O complicado caso do Hospital do Câncer de Sergipe


Estado de abandono do que seria o Hospital do Câncer de Sergipe (Fotos: Arquivo Cinform/Vieira Neto)

As pessoas continuam sofrendo na fila de espera por um atendimento digno, enquanto políticos trocam farpas, fazem promessas eleitoreiras e celebram novas conquistas

Todos lembram de quando circulou pelo estado de Sergipe um abaixo-assinado, coordenado pelo ex-senador Eduardo Amorim, colhendo assinaturas para implantação do já famigerado Hospital do Câncer de Sergipe.

Não faltaram candidatos à autoria do projeto: senadores, deputados, até três governadores. A mídia e a população fecharam em favor da construção do hospital, quase uma comoção estadual. Foram mais de 300 mil assinaturas só na lista de Eduardo Amorim, lá pelos idos de 2011 para 2012. Mas, outras organizações civis também criaram abaixo assinados. Enquanto isso, as pessoas iam morrendo.

Os anos se passaram, houve uma renhida batalha de egos, cada político assumindo a paternidade do hospital, enquanto pessoas continuavam morrendo por falta ou deficiência de atendimento, desde que não dispusessem de recursos para tratamento fora de Aracaju, coisa que havia em qualquer lugar das adjacências do Estado, até mesmo em cidade do interior de Alagoas, como é o caso de Arapiraca.

Em 2013, o deputado Francisco Gualberto anunciou o início da obra

Indícios de inação do Estado

O orçamento previsto para execução do projeto, aí incluídos também os equipamentos, móveis e utensílios, é da ordem de R$126 milhões, sendo que o estado de abandono em que se encontra o canteiro demonstra que não há qualquer ânimo de retomada daquela obra de grande importância para os acometidos pelo câncer em Sergipe, enquanto as pessoas continuam sofrendo por falta de acomodações, de leitos e de outros.

Pelo último relatório do Tribunal de Contas do Estado, menos de 3% das obras foram executados, o que é uma piada de mau gosto, considerando-se que todo esse imbróglio se arrasta desde 2012, sendo que ocorreu a última licitação em 2016, para retomada dos serviços, já que houve uma desistência da construtora.

Um hospital completo

Quem conhece o Hospital do Câncer de São Paulo, o AC Camargo, pode ter uma ideia do que falta aqui em Sergipe ao ver um hospital público da mais alta qualidade, que é o mais bem-referenciado da América Latina, sendo um dos melhores do mundo.

Executado esse projeto, Sergipe vai contar com unidades de emergência, de fisioterapia, ambulatórios, laboratórios, tecnologia para transplantes de medula, dois aceleradores lineares, dois bunkers para radioterapia, bunker para braquiterapia, além de equipamentos mais comuns como ressonância magnética, unidades de cintilografia e mamografia, tomógrafo e radiografia.

 Para acomodação dos pacientes, além de confortáveis salas de espera climatizadas nos diversos setores, serão disponibilizados 120 leitos para adultos, 30 leitos para crianças além dos imprescindíveis leitos de UTI em número de 20, totalizando 170 leitos. Com certeza teremos um dos mais bem estruturados do Brasil, contanto com um layout mais moderno e totalmente voltado para esse objetivo.

Em 2016, mais uma vez, Jackson Barreto assegurou o início da obra

Houve melhoras no tratamento

Enquanto se aguarda pelo desenrolar desse pacote de incompetência, estive conversando com uma oncologista, Dra. Élida que afirmou “Nesses últimos meses, as coisas até que estão funcionando na radioterapia. Tem filas, mas em qualquer lugar do Brasil também tem. Se você for em Salvador, em São Paulo, em todo lugar tem fila. Em alguns você pode até ter mais conforto, agora, fila para tratamento de radioterapia tem em qualquer lugar do Brasil”.

Com relação à incidência, o CINFORM exibe tabela disponível no site do Instituto Nacional do Câncer – INCA, que demonstra os novos casos de neoplasia maligna em 2018, destacando-se que essas previsões foram de 4.930 casos, sendo 2.380 em homens e 2.550 em mulheres. Infelizmente, parece que essa estimativa foi superada, mas não dispusemos dos dados finais.

Entre os homens, destaca-se o câncer de próstata com 700 casos, seguido de traqueia, brônquios e pulmão com 120 incidências. Já entre as mulheres, ainda é o câncer de mama o mais presente, com 550 casos, seguido do de colo de útero com 250.

Retrato da irresponsabilidade de vários governantes sergipanos

Expectativa da população

Já com números muito mais expressivos, o minucioso estudo “Estimativas 2018 ¬ Incidência de câncer no estado de Sergipe e nas suas regiões de saúde”, elaborado pelo médico Carlos Anselmo Lima, com suporte técnico de CONPREV/INCA/MS: Marceli de Oliveira Santos, o pesquisador sergipano demonstra um quadro muito mais preocupante de 9.320 casos novos de câncer ¬ praticamente o dobro da tabela do INCA, no Estado em 2018. 

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