Os sobreviventes da tirania de Maduro


Venezuelanos buscam abrigo todas as noites em posto do Exército montado em Boa Vista (Fotos: Jorge Alexandre)

Na vida todos somos sobreviventes. De uma maneira ou de outra. Alguns mais. E há aqueles que, mesmo no extremo, no caos lutam pela sobrevivência. Por vezes, quando estamos bem nós nos esquecemos disso, da realidade. Mas aí vem a história, ou as histórias, para nos lembrar. Durante esta semana o CINFORM esteve na fronteira do Brasil com a Venezuela para contar hoje para você, leitor, a história de alguns desses sobreviventes

PAULA COUTINHO

Bárbara Camila tem hoje exatos 14 dias de vida. É miúda, nasceu prematura em um dos hospitais públicos de Boa Vista, capital de Roraima. Nem bem completou um mês de vida e está atravessando a fronteira clandestina entre Brasil e Venezuela, caminho que a levará de volta para casa. Nasceu brasileira, de pais venezuelanos e em meio a uma crise socioeconômica lá na Venezuela onde a ordem de matar o próprio povo parte do próprio governo. A história da pequena começou dias antes do nascimento dela aqui no Brasil.

E foi iniciada com a vinda da mãe, a Bárbara Garcia, passando legalmente pela fronteira da Venezuela com o Brasil, por Pacaraima, cidade pertencente ao estado de Roraima. Já com a bolsa estourada, prestes a dar à luz e com medo de enfrentar um parto complicado em um país onde não há mais médicos, hospitais, insumos hospitalares, remédios, a mulher decidiu – como inúmeros outros venezuelanos e com maior fluxo desde 2015 – sair da Venezuela.

Bárbara Camila, com apenas oito dias, nos braços da mãe venezuelana que trabalha nas minas de El Dorado

Só não esperava que depois do nascimento do bebê a fronteira com o Brasil fosse fechada, nem que a guerra interna de Nicolás Maduro contra a própria população se acirrasse e ela tivesse que enfrentar 57 quilômetros de trilha clandestina para chegar na cidade de Santa Helena, e de lá partir para as minas de Eldorado, local onde fica um dos garimpos mais ricos da Venezuela, onde, usando as palavras de Bárbara, “todas as pedras têm ouro”.  

A história de Bárbara é a de uma mulher, venezuelana de 26 anos, que trabalha vendendo chocolates e doces, comprados aqui no Brasil, no garimpo da Venezuela, nas minas de El Dorado. Apesar de inusitada, porque quase ninguém enfrenta uma travessia dessas estando de resguardo e com uma bebê de poucos dias de nascida, o feito dessa mulher de 26 anos revela hoje o cotidiano de centenas de venezuelanos. E a cada detalhe contado o que se vê é a luta árdua pela sobrevivência em uma terra onde um ditador impera dizimando quem está contra o “reinado” dele.

Exército brasileiro entrega quentinhas aos venezuelanos que chegam ao local. As refeições são doadas por entidades civis, sociais e religiosas que também participam da Operação Acolhida

OPERAÇÃO ACOLHIDA

Conhecemos Bárbara Garcia por volta das 20h da noite da última sexta-feira, dia 1, deitada e já pronta para dormir, em uma barraca do posto da Operação Acolhida do Exército Brasileiro montado  especialmente para auxiliar os migrantes venezuelanos que chegam ao Brasil entrando por Pacaraima. Ali, somente neste posto, de setembro para os dias de hoje, foram atendidas aproximadamente 60 mil pessoas.

A Operação Acolhida funciona da seguinte maneira: os homens, mulheres, jovens e crianças que ali chegam podem guardar com segurança os poucos pertences que conseguem trazer, fazem refeições que são doadas pelas entidades civis, sociais e religiosas que participam do projeto, têm direito a barracas cedidas pelo exército para dormirem, conseguem informações acerca da própria documentação e muitos recebem auxílio para embarcarem para outros estados brasileiros para tentarem a vida. Na último sábado, por exemplo, um grupo significativamente grande partiu de madrugada para Manaus. Foi em uma destas barracas que a equipe do CINFORM conheceu Bárbara. E soubemos que ela queria regressar à casa. Como íamos no domingo para a fronteira e Bárbara precisava de uma carona segura, resolvemos ajudar.

Para contar essa história de travessia de volta à casa e de sobrevivência o CINFORM percorreu a distância de mais de 200 quilômetros de carro de Boa Vista a Pacaraima, levando consigo Bárbara e a filha recém-nascida nos braços dela. A menininha dormia suavemente enquanto a mãe narrava, ainda dentro do carro, antes de chegar a Pacaraima, os últimos fatos que mudaram completamente a vida das duas.

Fila de refugiados aguardando cadastramento em Boa Vista

AS MINAS DE ELDORADO

“Meu marido faleceu há três meses em um acidente no garimpo lá nas minas de El Dorado. Tenho outros dois filhos pequenos, de um ano e de quatro anos. Sobrevivo de vender chocolate, remédios, comida para os garimpeiros. Lá nas minas vulcânicas da cidade de El Dorado na Venezuela as pedras têm ouro. Sei que podem me achar louca de estar voltando mas faço tudo pelos meus filhos, por todos os meus filhos. Como posso ficar aqui sabendo que tem dois de meus filhos lá, sozinhos, pequeninos?”. E a força necessária a Bárbara neste momento ela diz encontrar porque é “necessário”.

EM PACARAIMA

Diretamente da fronteira encontramos Luiz Miguel Costa Gomes, um dos venezuelanos que prendeu e queimou dois carros dos militares de Maduro no dia em que a fronteira com o Brasil foi fechada, 23 dia de janeiro. “Aqui na Venezuela não há comida, não há medicina, não há emprego, não há nada. Então, quando o governo venezuelano trancou a fronteira, naquele momento de desespero, nós entramos em confronto para que ajuda humanitária entre em nosso país”.

Luiz Miguel disse que precisou tomou essa decisão no dia em que a ajuda humanitária vinda dos Estados Unidos fora proibida. “A maioria de nós venezuelanos que moramos em Santa Helena (cidade venezuelana) fazemos frequentemente este caminho para Pacaraima para comprarmos comidas e remédios e levarmos de volta para a nossa terra, porque a Venezuela hoje é um caos, não há nada. No dia que trancaram a fronteira tinha um posto do exército de Maduro montado nas proximidades. Militares deles já estavam nos perseguindo, perseguindo o povo. Alguns deles até foram embora, desertaram do exército. Aí, sobraram dois carros, nós queimamos”. Já no final da entrevista, Luiz Miguel fez um pedido:

Posto montado pelo Exército acolhe venezuelanos que chegam ao Brasil e atende aqueles que desejam retornar ao seu país de origem

“Eu peço de coração a todos os países e espero que meu pedido, o nosso pedido de ajuda, chegue a todos os meios de comunicação e a Maduro diretamente. Todos nós sabemos hoje que este nosso presidente (Maduro) está no cargo a força, apoiado pela ditadura. Nosso presidente se chama Juan Guaidó, nós não queremos mais o governo de Maduro. Não podemos mais ficar nesta situação, sem insumos, sem medicamentos, como está aqui esta senhora que vocês (o CINFORM) trouxeram, essa mulher com esta bebê de colo (Bárbara e Bárbara Camila, respectivamente), que teve que atravessar a fronteira para dar à luz. Nós queremos que, sem violência, sem guerra, porque somos um povo de paz, que Maduro se vá, com toda a comitiva dele, que saia da presidência. Estão nos matando sem compaixão. Apelo a todos os meios de comunicação que divulguem nosso sofrimento, que ouçam o que estamos passando aqui”.

Deixando Bárbara Garcia ali, para a travessia clandestina, seguimos andando pelas ruas da pacata Pacaraima que atualmente já não é nada tranquila. Os moradores estão sofrendo com a violência, os assaltos, o medo constante de haver conflitos na Venezuela que prejudiquem o Brasil. Por outro lado, há um problema iminente difícil de ser solucionado ocorrido por causa do fechamento oficial da fronteira, que é o comércio local de Pacaraima e arredores. Isto porque a cidadezinha brasileira é um ponto de parada, de partida, lá não há – por exemplo – nenhum posto de gasolina.

SEM GASOLINA E COM VIOLÊNCIA

O único posto de gasolina próximo e ainda em funcionamento fica exatamente na Venezuela, do outro lado. E sempre foi lá que venezuelanos e também brasileiros abasteceram os carros para dirigirem nas redondezas. Com o fechamento da fronteira não há como abastecer os veículos. E quem vai de Boa Vista para a pequena Pacaraima tem que ir preparado, com o tanque de combustível cheio. Agora, o posto mais próximo fica na BR quase chegando a Boa Vista, capital de Roraima, onde a equipe do CINFORM ficou hospedada nesta viagem.

Outra dificuldade é com alimentação. Para que se tenha uma ideia, um simples prato de macarrão em Pacaraima está custando R$60 reais. Para comprar um pacote de macarrão, produto que se compra em qualquer outro lugar do Brasil por R$3 ou R$4 reais, em Pacaraima você tem que desembolsar exatos R$85 reais.

Por volta do meio dia (horário de Brasília, o fuso horário de Roraima é atrasado em uma hora) paramos o carro em uma vendinha que tem de tudo um pouco, salgadinhos, água de coco, jaboticaba. Não demorou muito para que dois venezuelanos entrassem ao local e começassemos todos a conversar.

Um deles, Argemis Amares é advogado, mestre em Direito, professor universitário da Universidade Territorial de Taica e da Universidade Bolivariana da Venezuela e funcionário público do órgão similar à Receita Federal naquele país – SENIAT (Serviço Nacional Integrado Aduaneiro Tributário). Pedimos bebidas. Não demorou muito para que o cabisbaixo professor universitário começasse a relatar o que se passa no país dele.

HÁ 20 ANOS ESTÃO MATANDO VENEZUELANOS

“Vim para o Brasil porque um melhor futuro lá (na Venezuela) não tem. O mundo abriu os olhos para o problema da Venezuela agora, e sabemos porque. Porque nosso país é rico em petróleo e minérios. Mas são 20 anos que o ‘nosso’ governo está matando o povo. O governo mata e deixa todo mundo ver que matou para que sirva de ‘exemplo’ (bode expiatório). Existe uma história lá em nosso país que é muito conhecida. A história de Oscar Perez, um policial. Ele foi assassinado há um ano. Na época, ele tinha se rebelado contra o governo de Maduro e tinha se desertado. Mas o governo o encontrou e o matou com requintes de crueldade, exibindo o feito para toda a população para que todos que são contra Maduro saibam o que acontecerá. Nossa situação é antiga. Porque Maduro hoje está agindo e sendo coordenado pelas forças do comunismo internacional, que quer implantar a ditadura comunista em nosso país. Mas, por outro lado, também existem as forças do capitalismo e todo o imperialismo que advém delas, que certamente estão ‘atentos’ às nossas riquezas minerais. Maduro foi eleito por meio de uma fraude, com máquinas eleitorais fraudadas, e o governo dele vem de outros, faz parte de um chavismo que dizima e mata venezuelanos”.

Acampamento montado pelo Exército Brasileiro em frente à rodoviária de Boa Vista já ajudou mais de 60 mil venezuelanos, de setembro de 2018 até hoje

E continua: “A Venezuela hoje está entregue a uma corrupção desmedida, em todos os órgãos e sem nenhum escrúpulo. Se nós formos ao Ministério Público de lá e denunciarmos, por exemplo, uma empresa estatal, como vocês fizeram aqui no Brasil com a Petrobras, nós não somos ouvidos, mandam nos prender, nem apuram a denúncia para saber se tem ou não procedência. Toda a guarda municipal é corrupta. Agora, com essa crise acirrada e com as fronteira fechadas está ficando cada dia pior andar de uma cidade para outra. Porque se você passa pela guarda municipal de uma cidade ou pela polícia ou pelo exército de Maduro eles te cobram taxas ilegais. A entrada de Juan Guaidó no país é um ato político preparado em conjunto com todo o mundo”.

O professor universitário e advogado diz estar vivendo um regime ditatorial no país dele, porque “quando se bate em uma Constituição e na Lei instala-se uma ditadura”. O chavismo de que fala o professor universitário Argemis Aramis, o regime implantado por Hugo Chávez em 2000 e herdado por Maduro, traz hoje consequências de gritantes disparidades sociais. Exemplos não faltam. Pelas ruas de todas as cidades é comum verem militares disparando contra civis. Do lado brasileiro em Boa Vista, hospitais estão congestionados e 13 abrigos montados lotados de gente, quase sem espaço para acolher mais ninguém.

Enquanto o povo passa fome os filhos Chávez, herdeiros também do bolivarianismo pregado por ele, exibem riqueza nas redes sociais. María Gabriela Chávez, chamada pelo pai de ‘heroína’, mora em Nova York, é embaixadora da ONU. A caçula, Rosinés, mora em Paris, estuda em Sorbonne e adora postar fotos em carros luxuosos e maços de dólares. E a coisa não para aí. Os filhos da cúpula dos altos militares de Chávez e Maduro seguem a mesma linha. São fotos nos aeroportos internacionais com paradas em hotéis de luxo, post em festas badaladas.

Militares desertores relevam claramente que hoje Nicolás Maduro não consegue deixar o governo porque tem negociatas com máfias de russos, cubanos e chineses infiltrados no país e que o protegem, numa espécie de um toma lá dá cá que mantém o narcotráfico e o mercado de contrabando na Venezuela. Um destes militares conversou com a equipe do CINFORM hoje, quinta-feira, dia 7, e ratificou que, se falar o que sabe, morre. “O governo de Nicolás Maduro sabe onde estão nossas famílias. Eu consegui fugir para cá, para o Brasil, há oito meses. Mas se eu me identificar, se eu contar como funciona todo o esquema de Maduro, eles matarão meus familiares”.

REGRESSO DE GUAIDÓ

O autoproclamado presidente da Venezuela, Juan Guaidó, chegou ao país no último dia 4, vindo pela fronteira com a Colômbia. As forças militares de Maduro não o impediram de entrar, tampouco tentaram prendê-lo, como havia sido divulgado dias antes e com veemência, mundo afora. Guaidó foi ovacionado na hora da chegada, logo no aeroporto de Caracas, e também em todos os atos públicos que esteve.

Nas ruas, venezuelanos gritam o nome dele com esperança de conseguirem finalmente uma trégua na guerra interna imposta por Maduro declarada contra a própria população. Em um dos discursos de Guaidó com líderes sindicais, o presidente autoproclamado agradeceu o apoio recebido do povo e dos demais países, a que chamou de “uma demonstração do forte compromisso do mundo com a democracia venezuelana”.

Laura Vásquez e André López, mãe e filho que vieram da Venezuela para Aracaju em janeiro de 2018 (Foto: Julia Freitas)

EM ARACAJU

Os venezuelanos e venezuelanas estão por toda a parte do mundo. Encontramos uma delas em Aracaju, a jornalista Laura Rebeca. Laura tem três filhos, de 23, 24 e 28 anos, um deles continua na Venezuela. O caçula, de 23 anos, está atualmente com ela em Aracaju.

“Maduro fez eleições em maio de 2018 mas desrespeitou as regras do processo eleitoral. Formou um conselho eleitoral constituído dele mesmo. Ganhou as eleições fraudando. Até a empresa que fez o reconhecimento dos resultados disse isso, falou em fraude. Porém, mesmo ganhando, as comunidades internacionais não o reconhecem como presidente. Sou sim favorável à entrada de Guaidó. Ele é sim o presidente encarregado porque nossa constituição tem isso previsto na lei. Isso, essa ditadura, começou com Hugo Chávez. Chávez começou e Maduro o seguiu”.

E reitera: “Falo que Maduro é pior do que um ditador, ele e toda a cúpula do governo dele são uns delinquentes mesmo. Lá é assim, se uma pessoa faz algo que desagrada o governo eles colocam a pessoa na cadeia sem julgamento, não deixam a pessoa se defender, mudam os fatos.

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