Os Quadrinhos invadem o MIS


Bob Cuspe, personagem icônico de Angeli

Por Suyene Correia/suyenecorreia@cinform.com.br

Conhecida como 9ª Arte, a arte sequencial ou histórias em quadrinhos nasceu com os primeiros registros pictóricos feitos nas cavernas pelo homem pré-histórico. Sua popularização deu-se com a divulgação na imprensa e nos jornais em meados do século 19 e, gradativamente, gibis, charges, cartoons e tiras foram fortalecendo essa arte democrática, criativa e sofisticada, cujos personagens servem de inspiração para outras mídias e expressões artísticas.

Um manancial da produção de HQs pelo mundo, em diferentes épocas, pode ser conferido na exposição “Quadrinhos” que prossegue em cartaz até 31 de março no Museu da Imagem e do Som (MIS), localizado no Jardim Europa, na capital paulista. É uma exposição gigantesca- mais de 600 itens- que requer tempo e disposição dos visitantes para percorrer, atentamente, os dois pisos do museu e fazer registros fotográficos de itens raros ou selfs ao lado de personagens icônicos.

No hall de entrada, transformada numa caverna, onde habitam figuras como Brucutu (personagem criado por Alley Oop), o pequeno dinossauro Horácio e  Piteco (criações de Maurício de Sousa) e os membros da Família Flintstones, somos orientados pelos funcionários do museu como devemos proceder durante a visitação. A ordem é seguir logo para o segundo andar e depois descer para o primeiro.

Já nas escadas de acesso ao segundo piso, deparamo-nos com a seção ‘Origens’ e ‘Caricaturas e Charges’, onde vídeos didáticos traçam um panorama da arte sequencial milenar encontrada na Caverna de Altamira (Brasil) e em Lascaux (França); nas pirâmides egípcias; em edificações gregas como o Paternon (friso) e na Tapeçaria de Bayeux (Normandia). Essa arte classificada por alguns estudiosos como “protoquadrinhos” dividem o espaço com sequências de gravuras do japonês Katsushika Hokusai (1760-1849) e o inglês William Hogarth (1697-1764).

Seguindo pelas escadas, temos ainda uma série de cartoons produzidos por figuras como o alemão Wilhelm Busch (1832-1908) criador de Max e Moritz; o brasileiro J. Carlos (1884-1950), que com seu inconfundível traço, ilustrou capas de revistas como Careta, O Beija-Flor e Calixto Cordeiro (1877-1957) colaborador da revista Mercúrio.

O segundo andar, dividido em seis ambientes distintos- ‘Tiras’, ‘Europa’, ‘Mangá’, ‘Erótico’, ‘Maurício de Sousa’ e ‘Angelo Agostini’- demonstra a riqueza informativa dessa exposição, ainda que algumas peças estejam fora do alcance visual do espectador, como é o caso das dezenas de cataventos feitos de tirinhas, ocupando toda a extensão das paredes do ‘Suplemento de Tiras’, que não facilita a leitura quando pendurados a uma certa altura.

Não raro, se observa um sorriso surgir no canto da boca do vizinho do lado, encantado com o cinismo de Garfield, a sagacidade de Deus (Um Sábado Qualquer), as atrapalhadas de Níquel Náusea, a amizade quase pueril de Calvin e Haroldo.

Espaço reservado aos Quadrinhos da Europa

Na seção intitulada ‘Europa’, mostra-se o quanto o ‘Velho Continente’ foi construindo uma tradição na criação de HQs, sendo o francês Claude Beylie o criador do termo 9ª Arte. É um salão com totens com plotagens de personagens famosos como Tex, Diabolik, Dylan Dog, Asterix sempre acompanhados de textos explicativos sobre seus criadores, com destaques para os espanhóis Paco Roca e David Rubin; os italianos Milo Manara, Guido Crepax, Manuele Fior e Sergio Toppi; o belga Hergé e o francês Jean Giraud, bem como os cartunistas da Charlie Hebdo.

Não menos interessante é o espaço dedicado para o ‘Mangá”. Com origem estimada no século 12, os quadrinhos japoneses ou mangás – termo que significa ‘desenho sem compromisso’ e foi cunhado pelo ilustrador Katsushika Hokusai (1760-1849)- abordam os mais diferentes temas e estilos, desde o caricatural ao realista.

Nos anos de 1950, começam a ser compilados em revistas voltadas a nichos específicos e divididos por gêneros e faixa etária, com histórias ligeiras, pouco texto e diagramação dinâmica. O destaque dessa sala fica por conta de uma réplica da moto do personagem Kaneda, do clássico japonês “Akira”. Impossível deixar de fazer o registro sentado na possante.

Um dos espaços mais concorridos para visitação é a sala reservada aos HQs eróticos. Proibido para menos de 18 anos, o cubículo simula um banheiro de bar ou boate, com desenhos rabiscados e frases de efeitos escritas nos azulejos brancos ao lado das pias como nas cabines individuais. Os registros impressos mais remotos desse gênero são as célebres revistas conhecidas como Tijuana Bibles, Dirty Comics ou Eight Pagers, lançados nos anos de 1920.

Eram produzidas por desenhistas anônimos e de pouca destreza no traço. A exceção era Wesley Morse (1897-1963), autor que não se ocultava sob pseudônimo. Já no Brasil, o nome mais representativo do gênero foi Carlos Zéfiro, pseudônimo de Alcides Aguiar Caminha (1921-1992), cujos desenhos ilustraram muitos ‘catecismos’- como eram chamadas essas publicações no país-, numa época em que ainda era escasso o acesso a revistas de mulheres nuas e filmes pornôs.

O espaço Maurício de Sousa concentra todo o encantamento da Turma da Mônica, mostrando o processo de evolução dos personagens (aprimoramento do traço) e também o desenvolvimento de publicações voltadas para o público adolescente e desenhos animados para crianças ainda não alfabetizadas. É possível apreciar um exemplar do gibi “Zaz Traz”, onde Maurício publicou suas primeiras tiras e o primeiro exemplar da Turma da Mônica, nos anos de 1970.

Na escada que dá acesso ao primeiro piso, estão distribuídos exemplares de publicações onde se notabilizou Angelo Agostini (1843-1910), o patrono dos quadrinhos brasileiros. O ilustrador e chargista italiano que estudou artes em Paris e depois mudou-se para o Brasil fundou “O Cabrião” e a “Revista Illustrada”, além de estrear a série Nhô Quim no Jornal Vida Fluminense considerada a 1ª publicação regular em quadrinhos do Brasil e colaborando para “O Tico-Tico”, primeira revista em quadrinhos brasileira editada em 1905.

O primeiro piso dedica boa parte de suas salas para os artistas brasileiros. O primeiro deles é Ziraldo, desenhista mineiro que lançou seu personagem Pererê, com revista própria, entre 1960-1964, participou do célebre Pasquim (1960-1970) e criou personagens memoráveis como Supermãe, Jeremias e o Menino Maluquinho.

Depois, entramos numa sala circular, onde o espectador pode conhecer um pouco da produção nacional durante e pós-ditadura militar, com nomes de destaque como Toninho Mendes, Luiz Gê, Henfil, Angeli, Laerte e Glauco. Esses três últimos, conhecidos como Los Três Amigos ganharam atenção especial, com projeções de suas criações mais marcantes e totens com textos explicativos sobra a trajetória de cada um.

Um protótipo de banca de revistas reúne exemplares de livros de jovens autores como Carlos Ruas (“Um Sábado Qualquer”), os gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá (“10 Paezinhos”), Rafael Grampá, André Diniz (“Subversivos”, “A Classe Média Agradece”), Marcelo D’Salete, entre outros. Completando o espaço tem-se uma galeria de troféus do HQMIX, a premiação máxima dos quadrinhos no Brasil, criada em 1988, por iniciativa de Jal e Gual. O curioso é que a cada ano, o troféu ganha um novo formato, permitindo homenagear personagens variados do universo nacional.

15o Troféu HQ Mix esculpido por Olyntho Tahara

Praticamente, a exposição já está na sua fase final, quando deparamo-nos com a produção da América Latina. É uma pena, que os organizadores tenham reservado uma seção tão modesta- uma espécie de corredor- para abrigar parte da produção gráfica dos nossos hermanos quadrinistas. Mas não faltaram os trabalhos de Carlos Nine, Roberto Alfredo Fontanarrosa, Horacio Altuna, Félix Vega, Marcela Trujillo, Maitena e Power Paola. Senti falta do personagem Gaturro de Cristian Dzwonik. Em compensação, um grande painel interativo revela a imagem de Mafalda, personagem icônico criado pelo argentino Quino.

O grand finale da exposição “Quadrinhos” ficou reservada para a produção da América do Norte, mais precisamente para os Estados Unidos responsáveis pelo mercado de quadrinhos mais movimentado do mundo. Ao longo das décadas, as tirinhas de jornais foram abrindo caminhos para outras publicações, a exemplo dos comic books publicados pela DC Comics e Marvel Comics. As salas reservadas aos super-heróis dessas majors dos HQs são bastante atraentes com esculturas de tamanho natural- como é o caso de “Aquaman”- e em menor tamanho (Batman, Mulher-Maravilha), além de TVs onde são exibidos cenas de filmes do Universo Estendido DC.

Guarde um pouco de disposição para finalizar o percurso apreciando os trabalhos dos pioneiros como Richard Felton Outcault criador do Yellow Kid; Winsor McCay e seu Little Nemo; George Herriman idealizador de Krazy Kat; Chester Gould, o “pai” de Dick Tracy; Jim Davis e seu gato temperamental, Garfield; Walt Disney e todo seu arsenal criativo como Mickey, Tio Patinhas, Pato Donald, Pateta, Urtigão, Madame Min e Maga Patalógica, entre outros.

Por fim, não poderia faltar Will Eisner, o precursor do quadrinho adulto, inventando um novo formato para as HQs em jornal, com The Spirit, nos anos de 1940. Visionário como só ele, Eisner serviu o Exército e convenceu as Forças Armadas a ensinar os soldados a cuidarem do armamento, a partir dos quadrinhos. A partir de 1970, decide apostar nos quadrinhos em formato de livro e comercializados nas livrarias, cavando o novo espaço com a publicação “Um Contrato Com Deus” (1978). Professor e autor de manuais, Eisner recebeu diversos prêmios e emprestou seu nome ao grande troféu do quadrinho norte-americano. É possível conferir um breve depoimento do “mestre” numa TV instalada ao lado de sua mesa de trabalho cenográfica.

A exposição seria perfeita se não fosse pelo fato de algumas obras estarem na penumbra, dificultando não só os detalhes das mesmas, como impossibilitando, muitas vezes, o visitante de ler as plaquetas explicativas. Mesmo assim, visitar “Quadrinhos” consiste numa experiência incrível, onde a memória afetiva será, inevitavelmente, acionada, independente da sua idade.

Devido à grande procura, é melhor chegar cedo ao Museu da Imagem e do Som de São Paulo, que funciona de terça a sábado, das 10 às 20h, domingos e feriados, das 9 às 18h. O ingresso na bilheteria do museu custa R$ 14 (inteira) e R$ 7 (meia) ou adquira o ingresso pelo app da Ingresso Rápido. Às terças-feiras, a entrada é gratuita.

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