, e eleger o seu candidato. Foi uma clara demonstração de como o governo Bolsonaro se relaciona com as instituições, com total desrespeito e autoritarismo.

Cinform: Faz uns meses a imprensa começou a divulgar o escândalo de corrupção envolvendo Flávio. Isto é escândalo midiático ou há mesmo corrupção ali? Por que os parlamentares ainda estão tímidos para falarem desse assunto?

RC: É um fato, e ao que tudo indica era o jeito de a família Bolsonaro se relacionar com os mandatos. Não só o Flávio, o Carlos, o Eduardo e até mesmo o próprio Bolsonaro. Eles usavam “laranjas” para se apropriar de dinheiro público e, portanto, uma ação criminosa, que pelo rigor do Moro contra o Lula, agora o ministro da Justiça tinha que estar tratando diariamente sobre este assunto. Antes de o debate chegar à casa legislativa é preciso que o ministro da Justiça e o Ministério Público apresentem “power points”, e outras mídias que descrevam o modo de operação da família Bolsonaro.

Cinform: Assuntos como cotas raciais, homofobia, direitos humanos, descriminalização do aborto, essas políticas públicas geralmente são vistas como pautas prioritárias da esquerda. Mas o Bolsa Família foi criado pelo FHC. Quando o senhor ouve que estas pautas são de esquerda pensa o quê?

RC: Primeiro, que o Bolsa Família não foi criado pelo FHC. O programa é uma pauta assumida pelo governo do presidente Lula de fazer valer o nosso sistema de seguridade social, com o estabelecimento de critérios que tornou universal o acesso ao benefício da assistência social que é o Bolsa Família. Isso não é uma pauta de direita ou de esquerda, essa é uma pauta humanitária, de redução da miséria, da pobreza, é uma pauta civilizatória, assim como as demais. Todas são políticas afirmativas dos nossos governos que retiraram da invisibilidade ou do anonimato ou do esquecimento, milhões de brasileiros que passaram a ser vistos através, por exemplo, do sistema de cotas para negros e índios para o acesso à universidade, do estímulo à aplicação da lei maria da penha, da publicização do debate sobre gênero de forma respeitosa, sem discriminações.

Cinform: Recentemente vivemos a tragédia de Brumadinho. Por que a fiscalização de obras e instituições e recursos é algo tão mal feito no Brasil?

RC: Como está na letra de uma as canções da banda Legião Urbana: “vivemos num mundo doente”. O estado brasileiro tem várias patologias, e o pior é que estão propondo outras doenças como remédio. É só ver o decreto do presidente que permite que dirigentes do serviço público federal coloque sob sigilo documentos públicos por até 25 anos, sem a autorização expressa do presidente. O exemplo da barbárie que isto representa pode acontecer caso este decreto seja aprovado. Documentos do Ministério de Minas e Energia relacionados a brumadinho que podem ser colocados sob sigilo e ninguém saber o conteúdo. Quero dizer com isso que precisamos de regras e processos mais simples, transparentes, que funcionem, e não o “controlismo” de tantos órgãos sobre as operações do estado que não são efetivos e não evitam tragédias como essa.

Cinform: Por que projetos urgentes como a questão das barragens, por exemplo, acabam engavetados no Senado?

RC: Porque eles são na sua grande maioria iniciativas inconsistentes e têm muito mais a intensão de colocar sob o holofote os proponentes do que resolver efetivamente o problema. São propostas que tratam de temas já regulados e que propõem aumento de pena, de punição, mas o principal não depende de leis, depende de um estado que funcione conforme as regras já existentes. O Brasil e nós brasileiros temos ainda dificuldade de nos submetermos às regras, até mesmo os guardiões das regras que deveriam tê-las como referência de sua atuação, se acham acima das regras. Isso é uma doença que o Brasil precisa curar para que Brumadinhos e outras tantas tragédias não ocorram mais, ou melhor, ocorram cada vez menos.

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